Livro: Sexualidade e Deficiência de Jorge Cardoso


Acabei de reler o livro "Sexualidade e Deficiência" (imagem da capa do livro ao lado) da série Psicologia e Saúde, autoria do psicólogo Jorge Cardoso, doutorado em Ciências Biomédicas pelo ICBAS . Universidade do Porto, terapeuta sexual creditado pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clinica, exerce actividade clinica no Hospital Júlio de Matos, professor associado no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, investigador nos dominios da sexualidade humana, psicologia da saúde e psicologia da reabilitação, sendo docente convidado em diversos mestrados e pós-graduação nestas áreas.

Muito interessante! É um livro de teor mais técnico, com um resumo de praticamente toda a bibliografia de grandes autores sobre este tema, mas fácil de ler e muito explicito. As referências bibliográficas são basicamente frases fundamentadas em gráficos. Aprendemos termos técnicos que geralmente especialistas não perdem tempo a nos explicar. Embora tenha edição de 2006, e seja necessário enquadra-lo nessa época. Gostei e recomendo. Aproveito e deixo uma matéria, de um trabalho de alunos de enfermagem, que já conhecia...


Para Alves et al (2001), a lesão medular é uma das lesões mais catastróficas, porque priva a pessoa temporária ou permanentemente de realizar as actividades da vida diária. Ao nível da sexualidade, as mudanças produzidas com uma paraplegia ou uma tetraplegia, não dependem unicamente das diferenças de sexo, mas também da gravidade da lesão (completa ou incompleta) e do nível da lesão. Qualquer alteração sexual das pessoas com lesão medular, pode ser tratada satisfatoriamente dentro de uma abordagem multidisciplinar que tenha em conta os diferentes aspectos biopsicossociais implicados.

O acto sexual no homem consiste na erecção, ejaculação e orgasmo. A possibilidade de erecção depende do nível da lesão e desta ser completa ou incompleta. Existem dois centros medulares que controlam a erecção: o dorso-lombar (D11 a L1) responsável pela erecção psicogénica (a que ocorre em resposta a pensamentos eróticos), e o sagrado (S2, S3 e S4), pela erecção reflexogénica (a que ocorre por estimulação directa dos órgãos sexuais). A maior parte dos homens com lesão medular são capazes de ter algum tipo de erecção. As lesões da região sagrada são as únicas que eliminam a capacidade do homem de conseguir qualquer tipo de erecção. Geralmente, quanto mais alto for o nível da lesão, mais normal poderá ser o funcionamento sexual. A maioria dos homens com lesão medular não tem erecção psicogénica mas consegue ter erecção reflexogénica . (Alves et al,2001)

De acordo com Suplicy (1999), em alguns homens com lesão na medula espinal é observado o priapismo (erecção persistente e bastante dolorosa, sem ser acompanhada de qualquer tipo de prazer e bem-estar), impotência e falta de ejaculação. Os estudos sobre os efeitos da lesão medular no funcionamento sexual do homem são bastantes limitados. Sabe-se o que o que vai determinar a resposta sexual e ejaculatória é o local da medula onde ocorre a lesão, por exemplo, os indivíduos com lesão na medula espinal acima da quarta vértebra torácica podem experimentar uma excessivamente activação do sistema nervoso autónomo durante a excitação sexual, com uma forte dor de cabeça. A erecção baseia-se num fenómeno do tipo neurológico, endócrino e vascular. Se ocorrer lesão medular, é afectado o mecanismo fisiológico da mesma, com o qual pode surgir a impotência. Assim um quarto dos paraplégicos não apresentam qualquer tipo de erecção, e nos restantes a maioria é do tipo reflexa, sem que exista um controlo voluntário sobre a mesma. A ejaculação não se produz em mais de 90% dos deficientes físicos por uma lesão medular, ficando deste modo alterada a possibilidade de ejaculação, de orgasmo e assim de chegar à paternidade.

Tanto no homem como na mulher é possível o orgasmo, embora seja descrito como uma experiência “diferente” em relação à situação antes da lesão. Relatam frequentemente a percepção do alívio da tensão e, apesar da perda sensorial ser extensa, referem existir uma maior sensibilidade no restante tecido intacto.

Segundo Gispert, ao contrário do homem, na mulher, as alterações da sexualidade não são tão evidentes, uma vez que estas são capazes de manter uma relação sexual, com coito, e existe a possibilidade de maternidade. No entanto, produzem-se igualmente alterações consideráveis, dependendo da gravidade da lesão ou doença ao nível neurológico.

De acordo com Alves et al (2001), a mulher com lesão medular consegue participar activamente no acto sexual, mas uma vez que há diminuição ou ausência de lubrificação vaginal e o ingurgitamento do clítoris está geralmente diminuído ou ausentes, é frequentemente necessária aplicação de lubrificante hidrossolúvel em substituição da lubrificação natural, para facilitar a relação. Pode surgir amenorreia ou irregularidades menstruais nos primeiros meses após a lesão. Logo que os períodos menstruais regressam, a fertilidade retoma o seu nível pré-lesional. Pode surgir maior número de infecções urinárias, anemia ou dificuldade em determinar o início do trabalho de parto, por ausência de sensibilidade.

Em relação à fertilidade, no homem ocorre frequentemente uma baixa contagem de espermatozóides ou mesmo infertilidade. A mulher habitualmente conserva a capacidade de concepção, logo que esteja restabelecido o ciclo menstrual (cerca de 4 a 6 meses após a lesão). A gravidez pode decorrer em segurança, e o parto pode ser natural. Contudo, a incidência de problemas nas vias urinárias e de disreflexia autónoma, tanto durante a gravidez como no trabalho de parto, pode levar a que o parto ocorra por cesariana.

