Vou ficar na cadeira de rodas? Só isso?!

 Quando nossos médicos nos comunicam que vamos ficar para sempre numa cadeira de rodas, deveriam contar-nos muito mais. Tudo…quase tudo…o principal...pelo menos muito mais. Quem vamos ter problemas intestinais, vesicais, escaras, respiratórios, digestivos, dores ativas e 24 horas seguidas, espasmos insuportáveis, dificuldades com temperaturas extremas, sexuais, reprodutivos…mas não. Pelo menos comigo, o médico chega-se perto de mim e atira a “bomba” que ficaria para sempre numa cadeira de rodas. Sem sequer me dar oportunidade de ouvir meu grito de revolta e aflição. Quando acabei de me perguntar se tinha ouvido bem ele já tinha abandonado a enfermaria. Ali fiquei eu em estado de choque, como se anestesiado, a virar os olhos na tentativa de olhar à minha volta e ver se alguém também ouviu, mas nem isso podia fazer. Os 13 quilos de tração que estavam cravados no meu crânio, não me permitiam sequer virar a cabeça. Felizmente a enfermeira que minutos depois entrou na enfermaria, aceitou o meu pedido de me injectar uma boa dose de morfina e apaguei durante uns minutos. Mas acordar com a ideia na cabeça e certificar-me de que não tinha sido um sonho foi desolador e muito doloroso. Porque acordei? Eu não queria isso. Queria ter desparecido para sempre como se faz em magia.

Penso que actualmente os profissionais têm outra formação e sensibilidade para os novos casos. Mas de qualquer maneira ninguém lhes conta a verdade. A realidade que vão encontrar. O que realmente os espera. Sabem que houve uma certa altura, depois de tantas voltas dar à cabeça, que cheguei até a imaginar-me a arrastar-me pelo chão com uma protecção (tipo cabedal/pele/sei lá…) da cintura para baixo? Achava que até não seria mau de todo. Até me via junto de uma lareira, com várias almofadas espalhadas no chão e eu a circular por li à “sereia”. Que ingénuo eu era! E não me parecia que fosse assim tão mal. Hoje até para mudar de posicionamento na cama preciso de apoio. E tudo isso porquê? Porque me atiraram para uma cadeira de rodas e vai à tua vida.

Não deve ser assim. Precisamos ser informados. Temos o direito de ser informados. Queremos e devemos ser levados em conta, para que não achemos que “só” vamos ficar numa cadeira de rodas e que tudo o resto é secundário, nada mais nos vai acontecer. Pois além de ficarmos sentados numa cadeira de rodas muitas mais complicações nos surgem e nada fáceis de ultrapassar. Diria mais, nalguns casos a conjuntura é bem mais dura de suportar do que propriamente estar limitado à cadeira.

Há dias insuportáveis de aguentar e não por estarmos sentados numa cadeira de rodas. Mas por consequências de estar sentado nela. Felizmente há sempre um dia depois do outro e esperar que ele nasça para juntamente com ele nascer revigorado é muito bom e um método excelente. É o que faço. Nada como um dia após o outro.

Comentários

  1. É mesmo isso, meu amigo...a mim disseram-me assim de choque..."É assim e pronto, acabou".
    Um beijo grande, Edu, por me perceberes e aos outros tão bem.

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  2. Pois Manela, és da velha guarda. Carne para canhão. Tempos dificieis e esquisitos. Quanto abandono e indiferença...
    Fica bem

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  3. Meu lindo,

    Mais um texto franco, claro e verdadeiro. Suas palavras representam a de tantos que passaram pela mesma situação dolorosa.
    Informação é muito importante para saber como viver dali para frente e lidar com a nova situação, além de evitar complicações.
    É imprescindível também que os profissionais de saúde incentivem o paciente, mostrem os caminhos da reabilitação e que a vida não acabou. É possível trabalhar, estudar, namorar, praticar esportes, ter uma vida ativa, apesar da cadeira de rodas.
    Voluntários com deficiência poderiam visitar esses pacientes ainda no hospital e mostrarem que existem muitas dificuldades, mas que é possível passar por elas.

    Parabéns, por mais um post sensacional!

    Beijinhos,

    Mônica

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  4. Deve ter sido mesmo difícil! Ainda bem que os novos profissionais já estão um pouco mais sensíveis...

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  5. Obrigado Mónica, já existe essa interação em visitas realizadas por outros ex internados, mas não é o suficiente. Tem que ser feito e trabalho mais profundo e completo.
    Obrigado pelo comentário.

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  6. Sim Ana, vai-se encontrando alguns profissionais com outra sensibilidade e também gabinetes de psicologia em certas unidades.
    Fica bem

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  7. Sabem que mais...eu ao fim de 6 meses no vira que vira...ficar sentado numa cadeira de rodas era milagre, nem pensei bem no assunto... E já lá vai 38 anos...O resto já todos sabem, desistir nunca fiz o que todos os outros fizeram, namorei casei trabalhei comprei carro casa etc...Sempre em frente já que atrás vem gente...beijos

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  8. Boa, Anónimo/a! Muito bom ouvir isso.
    Continuação de sucessos!
    Boa sorte.

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  9. Pois é...felizmente que todos temos que "reaprender" a viver e a Vida é isso mesmo.
    Por mais que alguém nos diga como é, a nossa experiência e as nossas vivências são sempre únicas e irrepetiveis!!

    Às vezes nem os próprios profissionais sabem o que dizer...a mim disseram-me:
    "Olha deixa andar...", o problema é progressivo, mas ninguém sabe o que o futuro nos reserva!!
    PARABENS Edu, CONSEGUISTE superar esse desafio e dar o teu GRANDE EXEMPLO e isso é o que realmente importa...NUNCA DESISTIR...porque UNIDOS VENCEREMOS!
    Bj gr e CORAGEM para CONTINUARMOS O CAMINHO QUE A VIDA NOS RESERVA.
    MUITA LUZ da Isa

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  10. Olá Eduardo,
    Todos sabemos da crueldade que por vezese se usa na comunicação da saude, penso que agora estará melhor, mas ainda ouvimos muitos relatos de comunicação de problemas de saude, é como alguém comunicar, "voçê tem cancro"... assim sem mais nem menos...

    Grade abraço

    Miguel Loureiro

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  11. E tu sempre foste ultrapassando os obstáculos. Admiro muito o teu percurso e luta. Imagino o que tens encontrado pelo longo caminho que tiveste até agora.
    Sinceramente desejo que essa tua força de viver continue a tudo ultrapassar.
    Fica bem

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  12. É verdade Miguel, temos o caso absurdo do nosso Nelson Mendes que anda aos trambolhões de lado para lado e sem apoio técnico nenhum.
    As coisas têm que mudar.
    Fica bem

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