1ª parte: 180 km em cadeira de rodas pelo direito a uma Vida Independente


Como vos conseguir passar tudo o que vivi nestes 3 dias de viagem? Foram tantas as emoções, acontecimentos, momentos bons e menos bons...adoraria contar-vos tudo, tipo estarmos juntos, em cavaqueira, como acontece com as crianças que saem pela primeira vez da proteção dos pais e chegam com muitas novidades para contar. Mas não pode ser e também não sei se teriam pachorra para me ouvirem. Por esse facto, vou tentar resumir a viagem em 3 partes, cada uma delas corresponderá a um dia de jornada.

Mas primeiro que tudo tenho de agradecer do fundo do meu coração á Cristina Fernandes minha cuidadora desde o primeiro minuto, ao Sr João motorista da carrinha de apoio e ao Sr Manuel Feijão, que me emprestou a carrinha.

DIA 23, PRIMEIRO DIA

Felizmente ao levantarem-me não surgiu a habitual queda de tensão daquelas que nos tiram até a força para respirar. Mas ao chegar á rua e começar a falar para a imprensa presente, estava a ver que não conseguia falar mais que um minuto seguido, mas consegui, e 1ª etapa estava resolvida. Sentir o apoio e carinho das pessoas que estavam a apoiar-me na saída da minha casa em Concavada, e o abraço do Mário Murcho (também em cadeira de rodas) foi um grande estímulo. Na localidade seguinte, Pego, existiam poucos apoiantes á beira da estrada, em compensação no Rossio ao Sul do Tejo foi a surpresa total, tinha um grupo a aguardar-me e a polícia apareceu pela primeira vez. Sentir aquele calor humano e verificar que afinal teria a proteção da polícia foi muito importante. A dúvida sobre se teria proteção ou não por parte das autoridades e se me obrigariam a circular pela esquerda da via pública, como informava parecer das Estradas de Portugal, estavam a preocupar-me.


No Rossio, o João Nisa inicia corrida ao meu lado. Soube mesmo bem ter alguém para conversar e para minha surpresa acompanhou-me durante vários quilómetros. Em Tramagal primeiro banho de emoções. Espantoso. Era gente por todo o lado. Estavam desde o inicio até ao final da localidade. Foi a minha primeira paragem para ser recebido pelas entidades locais, neste caso Sr presidente da Junta de Freguesia e Dra Celeste Simão, vereadora da ação social e educação, da CM de Abrantes, entreguei-lhes um documento onde resumidamente explicava o porquê da minha passagem pela sua localidade e realizei uma pequena palestra sobre o assunto aos presentes. Em troca fui presenteado com um galhardete representativo da localidade por parte do executivo local e um terço oferecido pela Elsa.
Se já me sentia confiante para enfrentar a grande jornada, mais ainda fiquei. Foi como se uma barreira psicológica fosse ultrapassada de vez. E lá continuei a viagem com o João Nisa em marcha ao meu lado e a acompanhar-me de carro a Guida Correia Pires, Jorge Pereira, Jorge Damas, Vitor Ferreira e José Lopes Peres que me acompanhou desde a Concavada, e grande apoio prestou nas minhas transferências na troca das cadeira de rodas, subi-las e desce-las dos veículos até a Almeirim, onde terminei a viagem do 1º dia..
Mas nem tudo foram rosas, além do frio que sentia, ao chegar a Santa Margarida, aconteceu o primeiro imprevisto. O motor da cadeira de rodas aqueceu em demasia e não foi possível continuar. Foi necessário transferirem-me para outra cadeira de rodas que só circula a 4 km/h. A cadeira mais potente foi transportada pela carrinha de apoio até ao Centro de Apoio Social da Carregueira onde ficou a recarregar as baterias e arrefecer os motores. Foi esse o sistema utilizado durante o resto do trajeto. Ia alternando a utilização das cadeiras. Última mudança aconteceu em Alpiarça e foi a CM que a foi buscar á estrada e fez o favor de carregar as baterias.

