Estudantes norte-americanos criam computador controlado pelo olhar


A tecnologia tem se tornado uma ferramenta cada vez mais importante na assistência a pessoas com deficiências. Graças à evolução de softwares e hardwares, quem tem alguma necessidade especial consegue levar uma vida mais confortável, com aparelhos que facilitam a mobilidade e ampliam a independência.

Um dos principais focos dessa indústria é o desenvolvimento de eletrônicos que possam ser utilizados por quem tem movimentos limitados. O problema é que as soluções costumam ser caras e, por vezes, grandes e complicadas engenhocas. Para tentar resolver a questão, uma empresa norte-americana pediu ajuda a universitários. O resultado é um protótipo de computador controlado a partir do movimento dos olhos e que tem um custo de produção aproximadamente 90% menor do que o de produtos semelhantes.

O projeto nasceu da empresa Eyetech Digital Systems, no estado do Arizona. O dono da companhia, Robert Chapel, lembrou-se de seus tempos de faculdade e decidiu fazer um pedido de “socorro” aos estudantes da Brigham Young University (BYU). Há alguns anos, a instituição promove uma espécie de estágio curricular antes de os alunos se formarem. Jovens de diferentes turmas — estudantes das engenharias mecânica, de produção, elétrica — se unem em uma equipe de cinco ou seis pessoas para projetar soluções buscadas por empresas.

O computador que pode ser operado com os olhos começou a ser desenvolvido em setembro do ano passado. A Eyetech Digital Systems cria sistemas de rastreamento ocular há 15 anos, mas tinha um problema: os componentes não eram integrados ao PC, ficavam do lado de fora das máquinas. O presidente da companhia, então, lançou o desafio aos jovens: montar uma estrutura capaz de abrigar os sensores oculares, a tela e todos os dispositivos que existem em um computador a um custo de produção de US$ 1 mil. O orçamento para a pesquisa era o dobro disso (US$ 2 mil) e os futuros engenheiros conseguiram cumprir a meta com US$ 1,5 mil. Produtos parecidos chegam a custar US$ 14 mil.

A máquina final tem uma tela sensível ao toque, 14 polegadas de largura por 10 de altura e roda o Windows 7. Também acolhe o sistema de rastreamento de forma integrada: uma luz LED que reflete nos olhos do usuário, observados por uma câmera infravermelha. A CPU, então, processa as imagens capturadas e as transforma em movimentos do cursor. “Um computador combinado a um sistema de eye-tracking tem muitos usos potenciais, mas um dos nossos principais objetivos foi desenvolver uma unidade de baixo custo, que pode ser adotada em nações em desenvolvimento”, explica Robert Chapel, da Eyetech Digital Systems.

O público-alvo do projeto são tetraplégicos, mas a tecnologia também pode ser utilizada por pessoas com qualquer dificuldade de movimento nos membros superiores. Outro uso é em pesquisas de audiência, nas quais a máquina consegue acompanhar o olhar de um internauta em um site, por exemplo.

Construção refinada
A tarefa dos jovens da Brigham University pode parecer simples à primeira vista, mas exige horas de estudo e testes para verificar a eficiência dos materiais adotados. “Os estudantes tinham que dominar diversas tecnologias para fazer isso. Além de dominar o funcionamento de todos os componentes de um PC, eles também tiveram que desenvolver uma caixa para encaixar tudo perfeitamente, incluindo a máquina e o aparato do rastreamento ocular”, destaca Chapel, que é ex-aluno da BYU. Os cálculos incluíram o posicionamento do usuário em frente ao computador e os ângulos dos sensores e da câmeras infravermelha.

Definir o material que seria utilizado na confecção do protótipo também foi desafiador. Os universitários precisavam escolher uma substância resistente o bastante para suportar objetos em cima da máquina e, ao mesmo tempo, evitar o aquecimento interno. Com um detalhe: a empresa patrocinadora não queria o uso de ventiladores internos. O alumínio levou a melhor na disputa e os estudantes passaram a calcular a espessura das paredes do invólucro. “Isso dá a oportunidade para que eles pratiquem o que aprenderam na faculdade. Trata-se de um projeto real, construído por uma organização real e com consequências reais”, ressalta Gregg Warnick, coordenador de relações externas da Brigham University.

Robert Chapel lembra que a parceria tinha como foco o desenvolvimento de um computador de proporções reduzidas, barato e capaz de abrigar as ferramentas desenvolvidas por sua empresa. “O projeto é básico e não inclui alguns recursos disponíveis em outros PCs ultramodernos. Essas restrições foram intencionais, porque queríamos algo que não fosse caro e que tivesse um processo de confecção descomplicado”, aponta. Mesmo com o protótipo bem-sucedido, Chapel ainda não sabe qual será o preço de comercialização do produto final, nem quando ele chegará ao mercado. O Brasil, contudo, deve ser um dos primeiros alvos da Eyetech Digital Systems — como país em desenvolvimento e pelos seus cerca de 10 milhões de habitantes com alguma deficiência motora.

Concorrente de peso
Enquanto companhias menores procuram alternativas para melhorar os produtos oferecidos aos deficientes, grandes fabricantes de eletrônicos também fazem a sua parte. A empresa sueca Tobii e a asiática Lenovoa apresentaram, no mês passado, um protótipo de notebook controlado pelo olhar. O aparelho foi exibido na CeBIT, feira de serviços de telecomunicações de Hannover, na Alemanha.

Ainda não há previsão de lançamento nem definição dos valores do produto.

Educação para mórmons
O departamento de engenharia da Brigham Young University fica em Provo, no estado de Utah, nos Estados Unidos, e é um dos maiores campus universitários do país em número de alunos. Cerca de 30 mil jovens estudam por lá e precisam seguir os princípios da Igreja mórmon, mesmo que não façam parte dela.

Fonte: Diário de Pernambuco

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