A pensar nas pessoas com necessidades especiais


Sabia que a cada ano são desenvolvidas seis milhões de úlceras de pressão na Europa e nos EUA? Esta importante causa de mortalidade e comorbilidade encontra resposta no projeto Sense4me, cuja finalidade é criar colchões, almofadas e coberturas capazes de monitorizar a pressão, temperatura e humidade exercidas em zonas do corpo que estão permanentemente em contacto com superfícies de suporte.

“O controlo destes parâmetros poderá lançar, quando necessário, um alerta que permitirá ao utilizador movimentar-se sozinho ou com a ajuda de terceiros, evitando o desenvolvimento de uma ferida na pele”, explica Miguel Carvalho, coordenador do projeto e professor do Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade do Minho.

Estas aplicações têxteis e polímericas vão integrar um sistema que permita proporcionar às pessoas com mobilidade reduzida um alívio ao nível da perceção sensitiva do desconforto, assegurando, desta forma, uma maior independência, bem-estar e qualidade de vida aos doentes. “Na maioria das situações, este público tem alguma dificuldade em sentir determinadas regiões do corpo que se encontram em contacto com superfícies ou, então, não conseguem mudar de posição regularmente, de forma autónoma, como o faria uma pessoa saudável de forma inconsciente”, esclarece. Estas são circunstâncias favoráveis ao desenvolvimento de úlceras de pressão (UP), ou seja, lesões cutâneas que se produzem em consequência de uma falta de irrigação sanguínea ou de uma irritação da pele.

A inovação terá um impacto enorme em termos humanos e financeiros, uma vez que ainda não existe uma solução eficaz e fiável no mercado. Além de prevenir o aparecimento de feridas, a tecnologia traz vantagens para o sistema de saúde, nomeadamente na redução de custos no tratamento de UP, na otimização do tempo dos enfermeiros e na melhoria de performance destes profissionais. “Os gastos médios dedicados ao tratamento desta patologia são de 6 mil euros por cada UP. Na União Europeia e nos EUA, a prevenção e o tratamento têm um custo anual superior a 36 mil milhões de euros”, diz Miguel Carvalho, também fundador da spin-off WeAdapt, da UMinho. O próprio cidadão acaba por ser penalizado direta ou indiretamente, através dos seus impostos, devido aos custos de tratamento, ao tempo dedicado como cuidador ou às várias semanas de repouso exigidas em situações de imobilidade.

A gama de produtos é destinada essencialmente aos indivíduos com limitações motoras graves que condicionam a sua deslocação, nomeadamente os idosos e pacientes acamados, os doentes sob efeitos de sedativos ou anestesia durante cirurgias prolongadas e pós-operatório, ou, ainda, para aqueles que se deslocam em cadeiras de rodas.

Harvard vai colaborar no projeto

O engenheiro acaba de submeter um projeto que pretende dar continuidade ao Sense4me, através de uma equipa alargada que envolve a Harvard Medical School, o Brigham and Women’s Hospital (Boston), a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, o Centro de Medicina e Reabilitação da Região Centro/Rovisco Pais, o Hospital de Braga, o ICVS/3B’s e as escolas de Engenharia e Psicologia da UMinho. Torna-se cada vez mais importante apostar nesta área de investigação, uma vez que a população idosa tende a aumentar, o que terá um impacto económico crescente a médio e longo prazo, reflete o investigador.

Apesar do interesse mostrado pelas entidades ligadas à área da saúde, sobretudo nos EUA, os produtos do Sense4me ainda não chegaram ao mercado. O projeto não está em fase de comercialização, mas não faltam oportunidades... “Oferecer a tecnologia às empresas não faz parte dos nossos objetivos enquanto investigadores e empreendedores. A aposta tem sido em aprimorar esta inovação, torná-la realmente eficaz na resolução do problema. Existem muitas possibilidades de financiamento”, adianta Miguel Carvalho. A equipa de investigação dispõe de protótipos funcionais que estão a ser desenvolvidos no âmbito da empresa WeAdapt, incorporando novos produtos com impacto no “microambiente” das pessoas potencialmente.