Pode-se assim dizer que a sexualidade de uma pessoa com lesão medular está comprometida em qualquer das suas funções básicas: erótica, relacional e produtora, como consequência directa da afectação neurológica e indirectamente da reacção psicológica. No entanto uma orientação e tratamento adequados possibilitarão que a pessoa que sofreu a lesão volte a ser capaz de manter relações sexuais satisfatórias, para ela e seu companheiro bem como também aceder igualmente à paternidade ou maternidade.

Reabilitação e Tratamento

Há cinquenta anos atrás os problemas das pessoas com deficiência eram tratados exclusivamente no âmbito médico, actuando-se única e exclusivamente como que se fossem seres assexuados. Foi a partir de 1970 que se desenvolveu uma sociedade mais permissiva e aberta às questões da sexualidade, inclusive das pessoas com deficiência, reivindicando-se como um direito de todas as pessoas com ou sem deficiências. Na década de oitenta surgiram novamente mudanças que incidiram no tratamento e aconselhamento de pessoas com deficiência, tais como novas técnicas de fertilização e reprodução assistida, o aparecimento de novos medicamentos, avanços electrónicos e técnicas micro-cirúrgicas, assim como os estudos sobre os factores psicológicos que intervinham nas relações sexuais e afectivas. (Gispert, s.d.)

É importante considerar que a orientação e tratamento da sexualidade de uma pessoa com deficiência não deve ser considerada qualitativamente distinta da de uma pessoa sem qualquer deficiência, uma vez que somos culturalmente e fisicamente seres sexuados, embora cada um tenha necessidades específicas dependendo da idade, personalidade, situação física, oportunidades e capacidade de relação. Existem actualmente diferentes técnicas práticas que procuram minimizar as consequências de uma lesão medular na área sexual.

No caso do homem, os programas são encaminhados para o tratamento da falta de erecção e de ejaculação. Quando a erecção reflexogénica não dura o tempo suficiente para permitir o coito, existem vários recursos, entre eles os implantes, as bombas de vácuo e as injecções intra cavernosas. As próteses penianas apesar de não solucionarem o problema, permitem ao homem obter a erecção e poder realizar o coito, factor este que constitui grande importância psicológica. A obtenção de esperma, quer para inseminação artificial, quer para estudo pode ser conseguida com vibração e electroejaculação.

No caso da mulher, não existem técnicas similares e o tratamento enquadra-se de forma global, com vigilância ginecológica, controlo da natalidade, aprendizagem de técnicas de sensibilização corporal, entre outras.

Para homens e mulheres, se considerado oportuno após cada avaliação, é-lhes oferecida a possibilidade de seguirem uma terapia individual ou de casal. Por exemplo, para além de técnicas de recuperação física para os casos de paralisia, entre as quais se inclui a hidroterapia, existem métodos que ajudam os paraplégicos a desenvolver a sua sexualidade e que tanto médicos como assistentes sanitários especializados devem discutir com o deficiente e com o seu companheiro. Geralmente, um bom local para obter informação é aquele no qual existem outras pessoas na mesma situação, que tenham o mesmo tipo de problemas e podem falar baseada na sua própria experiencia e com ideias próprias. (Gispert, s.d)

De acordo com Cardoso (2003), a reabilitação sexual deveria constituir uma das valências do programa reabilitacional, de modo a promover uma nova atitude em relação à sexualidade e para uma redefinição criativa dos interesses, iniciativas e comportamentos sexuais individualmente e/ou na companhia do parceiro sexual.

A nível nacional existem algumas associações e alguns centros de reabilitação, como é o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Este está vocacionado para a reabilitação pós-aguda de pessoas portadoras de deficiência de predomínio físico, motor e sensorial ou multideficiência congénita e adquirida, de qualquer idade, provenientes de todo o País. Tem como principal objectivo promover a máxima funcionalidade, valorizando e potenciando as capacidades de cada indivíduo e apoiando-o no refazer do seu projecto de vida.

Na actualidade, são reconhecidas mais abertamente as necessidades sexuais do indivíduo deficiente. Com os avanços da ciência, as pessoas com deficiência física já podem decidir acerca de terem ou não filhos. No entanto, alguns indivíduos, mesmo sendo familiares da pessoa com deficiência, ainda ignoram ou negam as necessidades sexuais destas pessoas. Assim, e apoiando-nos em Gomes e Castilho (2003), numa época em que prevalece a ética das responsabilidades face à ética dos direitos, é necessário que a reabilitação passe a actuar sobre a pessoa global deficiente, também ela com responsabilidades, visando obter a sua máxima autonomia e a satisfação das suas necessidades individuais e das pessoas que com ela convivem. Em consonância, a integração deve assentar em alicerces sólidos, de modo a permitir à pessoa com deficiência fazer face aos vários problemas que tem que enfrentar no dia-a-dia, na afirmação da sua autonomia e realização sexo-afectiva.

Fonte: Juntos Pela Diferença

Comentários

  1. Livro de facto muito bom, mas com um problema: esgotado!

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  2. Não sabia. E bibliotecas, editora...Também empresto.
    Fique bem

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  3. Muito bom, já sabia muita coisa outras não, é um assunto que gosto e pesquiso pena ter pouca gente que não o discute mas eu respeito...

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  4. É verdade, Celso.
    Tabus não vale a pena alimenta-los.
    Fica bem

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