Discriminação é "mais positiva do que negativa"


A noção que Bento Amaral tinha do tempo mudou. Arranjar-se antes de sair de casa, fazer uma simples assinatura ou pegar num copo passou a ser mais demorado, conta este enólogo de 41 anos que, há 16, ficou tetraplégico após ter batido com a cabeça num banco de areia enquanto apanhava boleia de uma onda.

Apesar de estar numa cadeira de rodas e limitado no movimento dos braços, este enólogo é campeão mundial de vela adaptada.

Hoje, é o responsável pela Câmara de Provadores no Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP). Ou seja, a fiscalização de todos os vinhos passa por ele. Além disso, é professor na Escola Superior de Biotecnologia do Porto da Universidade Católica, precisamente em provas de vinho.

O acidente não impediu o engenheiro alimentar Bento Amaral de terminar o curso, apenas atrasou os estudos um ano. E esteve em Bordéus, em Erasmus. Ao JN, lembra a "dificuldade em arranjar emprego". Fazia trabalhos para a Universidade. E, três anos depois, apresentou, com sucesso, uma candidatura junto de uma empresa de telemanutenção que trabalhava com pessoas deficientes.

Entretanto, há 11 anos, outras oportunidades surgiram, ocupou a vaga aberta no IVDP e começou a dar aulas ao fim-de-semana.
"Sinto mais discriminação positiva do que negativa", garantiu. E é alvo de "mais simpatia" do que se não estivesse numa cadeira de rodas, diz Bento Amaral.

"Hoje em dia, sinto-me totalmente integrado", garantiu o chefe de serviço de prova. "Deixamos de reparar que as pessoas olham para nós", disse ainda. No geral, "estão hoje mais sensibilizadas".

O acidente também não o impediu de encontrar o amor da sua vida. É casado há três anos. E pediu a mulher em casamento a bordo de um helicóptero.

Pelo contrário, a vela "está parada", conta Bento Amaral, com tristeza no olhar e explicando ser impossível conciliar esta e as outras vertentes da sua vida.

Até ao fim de semana anterior ao acidente, praticou vela. Retomou em 2001, graças a um casal de australianos que tinha um barco adaptado. Em 2004, ficou em segundo num campeonato mundial, na Austrália. Em 2005, ganhou o mesmo campeonato em Itália. A partir daí, entrou nos Paraolímpicos e, com Luísa Silvano, qualificou Portugal pela primeira vez na modalidade. Além disso, bateu um recorde mundial de velocidade de esqui adaptado.
Olhando para trás, garante que apenas conseguiu resistir graças ao apoio da família e dos amigos JN

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