WeAdapt criada a pensar nas pessoas com necessidades especiais

Alguma da investigação do projeto Sense4me foi desenvolvida através da WeAdapt (http://www.weadapt.eu), empresa conhecida na elaboração de vestuário funcional e dispositivos de reconstituição física para pessoas com diversas limitações físicas. O objetivo é desenvolver e comercializar produtos inclusivos com importante impacto na qualidade de vida destes indivíduos, reinventando a relação entre as pessoas e o seu ambiente, desde o nascimento ao fim da vida, no que diz respeito à relação entre a pessoa e a sua higiene pessoal, entre a pessoa e os prestadores de cuidados de saúde e entre os pacientes e médicos.

O trabalho de investigação que gerou a empresa começou em 2005 com uma tese de mestrado. A ideia de criar a WeAdapt consolidou-se em novembro de 2008, ano em que venceu o Prémio Nacional de Empreendedorismo START.

Desde então já foram desenvolvidas soluções para utilizadores de cadeira de rodas, pessoas cegas ou com visibilidade reduzida, daltónicos, acamados, idosos e indivíduos com trissomia 21. Com o apoio de projetos de investigação do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) e as parcerias com a indústria e especialistas de várias áreas, a empresa procura inovar ao nível do design e dos materiais que se encontram no “microambiente” deste grupo. “Os possíveis problemas e as potenciais vantagens que têm os tecidos que interagem com as pessoas com necessidades especiais e o seu ambiente são frequentemente negligenciados. O vestuário comum e as superfícies de apoio existentes no mercado não respondem às suas necessidades específicas”, explica o responsável. “Todo o processo de modelação é específico à realidade do mercado-alvo, existindo acabamentos especiais que permitem facilitar a tarefa de vestir/despir, contribuindo para uma maior autonomia do utilizador, bem como acabamentos funcionais ao nível do tratamento dos tecidos, sem comprometer a aparência estética”, acrescenta.

A WeAdapt foi distinguida com os prémios SpinUM (2009) e ISCTE-MIT Portugal Venture Competition, na Categoria Produtos e Serviços (2010). Foi também classificada no Top100 do Eurecan European Venture Contest 2009. Atualmente, Miguel Carvalho está a preparar projetos de investigação com importantes instituições americanas, nomeadamente o MIT, a Universidade de Harvard e a Universidade do Texas: “Tive o privilégio de encontrar pessoas com a mesma motivação e conhecimentos complementares. Apesar da distância, reunimos semanalmente, discutimos desenvolvimentos, identificamos novas oportunidades e procuramos os parceiros para as concretizar”, adianta.

Três gerações ligadas à indústria têxtil e de confeção

Literatura. Ultimamente apenas aquela que é relacionada com o empreendedorismo. Não consigo fazê-lo com a regularidade que desejava.
Cinema. Qualquer filme em boa companhia.
Viagens. Todas as que fiz com a família.
Passatempos. A Carla e os meus filhos.
Momento. A perda do meu pai.
Frase. "Não é possível assobiar uma sinfonia, é necessário uma orquestra para a tocar".
Percurso académico. Realizei a licenciatura em Engenharia Têxtil (1991), o mestrado em Design e Marketing (1996) e o doutoramento em Engenharia Têxtil - Tecnologia do Vestuário (2003). Era um aluno aplicado e interessado em aprender. Fui para o curso que escolhi, seguindo uma tradição familiar de três gerações ligadas à indústria têxtil e de confeção.
UMinho. A minha casa há 25 anos. Tive aulas de Engenharia na rua D. Pedro V, no Pé Alado (centro de Braga), no campus de Gualtar, em Vila Flor e no campus de Azurém (em Guimarães), onde estou até hoje. É com orgulho que vejo esta Instituição crescer e ganhar o respeito internacional.

Fonte: Universidade do Minho

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