Começamos a pensar em cidades para todos


Um dado para início de conversa: estima-se que 60 por cento da população dos países da OCDE tem mobilidade reduzida. "A acessibilidade não é apenas um problema das pessoas com deficiência", explica a engenheira civil Paula Teles, que tem dedicado os últimos anos da sua vida a desenvolver projectos de mobilidade para cidades. A questão está a ganhar força no país. Nas universidades criaram-se cursos especializados e há várias empresas a desenvolver produtos que vão facilitar a vida de todos.

"Dentro de dez anos este já não será um problema", acredita Paula Teles, que também administra a empresa de estudos m.pt. Esta é a projecção da especialista para a próxima década. E hoje, como são as coisas? "Noventa por cento do que se está a fazer nos territórios é a negação da mobilidade. Há cidades que estão a construir passeios que são autênticas montanhas-russas", responde.

A análise de Jorge Leite, da direcção nacional da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo), aponta no mesmo sentido: "Em Portugal não há nenhuma cidade que se destaque em termos de mobilidade dos peões. É lamentável porque, em 1997, saiu legislação neste campo e o prazo para tornar Portugal acessível era 2004", avalia. Em 2006, a legislação foi corrigida e o novo prazo para resolver os problemas de acessibilidade foi alargado para 2012 ou 2017, conforme o ano de construção do local a adaptar.

Há por isso muito trabalho pela frente para tornar as cidades nacionais mais inclusivas e acessíveis a todos. A solução preconizada por Paula Teles passa pela criação de corredores livres de obstáculos, acessíveis a todos. Os percursos desenhados têm um metro e vinte de largura por dois metros e vinte de altura e permitem às pessoas circular de forma segura. "É como se estendêssemos grandes rolos de carpetes sobre as cidades", ilustra Paula Teles. Foi isso que propôs a Portimão, nos oito quilómetros de intervenção concluídos há poucos meses na cidade.

O desafio é agora criar sistemas de continuidade que permitam a uma pessoa com mobilidade reduzida movimentar-se por exemplo ao longo de todo um quarteirão. "Para os idosos, os cegos ou os deficientes, as cidades ideais não são Nova Iorque ou Londres, são aquelas onde podem chegar de casa ao café", aponta a especialista.

Mudança de mentalidades

Apesar das dificuldades, nota-se já uma alteração de mentalidades motivada pelos últimos anos de intervenção nos espaços urbanos, com a eliminação de barreiras arquitectónicas e a sinalização deste género de problemas. "Já existe uma maior consciencialização das pessoas relativamente à acessibilidade. Perante este facto, o poder autárquico já realiza algum trabalho através da implementação de planos de acessibilidade", reconhece Jorge Leite, da Acapo. "Os últimos anos foram uma revolução. Há 15 anos ninguém sabia o que era acessibilidade", concorda Paula Teles.

Essa mudança de mentalidade vê-se também no meio académico. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro abriu em 2007 uma licenciatura em Engenharia da Reabilitação e Acessibilidade, que foi a primeira da Europa com estas características. No ano passado, o exemplo português foi seguido pela Universidade de Coventry, no Reino Unido.

Também o Instituto Português da Qualidade tem em marcha um projecto de certificação de qualidade da acessibilidade. No âmbito desse trabalho, foi criada uma comissão técnica que reúne engenheiros civis, projectistas, empresas de transportes como a Carris, a STCP e os metros de Lisboa, Porto e Mondego, e organismos públicos como o Instituto Nacional para a Reabilitação, que têm discutido soluções para este problema.

A esse debate juntaram-se também várias empresas que nos últimos anos têm estado a desenvolver produtos com o objectivo de facilitar a vida nas cidades. É o caso da Thyssen, que está a criar elevadores que facilitam o acesso a pessoas com mobilidade reduzida, e da Soltráfego, que tem praticamente prontos a entrar no mercado novos semáforos, parquímetros e máquinas de bilhetes para transportes públicos pensadas para pessoas com mobilidade reduzida. Outra das soluções desenvolvidas por empresas portuguesas é o pavimento podotáctil Kerabraille, da Aleluia cerâmicas (ver texto ao lado).

Um mercado com futuro

Estas empresas responderam ao desafio de pensar cidades para todos e agora começam a tirar proveitos disso. "Os objectivos iniciais do projecto não foram económicos, mas este pode vir a tornar-se num negócio interessante", destaca Alexandre Lopes, director de prospecção da Aleluia. Os pavimentos podotácteis ainda não são rentáveis, mas a realidade pode mudar a médio prazo. "A sociedade está hoje mais disponível para a problemática da mobilidade e isso pode ter alguns resultados", acredita o mesmo responsável.

"A acessibilidade é um factor de desenvolvimento económico e neste momento há um conjunto enorme de empresas a surgir nesta área", conta Paula Teles. A gestora da m.pt. não tem dúvidas que a acessibilidade para todos "será um mercado de futuro". "Hoje não é ainda interessante do ponto de visto económico, mas vai abrir-se um nicho de mercado", antecipa. Desde logo porque, nesta matéria, há ainda muito que fazer nas cidades e há uma tendência para que cada vez mais pessoas tenham mobilidade reduzida.

Além disso, num cenário de crise económica, onde poucas obras são lançadas, as verbas que o QREN prevê para financiar projectos nas áreas das acessibilidades podem ser um chamariz para que algumas empresas apostem no sector. Actualmente há 90 municípios a desenvolver planos de acessibilidades e 17 milhões de euros de fundos comunitários destinados a esses projectos. É esta a realidade que leva Paula Teles a apostar em dez anos de mudança em matéria de acessibilidade. "A eliminação das barreiras arquitectónicas vai ser o principal factor de desenvolvimento dos territórios durante a próxima década", conclui a especialista.

Fonte: Público

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