A jornalista Caroline Soares escreve histórias infantis com personagens que têm deficiências

As personagens dos livros infantis de Caroline Soares são especiais. A coruja ‘Felisberta' é velhinha mas gosta de ir trabalhando para se sentir útil. O gato ‘Miau' está numa cadeira de rodas - é deficiente, tal como a sua autora - mas ainda dá valentes lições de vida a muita boa gente.

‘Joquinha', um menino reguila que troca as voltas aos miúdos e devolve aos adultos a vontade de sonhar, é a figura central deste mundo que apela à igualdade de oportunidades para todos.

SEM ENTRAVES

A autora, Anne Caroline Soares, chegou a Portugal com 14 anos. Na travessia do Atlântico, desde o Brasil, vieram também os pais e dois irmãos, à procura de uma vida melhor e mais segura. Encontraram-na em Espinho, onde Caroline cresceu apenas com "saudades do calor " e o sonho de ser jornalista.

Licenciou-se em Comunicação Social, até que aos 24 anos, numa viagem de trabalho, o carro que conduzia entrou em despiste. O embate, contra o separador central da auto-estrada, roubou-lhe a mobilidade mas não a capacidade de concretizar os seus projectos. "Deficiência não é um entrave para trabalhar. O que existe ainda é muito preconceito", comenta.

Depois de vários anos em recuperação, Caroline voltou à actividade profissional na Câmara Municipal de Espinho, assegurando a ‘Hora do Conto' no Município, ou seja, a leitura de contos infantis para as crianças.

"Foi um estágio não remunerado que acabou por se prolongar por quatro anos, porque eu tinha sempre, obviamente, a esperança de ficar, de ouvir o ‘sim' que me iam prometendo. Não fiquei. Paciência. Mas foi a partir dessa experiência que surgiu a minha carreira de escritora", recorda. No lado positivo da sua história percebeu que gostava, acima de tudo, de contar histórias para a pequenada. Se sabia escrever, então porque não haveria de passar a contar as suas próprias histórias?

"Então, eu que alimento o projecto de vir a ser uma jornalista de sucesso, passei a sonhar também ser uma escritora de sucesso". Até porque, por enquanto, o jornalismo é um projecto adiado. "Num tempo de crise, numa área que está sobrelotada, não é fácil entrar no mercado, sobretudo quando a deficiência faz parte do cartão-de-visita. É precisamente na procura de uma saída profissional que noto alguma discriminação. A nível da comunidade nunca me senti diferente", confessa.

Por isso, a mensagem dos seus livros é bem clara: "Começar a ensinar, logo de pequenino, a diferença. A fazer com que a nova geração viva num mundo menos preconceituoso, mais igual para todos. Por isso, algumas das personagens dos meus livros têm algum grau de incapacidade mas todas são válidas. Quando falo com as crianças, nas escolas e nas sessões de apresentação, é curioso notar que essas diferenças não fazem a diferença para as crianças. Elas são muito mais tolerantes".

Aos 34 anos, a jornalista e escritora já tem dois livros (‘Joquinha na Cidade de Miau' e ‘Joquinha na Nuvem da Mafalda') editados e um terceiro pronto a ser lançado.

Começar não foi fácil. Com a história debaixo do braço, Caroline bateu às portas de várias editoras. "Até publicavam o livro, mas pediam-me sempre um adiantamento em dinheiro para o fazer. De modo que resolvi deitar mãos à obra e comecei por vender o livro - que ainda nem sequer existia - a amigos, conhecidos, amigos de amigos e através da internet para poder adiantar a impressão".

O terceiro está prestes a ver a luz do dia, mas Caroline Soares estuda ainda a melhor maneira de o pôr nos escaparates das livrarias sem custos.

Agora percorre o País, sobretudo a região Norte, em visita a escolas para leituras e apresentações dos seus livros. Se tiver boleia, aceita, senão apanha o comboio. E vai sozinha. Chega a todo o lado onde os carris e a vontade férrea a levarem.

Fonte: CM

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