A primeira refeição aconteceu perto do miradouro de Almourol. A sandes saboreada à beira da estrada, com o Tejo como cenário de fundo soube muito bem. Ainda por cima apareceu a Carolina Marques com uns miminhos trazidos diretamente da sua Duplo Deleite. Nesta altura o frio, dor no braço direito, pescoço e nos ouvidos era cada vez maior.
 Próximas emoções fortes aconteceram na Carregueira. E que emoções…foi comovente a maneira como fui recebido pelos utentes do Centro de Apoio Social da Carregueira. Estava previsto não realizar paragens durante a viagem, a não ser as programadas, mas teve de acontecer, era o mínimo que poderia fazer para agradecer. Até direito a cartazes com incentivo eu tive, e no final da localidade lá estavam mais uma vez à beira da estrada a desejar-me boa sorte. Escusado será dizer que as lágrimas não me deixaram durante largos minutos.
Em Alpiarça tínhamos o executivo da CM à nossa espera com a cadeira de rodas já carregada e algumas lembranças (garrafa de vinho tinto Quinta dos Patudos já foi aberta).
Durante o percurso os agentes das autoridades iam-se substituindo, mas a partir da Chamusca deixaram de me acompanhar. Só os voltei a ver em funções, a partir do Porto Alto/Samora Correia. Muita falta me fizeram entre Alpiarça e Almeirim. Percorri os 8km de distância já durante a noite, numa cadeira sem luz, com muito frio e trânsito muito complicado. Houve até momentos de solidão. Cheguei a Almeirim completamente de rastos. Foram momentos muito difíceis. Felizmente a recepção foi muito calorosa e a CM de Almeirim pela voz do Sr vereador Joaquim Sampaio, tinha à nossa espera o átrio de entrada do Salão Nobre da CM para pernoitarmos. No dia seguinte recebemos a visita do Srº presidente que nos foi desejar boa sorte. Soube mesmo bem não ficar na rua ao frio, assim como soube muito bem a sopinha quente e pizzas trazidas pelo casal Fátima Henriques Figueiredo/Davide Susca e PizzaMassas. Assim como os bolinhos trazidos por duas ex colegas da faculdade que aproveitaram para me aquecer com a sua capa académica e uma massagem realizada pela enfermeira Pascal.

Para melhor podermos aceder á internet o casal Dr Hélder e Dra Ana Poupino, trouxeram duas pens de internet móvel novinhas em folha com internet ilimitada. Os primos Gracinda e marido, e neta Cláudia Constantino, foram também incansáveis no apoio. Que bem soube no dia seguinte tê-los ao acordar...a luz do local que estávamos impossibilitados de desligar e teve de ficar ligada a noite toda, barulho assustador do sistema de ar condicionado e a preocupação de estarmos despachadinhos antes de funcionários da autarquia começarem a chegar ao local para iniciar dia de trabalho, condicionou-nos, mas permitiu-nos dormir umas 4 horas. Cristina Fernandes dormiu no chão, e costas acusaram esse facto. De manhã estava cheia de dores.
Foi muito agradável ter recebido a visita no meio do trajeto do professor António Carraço e esposa,  Dra Lurdes Botas, já mencionada Carolina Marques, Fátima e marido de entre outros amigos, assim como o apoio do Armindo Silveira na véspera da partida.
Antes de iniciar a viagem tentei preparar o organismo para a viagem. Tomei antibiótico para a bexiga, trabalhei de maneira diferente o treino intestinal, etc., mas tudo poderia acontecer. Sentir a primeira etapa realizada, o 1º objetivo cumprido, mesmo de rastos, foi uma sensação fantástica. Umas barrinhas de Herbalife oferecidas pela Isa Barata, e uns pedacinhos de chocolate também fizeram milagres quando a força começava a desaparecer.

Continua...

Eduardo Jorge

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