Natal na minha aldeia

Fui desafiado pelo jornal Abarca a escrever uma estória sobre o Natal na minha infância. Eis o resultado:

Nasci em 1962, no Padrão, uma pequena aldeia pertencente à freguesia de São Pedro do Esteval, concelho de Proença-a-Nova. Não sei porquê, mas tenho muito poucas recordações da minha infância, incluindo a época natalícia.


Eram tempos muito difíceis, e tudo se agravou com a morte do meu pai era eu ainda criança. Fartura não havia, mas fome felizmente nunca passei. A terra desde que trabalhada era generosa connosco. Dela vinha muito do nosso sustento. Empregos não existiam por aqueles lados a não ser temporários, como por exemplo: apanha da azeitona, vindimas, e no caso das adolescentes, servir na casa de famílias abastadas noutras paragens.

Minha mãe era muito religiosa e do pouco que me recordo a época do Natal era simplesmente uma comemoração religiosa. Comemorávamos o nascimento do Menino Jesus. Ponto alto do dia de Natal era o beijar a imagem do Menino, deitado na manjedoura, durante a eucaristia, e não os presentes recebidos ou a árvore de Natal.

Na véspera de Natal ajudava-se a mãe a fritar as filhoses, numa frigideira cheia de azeite, cuja massa descansava num grande alguidar de barro, muito bem agasalhado, pois o calor vindo da lareira ajudava a massa a crescer. A receita era sempre a mesma. mas isso pouco interessava, importante era que durassem muito tempo sem se estragarem. Mesmo duras eram muito apreciadas. Se houvesse mel para as cobrir, melhor ainda.

Presentes ficavam para segundo plano. O que aparecesse no sapato junto à lareira vinha por acréscimo. Geralmente tínhamos direito a roupa. Era um dos dias do ano que se estreava roupa, o outro era no dia da festa anual. De manhã, lá chegava (era o mais novo de 6 irmãos) junto da lareira e verificava o que o que o Menino Jesus tinha deixado.

Intenção era ir de roupa nova à missa, e beijar a imagem do menino Jesus. Depois ficava-se alguns minutos junto da enorme fogueira que ardia dias sem parar no largo da igreja. Nada de grandes aventuras pois a roupa nova jamais se poderia sujar ou estragar. Sabia perfeitamente que isso nunca poderia acontecer.

Foi num Natal que recebi o meu primeiro relógio. Deveria ter uns 13 anos. Não sabia onde por o braço. Medo de riscar o vidro era assustador.

Assim foram os meus natais na minha aldeia. Valorizava-se o que havia, e mais não se exigia.

Boas Festas a todos.

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