Cuidadores...

Minha crónica para o jornal Abarca:

CUIDADORES...

Cuidadores...auxiliares...existem alguns nomes para designar quem cuida/trata/auxilia pessoas dependentes. No meu caso costumo chamar-lhes auxiliares. Há algum tempo que ando para escrever sobre este assunto, faço-o neste momento porque ultimamente a imprensa destacou dois casos dramáticos sobre cuidadores que tiveram enorme repercussão mundialmente. Nada mais, nada menos, do que uma mãe australiana deixar propositadamente morrer á fome uma filha com deficiência, e uma outra mãe, neste caso brasileira, agredir repetidamente e durante anos, o seu filho tetraplégico como ficou provado através de imagens de vídeo disponibilizadas na internet, e que serviram de prova para levar a sra a tribunal, tendo sido posta em liberdade pouco tempo depois.

Quando temos conhecimento de relatos deste tipo, nosso coração fica apertado. Ficamos sem saber o que pensar, pois mãe é mãe, e mãe cuida, não gosta de ver os filhos sofrerem. Parece-nos contra-natura. Eu próprio sempre que falo na minha mãe, já falecida, a angústia e tristeza invade-me ao ponto de surgirem as lágrimas...dela só tenho boas recordações. Nunca cuidou de mim fisicamente porque sua frágil saúde nunca o permitiu, mas perguntava o que ninguém perguntava, dizia o que mais ninguém dizia, seu olhos nos meus traziam-me paz e conforto e seus carinhos eram únicos. Mas como em tudo na vida, há sempre a exceção.

Voltando aos cuidadores, qual de nós pode afirmar que nunca sentiu na pele infracções cometidas pelos que supostamente deveriam cuidar de nós? Suponho que muito poucos. E porque o permitimos e continuamos no silêncio? Permitimo-lo porque não temos alternativas melhores e noutros casos somos chantageados psicologicamente. Recentemente uma amiga tetraplégica, que se encontra institucionalizada, comentava a chorar que este verão só bebe água gelada quando um amigo bombeiro a visita, que se pede um copo de água fria no lar, empregadas respondem que têm mais que fazer. Fazer o quê se não tem um lugar melhor para viver, e sente-se uma privilegiada em ter conseguido aquela vaga! Outra amiga com 19 anos está proibida pelos familiares de sair de um serviço de cuidados continuados sem ser na companhia de familiares, mas além de só a visitarem uma vez por semana, raramente estão dispostos a leva-la a passear. Outra amiga apoio domiciliário recusa-se a fazer-lhe depilação porque dizem que não é importante. Noutro caso seja verão ou inverno banhos são raros e só de água fria. Há os que são proibidos de usarem seus computadores, telemóveis, etc. Alguns vivem em casa sozinhos tendo só a visita de familiares e apoio domiciliário 4 vezes ao dia. Imaginem o que é ficar noites e noites sozinhos, e 12 horas seguidas acamados na mesma posição…muitos de nós ter privacidade é uma miragem. Vasculham tudo que escrevemos, lemos, contas bancárias, correspondência, telemóveis, etc. Sejam familiares ou não. Uma amiga desabafava, que o que mais lhe custava era o irmão desligar um fio eléctrico na cadeira de rodas para que cadeira não funcionasse, e irmã não saísse do quarto, e nesse caso ele sair à vontade, outro se tivesse a infelicidade de sujar a cama mais que uma vez por dia só a mudavam uma vez.

Costumo dizer que poucos serão os que dependem de terceiros que não tenham que “engolir muitos sapos”. No inicio tudo corre bem, mas depressa se fartam e começa o sofrimento. Depressa nos começamos a sentir como um “fardo”, algo que só serve para dar trabalho e atrapalhar. É fácil cuidar de nós? Claro que não. Poucos terão estrutura para isso. Imaginem o que é cuidar de um bebé com peso entre os 50 e 100 quilos. Será que a culpa dos outros nos maltratarem não é nossa? Algumas vezes poderá até ser, mas nada justifica os maus-tratos. Se não nos suportam podem sempre abandonar-nos ou procurar alternativas de emprego, mas nós não o podemos fazer. Para finalizar quero deixar bem claro que felizmente só conheço mães de filhos com deficiência fantásticas, simbolicamente e extensível a todas as outras, quero homenagear em especial uma dessas super mães: Mónica Bello.

Comentários