Deficiente esteve um mês para conseguir bilhete da TAP


orge Nascimento quis algo aparentemente simples: comprar uma viagem de avião com partida do Porto e destino a Viena, na Áustria. Ao contrário de qualquer cidadão comum, que levaria cerca de dez minutos na Internet a concretizar esta tarefa, Jorge teve de esperar um mês, até que ontem, após sucessivas trocas de e-mails, decidiu dirigir-se ao balcão de atendimento da TAP no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, onde esteve mais de quatro horas para, finalmente, conseguir a emissão do ambicionado bilhete. A diferença é que Jorge, de 40 anos e estudante do ensino superior, tem paralisia cerebral e usa uma cadeira de rodas.

"Não compreendo. Não dá para compreender", repetia Jorge Nascimento junto ao balcão de atendimento da companhia aérea portuguesa. O estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto foi ao aeroporto acompanhado de Luísa Magalhães, da associação GAIAC (Grupo de Acção Intercâmbio Artístico e Cultural), que o convidou a participar no projecto europeu Valid Voice, sobre os direitos das pessoas com mobilidade reduzida, que decorre de 23 a 29 de Maio, em Viena. No balcão, para ajudar Jorge, esteve também Carlos Afonso, que o acompanha na viagem a Viena, e José Soeiro, deputado do BE.

Jorge Nascimento tentou fazer a reserva para o voo, via agência de viagens, a 21 de Abril. Os obstáculos colocados foram muitos: porque era um avião pequeno sem possibilidade de levar a cadeira de rodas no porão, porque Jorge teria de pagar o transporte da cadeira noutro avião como se tratasse de um vulgar envio de carga, porque era preciso dar pormenores sobre o peso da cadeira e informações mais detalhadas sobre a mobilidade do passageiro, porque o voo implicava uma escala e uma mudança para outra companhia aérea...

Passou quase um mês e a viagem que inicialmente tentou reservar por cerca de 300 euros já custava praticamente o dobro. Revoltado, Jorge Nascimento foi ontem para o aeroporto e recusou sair de lá sem a sua situação resolvida. Saiu com os bilhetes e novo itinerário. Em vez de Porto-Bruxelas-Viena, Jorge e Carlos Afonso vão fazer o voo Porto-Lisboa-Zurique-Viena. Com a cadeira de rodas a bordo e com preço reduzido.

"Qualquer pessoa compra uma viagem em minutos na Internet e eu fui obrigado a esperar um mês e a ficar aqui um dia para resolver isto. Não é justo. A minha vontade é ir para tribunal", dizia o estudante de ensino superior, lembrando que há dez anos viajou para a Argentina, noutra companhia aérea, sem problemas. Desta vez, Jorge sente que foi discriminado e, por isso, já com os bilhetes na mão após mais de quatro horas passadas junto ao balcão de atendimento da TAP, pediu o livro de reclamações.

TAP admite falhas

António Monteiro, porta-voz da TAP, admite que houve falhas. E, por isso, Jorge Nascimento pagou pela viagem o que pagaria há um mês. "Admito que não tenha havido a eficácia desejada para resolver este problema mais rapidamente", refere o responsável, sugerindo que, em situações "com este tipo de especificidades, e que não são padronizadas", os passageiros se dirijam aos balcões, onde há "formas directas de relacionamento". António Monteiro reafirma que o problema foi a impossibilidade de transportar a cadeira com o passageiro no avião que faria o voo entre Porto e Bruxelas. E, rejeitando a acusação de discriminação, concede que "não houve sensibilidade e capacidade de resolver o problema".

Fonte: Público

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