Vida Independente. Porquê greve de fome até morrer

Amigos, após estas minhas duas entrevistas á comunicação social: À RTP e OBSERVADOR onde comunico que irei realizar greve de fome até morrer, caso o Governo, na voz do Sr Secretário de Estado da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, Agostinho Branquinho, não cumpra dentro de 6 meses, o que prometeu no dia 6 de outubro de 2013, sinto que ficaram algumas dúvidas a esclarecer:

1º) Eu não não tenciono realizar uma nova greve de fome, mas sim reatar a iniciada no dia 7 de outubro de 2013 em frente à Assembleia da República, suspensa na altura, porque na reunião tida no mesmo dia na própria Assembleia da República, a convite do Sr Secretário de Estado do MSESS, Agostinho Branquinho e onde estiveram presentes além de mim, o Movimento (d)Eficientes Indignados representado pelo Jorge Falcato Simões e Manuela Ralha, a Cristina Capela como mãe e cuidadora de um filho com multideficiência, e por parte do Governo, o referido Secretário de Estado, o chefe do seu gabinete, ainda a sua assessora Dra Sónia Esperto, o presidente do Instituto Nacional para a Reabilitação, a comissão para a deficiência e também as senhoras deputadas do PSD ligadas à reabilitação, nessa reunião expus o porquê da minha ação, tendo apresentado condições para a suspender, condições essas que foram aceites, e que se resumiam a trabalharmos em conjunto na elaboração de uma Lei sobre Vida Independente;

2°) Para iniciar a elaboração da dita Lei, achou-se por bem também auscultar a população com deficiência, seus familiares e também organizações do sector, tendo-se criado um endereço de e-mail, colocado á disposição dos possíveis participantes no site do INR, para esse efeito. Infelizmente o baixo número de contributos para a elaboração da dita Lei, foram uma decepção. Ainda estou a visualizar a cara de satisfação do chefe de Gabinete do Sr Secretário de Estado, quando nos disponibilizou os dados.

3º) Acontece que vários meses depois nada tinha acontecido de relevante, a não ser um telefonema que existiu da parte da Dra Sonia Esperto, a informar-me que tinha iniciado a formação de 300 assistentes pessoais, através de um protocolo entre o MSESS, IEFP e União das Misericórdias.

4º) Visto isso, decidimos questionar o MSESS do porquê de nada estar a ser feito, tendo-se marcado uma reunião no MESS em Lisboa, reunião essa já sem o Sr Secretário de Estado, a desculpa do seu chefe de gabinete para o sucedido foi a permanência da Troika no Ministério. Iniciou-se a reunião com a minha presença, também do Movimento (d)Eficientes Indignados representados desta vez pelo Diogo Martins e Jorge Falcato Simões, pela parte do Governo, além do já referido chefe de gabinete do Sr Secretário de Estado, encontrava-se presente mais uma vez o Sr presidente do INR e a assessora do Sr Secretário de Estado Sónia Esperto.

Nessa reunião tudo começou a dar para o "torto". Para já a falta do Sr Secretário de Estado, fiquei com a ideia que só esteve presente na primeira reunião para me demover da greve de fome...nada de concreto tinham para nos apresentar, e tudo piorou quando nos informam que não poderíamos continuar a fazer parte do processo da criação da Lei sobre Vida Independente, por não existirmos juridicamente.

4º) Tentei argumentar que a questão de não existirmos juridicamente não foi obstáculo na altura que fui demovido a suspender a greve. Se não foi problema na altura, agora também não tinha de o ser. As regras não se iriam alterar no meio do jogo. Perante a minha ameaça de abandonar a reunião, ainda sugeriram que o presidente do INR mediasse uma reunião entre nós e comissão para a deficiência composta pela Associação Portuguesa de Deficientes, A HUMANITAS – Federação Portuguesa para a Deficiência Mental e a Associação dos Cegos e Ambliopes de Portugal. Obviamente que discordei. Não tinha que estar sujeito ao que a comissão bem entendia. Um dos factores para suspender a greve de fome foi nós sermos parte activa na elaboração da dita Lei. Vida Independente é isso mesmo, nós fazermos parte do rumo das nossas vidas. Agora iam-me tirar do "jogo"? Não foi isso o combinado.

Responderam que a Comissão representava-nos, a mim não me representam de certeza. Não me revejo na maioria das associações. Não me esqueço que enquanto na vigília em 2012, em frente á Assembleia da República, pela direito á atribuição justa de Produtos de Apoio, estávamos a dormir na rua, ao frio, e a APD encontrava-se nas nossas costas a negociar acordos com o Governo. Para já não referir que nunca os vemos ao nosso lado, seja em que circunstância for.

Para já não dizer que a comissão é convidada pelo Governo, logo, eles Governo, mandam, não têm que pedir-lhes autorização para nos aceitarem. Perante tudo isso abandonei a reunião, cortei relações com o Governo e afirmei que voltaria á luta de rua.

5º) De fevereiro até outubro de 2014, continuou a não acontecer nada. Lei nem vê-la. Assistentes pessoais idem...mas sobre a minha situação existiram novidades. Após negociações, o Centro Distrital da Segurança Social de Santarém, em julho de 2014, disponibilizou-me gratuitamente uma assistente pessoal, 5 dias úteis, e durante 8 horas por dia. É melhor que nada, mas e os fins-de-semana? Feriados? Durante a noite? Acompanhamento em viagens e tudo o resto?

Fui sempre bem claro, não seria pelo facto de me atribuírem uma assistente pessoal que iria suspender a luta, tanto que não o fiz e meses depois voltei á ação.

Concluindo: perante tudo isto, quero agradecer a todos que se têm preocupado comigo e apelar para que se juntem a mim nesta titânica luta, obviamente que não vos estou a convidar para se juntarem a mim na greve de fome, mas participarem ativamente da maneira que puderem. Temos que nos unir e mostrar que somos capazes. Somos gente amigos, temos de ser tratados como tal. Não aceitem estas condições miseráveis que nos oferecem e chamam vida, vida não é isto, vida é muito mais. Nós merecemos ser respeitados. Existimos. Vamos dar um BASTA e mostrar do que somos capazes?

Espero que tenha esclarecido o porquê da minha greve de fome. Eu nada de novo vou fazer. Só irei reiniciar o que deixei a meio. Não pensem que tomo atitudes de ânimo leve e por tomar. Desde Janeiro que penso na hipótese da viagem de protesto. Esperei quase um ano com serenidade, mas como verificaram nada aconteceu. Iria ficar quieto e aceitar a situação? Desistir? Nem pensem, quando me meti nesta "guerra" David contra Golias, sabia bem o que me esperava. Inclusive a morte. Não pensem que me quero suicidar. Tenho a minha deficiência bem resolvida como podem verificar. Mas também sei que assim não gosto de viver.

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