"O meu pai foi o meu herói"


Que tipo de deficiência tinha o seu pai e como se deslocava?

O meu pai sofreu um acidente de viação com 29 anos. Teve uma lesão traumática. Sofreu uma fratura na coluna e consequente lesão medular. Ficou paraplégico. Andou 20 anos numa cadeira de rodas tradicional, manual. Desfrutou de uma cadeira elétrica, oferecida pelo seu padrinho de batismo, nos últimos 2 anos de vida.

Que tipos de edifícios e transportes revelaram ser os mais problemáticos em termos de acessibilidade? Que tipo de situações eram as mais recorrentes?

O meu pai deslocava-se numa mota de três rodas ou de carro. Não havia, nem há, transportes públicos adaptados para transportar cadeiras de rodas. Tinha autonomia suficiente para orientar a sua vida, como fez até aos seus últimos dias. Quando tinha de ir a um banco, ao centro de saúde, ao talho ou a qualquer instituição, pedia a alguém para informar dentro do estabelecimento que estava à porta e gostaria de ser atendido. As pessoas deslocavam-se ao exterior para atendê-lo. Não existia uma rampa de acesso em nenhuma ou quase nenhuma instituição do concelho. Ainda hoje existem muitas deficiências e as melhorias são muito recentes e poucas. Continua-se a licenciar estabelecimentos sem condições de acesso a deficientes motores, não há controlo na parte elétrica das portas dos edifícios, não há elevador nas escolas, nem passeios com rampas. A câmara continua a licenciar esplanadas exteriores em madeira, obstruindo os passeios. A sinalização é mal colocada e as caixas do correio são inacessíveis. Ao deslocar-se de carro ou mota, o meu pai circulava na via pública com alguma segurança. Mas se tivesse de deslocar-se na cadeira de rodas tinha de o fazer, na maioria dos casos, na via pública, quando o deveria fazer nos passeios. Estava em permanente perigo. Ainda hoje, há condutores a parar ou a abrandar, eu inclusive, para deixar passar alguém em cadeira de rodas, que tem de se deslocar na estrada.

O que o marcou mais enquanto acompanhou o seu pai?

Tinha 8 anos quando o meu pai ficou paraplégico. Eu e a minha família vivíamos numa pequena casa arrendada, sem condições para receber um deficiente motor numa cadeira de rodas. O acesso entre a cozinha e o resto da habitação fazia-se através de 3 ou 4 degraus, obstáculo que se remediou com tábuas que faziam de rampa. Tiravam-se de noite e punham-se de manhã. Ao deitar, a higiene pessoal ou o banho eram feitos numa cadeira especial com uma esponja e um alguidar com água. Foram tempos de sofrimento para toda a família. O meu pai revoltou-se um pouco com a vida. Um jovem dinâmico e empreendedor, um trabalhador exímio, condenado a uma cadeira de rodas. Os conflitos matrimoniais começaram a ser constantes, até à rutura. Com 10 anos, nunca larguei o meu pai, incumbindo-me a mim as tarefas que outrora a minha mãe fazia. Estava-se em 1982/83. Só com a reforma de invalidez, aprendeu o ofício de sapateiro e começou também a vender calçado. Começou a construir habitação própria, comprou um terreno e, com a ajuda das entidades oficiais locais, família e amigos, concluiu a moradia, adaptada às suas necessidades. O meu pai foi o meu herói, o meu ídolo. Não se deixou abater pela doença. Para ele, a vida, depois dos filhos, era o seu bem mais precioso.

Desde os anos 80 até 2004, ano em que faleceu, o que mais me marcou foi a indiferença das pessoas com responsabilidades sociais, para com as pessoas deficientes. Foi uma luta diária para tornar a vida do meu pai melhor, com a qualidade a que tinha direito. Há tantos portugueses nas mesmas condições.

Do seu ponto de vista, e pela sua experiência, quais são as grandes falhas a colmatar em termos de barreiras arquitetónicas nos edifícios públicos? E na legislação?

Quanto a mim, tudo o que está legislado, programado ou estabelecido, foi pensado para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Falta responsabilidade das autoridades públicas, desde as forças de segurança, aos autarcas, aos dirigentes associativos, membros de comissões, professores, etc. Porque nenhum, ou pelo menos a maioria, dos presidentes de câmara ou junta de freguesia, ou arquitetos, ou engenheiros é punido por não respeitar a lei ou pelos seus atos de caráter profissional irresponsáveis. É necessário criar meios de fiscalização rápidos e eficientes nas autarquias, em conjunto com as autoridades, para detetarem as fragilidades das acessibilidades e as comunicarem com celeridade. É preciso mudar mentalidades, algo a começar nas escolas, com as nossas crianças. Elas são o melhor meio de comunicação. Se as próximas gerações forem educadas para sentirem orgulho em denunciar e apontar os corruptos e os corruptores, porque uns não existem sem os outros, para que a justiça faça o seu trabalho, tudo mudará para melhor.

Parece-lhe existir vontade política para resolver este problema?

Não, de forma alguma. Existem valores morais esquecidos, fruto de uma vida exigente, concorrida, stressante, onde as pessoas são avaliadas nas suas atividades profissionais pelos números. Os municípios são parte integrante, diria mesmo fundamental, para que, em grande parte, o problema das acessibilidades seja resolvido. Muitos políticos são orientados por decisões políticas. Não são baseadas em termos técnicos, o que fragiliza uma minoria, sem significado eleitoral. Nos Planos Diretores Municipais, é obrigatório criar acessibilidades. O problema é que não se cumprem as leis, devido ao cálculo político, abdicando de candidaturas possíveis, como as existentes para esta área de intervenção, apenas para os municípios. Deco Proteste

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