Minha história - 8ª parte

Agora que tinha a cadeira de rodas elétrica, depois dos tratamentos ia sempre dar uma volta pelos jardins do hospital. Era uma óptima sensação sentir-me livre e independente, ter um pouco de privacidade, poder sair sozinho e sem precisar da ajuda de ninguém. Depositei até espectativas demais na cadeira de rodas. Não sei porquê, mas achei que com a cadeira poderia ir a qualquer lugar e tudo seria simples. Não fazia ideia das barreiras arquitectónicas que me aguardavam...tive o primeiro grande exemplo quando fui á Fundação Calouste Gulbenkian, que ficava perto do hospital e arrisquei ir de cadeira de rodas, não no espaço da Fundação, mas sim no trajecto até lá. Foi meu primeiro impacto com o exterior, primeiras dificuldades. Foi traumatizante. Olhares das pessoas, a realidade dura e crua de andar no centro de Lisboa há 20 anos atrás…Ao juntar a tudo isso, só não cai da cadeira por muita sorte. Ninguém me explicou como seria a maneira mais adequada de ultrapassar degraus, elevações acentuadas...descia de frente, sem cinto e sem noção nenhuma de perigo. Apanhei um grande susto logo no primeiro passeio. Desci de frente e lá vai o tronco todo para a frente. Foi quase. No centro comentei o episódio com minha terapeuta ocupacional, mas da vez de me elucidar sobre as regras, ainda me disse que é assim que se ganha experiência. Que a rua é um bom lugar para aprendermos. Uns anos depois soube que existem procedimentos e cuidados a ter em conta.

Esse dia foi muito importante. Trouxe-me mais uma vez á realidade. Senti que afinal tudo tinha mudado. Vi-me no meio da selva. Senti-me muito frágil e resolvi que tinha que começar a resolver a minha vida. Procurei a mina médica e perguntei-lhe quando teria alta. Respondeu-me que dentro de um mês. Que intestinos e bexiga estavam controlados, que já tinha Produtos de Apoio e que era só esperar que minha tensão estabilizasse.

Perante esses dados e por não aguentar mais aquela angustiante incerteza que não me deixava o pensamento sobre o meu futuro, um único segundo, contatei um dos meus ex patrões. Expus-lhe a minha situação, desabafei sobre os meus medos, mostrei-lhe minhas limitações e perguntei-lhe se haveria alguma hipótese de voltar a trabalhar no mesmo emprego que tinha antes do acidente. Disse-me na hora que sim, que seria um prazer receber-me e que nada mudaria. Continuaria a comandar o Restaurante. Não tenho palavras para descrever o que senti. Foi um alivio ter ouvido aquelas palavras. Apeteceu-me gritar de alegria. Afinal ali estava uma solução fantástica para a minha vida. Nada de ser despejado numa instituição. A partir dai estava desejoso de ter alta. Não via a hora de sair do centro. Parece que todos os meus problemas tinham terminado. O Restaurante eu já conhecia, não tinha noção sobre acessibilidades e por isso nem sequer foi uma preocupação, mas sabia que a cadeira de rodas circulava relativamente bem por todo o espaço e isso bastava-me.

Na altura do meu acidente (1991), não havia informação nenhuma sobre nossos direitos, apoios...no caso das acessibilidades não me passava pela cabeça que existia uma lei, regras, rampas...o que sabia e tinha bem presente era que nada de esperar por facilidades, se não há rampa, pega-se ao colo e ou junta-se uns voluntários e resolve-se a questão. O que sabia era que isso era o certo e normal. Refiro-me a acessibilidades, mas o mesmo acontecia com outros temas. Não esperávamos e nem exigíamos nada. Única certeza que existia era a de que obstáculos éramos nós que tínhamos que ultrapassar. Como? Essa questão era a única que se punha. Certeza era só uma. Ultrapassa-lo e ponto final.

Dia da alta chegou. Junto com a alegria existia um misto de incerteza. Ao chegar ao restaurante onde trabalharia e também iria viver tive uma sensação de alivio muito grande. Fui muito bem recebido por todos os empregados. Senti-me em casa e cheio de forças para continuar a vida. Senti estar a recomeçar uma nova vida. Estava muito feliz e agradecido por uma nova oportunidade. Nem sequer pensei em dificuldades. Dia seguinte tive uma reunião com meus dois patrões e é-me comunicado que iria exercer as mesmas funções. Responsável pelo restaurante, mas não receberia ordenado algum. Trabalharia em troca da alimentação, estadia e também pagariam o ordenado do meu auxiliar. Aceitei e exerci minha actividade durante 7 anos. Altura que tive minha segunda escara que me atirou para uma cama durante 3 ininterruptos anos.

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Continua...

Comentários

  1. Olá Eduardo,
    Sou a seguidora andante do seu blog,a Maria.Como já uma vez lhe disse o seu blog tem-me ajudado muito a entender a pessoa de quem eu gosto e que é paraplégico há 3 décadas. Também ele se tem vindo a debater desde 2007 com problemas de escaras, fez cirurgia plástica e tudo.Mas parece que agora finalmente as coisas estão a melhorar mesmo.As escaras são um drama ... É preciso ter muita força, coragem e esperança para as vencer e sem dúvida a alimentação e hidratação para além dos cuidados médicos adequados. Mas isso sabe o Eduardo bem melhor que eu. Uma vez mais um grande abraço e força para essa luta que admiro em si,para o seu trabalho e estudos também!!!! Perante a sua história de vida e coragem sinto-me pequenina... e a minha vida também não tem sido muito fácil. Beijo, Maria

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  2. Obrigado pelas lindas palavras Maria.
    Fico feliz por poder ser-lhe útil. Se quiser conversar e debater mais dúvidas que tenha e achar que posso ajudar... tetraplegicos@gmail.com será um prazer.
    Escaras são um atraso nas nossas vidas. Nada como prevenir. Por isso não fico mais que 8 horas seguidas na cadeira de rodas.
    Fique bem e apareça sempre

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