A epidemia das tampinhas

Entrei na moda e desta vez o assunto da minha crónica no Jornal Abarca é sobre tampinhas...


Praticamente todos nós já nos deparamos por aí com cartazes a pedir tampinhas e ultimamente acrescentaram também o pedido de plástico opaco e metal. Anúncios que geralmente vêm acompanhados da imagem de um "coitadinho" que precisa urgentemente da solidariedade alheia para conseguir uma cadeira de rodas ou outro material ortopédco, aparentemente algo só possível a troco de algumas toneladas de material. E obviamente que aos olhos da maioria dos cidadãos, esse "coitadinho" é um indefeso e infeliz cidadão com deficiência que tem de ser ajudado.

Segundo o CM a ideia nasceu em 2003. Sem saber se daria certo, a enfermeira Guadalupe Jacinto deitou mãos à obra. Falou com as colegas do Hospital Garcia de Orta, em Almada, e pediu-lhes que começassem a guardar tampas. Depois, começou a contactar empresas de recolha de resíduos que aderissem à ideia. E conseguiu. A Amarsul foi o primeiro sistema de recolha de resíduos sólidos urbanos a aderir ao projecto: "Ficou combinado que eles receberiam as tampas, enviariam para os recicladores e reservariam o dinheiro respectivo para comprar material ortopédico." A enfermeira Guadalupe Jacinto determinou, desde o início, que o dinheiro nunca passaria por si. "Não queria que houvesse qualquer mal-entendido sobre as minhas intenções."

Quanto a mim, ao tomar conhecimento de uma dessas campanhas tento entrar em contato com os seus responsáveis e apercebo-me que na maioria das vezes desconhece o Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio:
http://www.inr.pt/content/1/59/ajudas-tecnicas-produtos-de-apoio  .Programa do Estado que permite aos cidadãos com deficiência permanente ou temporária, adquirirem gratuitamente os Produtos de Apoio, como por exemplo uma cadeira de rodas. Desconhecem e não se mostram interessados em conhecer, assim como deixam de estar disponíveis para continuação de diálogo.

Sinto-me triste, por verificar que continuamos de mãos estendidas a mendigar algo que nos pertence por direito próprio, sem primeiro tentar o apoio através do Estado pelas vias normais. Costumo comparar estas atitudes com o seguinte exemplo: um cidadão vai ao seu médico que lhe receita um antibiótico com direito á respetiva comparticipação por parte do Estado, de seguida dirige-se á farmácia e adquire o medicamento com esse desconto. Imagine que o paciente não vai consultar o seu médico para lhe receitar o medicamento, mas vai tentar sensibilizar a população para lhe arranjarem uma campanha solidária para adquirir o medicamento sem comparticipação na farmácia?

Porque será que não dão entrada com os processos através do SAPA e aguardam uma resposta? Quanto a mim deveria ser a primeira coisa a fazer, se a resposta fosse recusa de atribuição do material, aí sim poderia justificar-se este tipo de peditórios e humilhações em público.

Enquanto continuarmos a não exigir os nossos direitos e lutar por eles, continuaremos a ser olhados como coitadinhos e dignos de pena e de esmola.

Eduardo Jorge

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