Dá-me a tua cadeira de rodas

A minha relação com as crianças é desta vez o tema da minha crónica no Jornal Abarca 

Sai, sai daí! Grita sem parar uma criança de uns 5 anos a segurar as minhas pernas. Queria a toda a força que saísse da minha cadeira de rodas para se sentar.

Mãe que o acompanhava bem tentava demovê-lo explicando com muita calma que eu tinha um dói-dói e não conseguia andar. Mas nada o conseguia impedir de continuar a tentar que eu deixasse a cadeira que ele tanto queria.

Eu ali parado no meio de uma sala de espera de um grande hospital, e uma criança a chorar com toda a gente a olhar e eu sem saber como reagir. Ainda lhe trouxeram uma cadeira de rodas manual, mas nem pensar. Era a minha que ele queria e ponto final. Só em braços o conseguiram tirar dali e eu saí de fininho para outra sala.

Este foi um caso estranho, pois na maioria das vezes fogem. Não por mim, mas pelas circunstâncias. Não é fácil seduzir uma criança estando numa cadeira de rodas inerte. Eu tenho um truque. Utilizo um estratagema. Capto as suas atenções ligando e desligando as luzes, tocar a buzina…caem todos. Pior é que depois querem mexer em tudo.

Estar na cadeira, sentado sempre naquela posição acho que não lhes diz nada. Deve ser muito monótono. Daí na maioria das vezes não me ligarem nenhuma. Estando na cama ainda pior. Aí é que fico mesmo sem hipóteses. Já experimentei de tudo, de vez em quando tenho sorte. Digo alto e bom som: olha, sei uma estóriaaaa…olham para trás e dizem: hã…e ataco logo, tem de ser de imediato e com um inicio forte, que lhes interesse, caso contrário desaparecem.

Mas há exceções. Tenho dois casos deliciosos. O meu sobrinho neto e afilhadinho Samuel e o Gustavo filho de um amigo. Ambos com 6 anos. O Samuel desde sempre brincou junto a mim. A cadeira de rodas nunca foi entrave. Mesmo que saia é por pouco tempo. Se estou na cama vem com os seus animais de plástico (seu brinquedo preferido) e brinca em cima dela, sempre ó padinho para cá, ó padinho para lá.

O Gonçalo conheci-o com 5 anos já aqui no Centro de Apoio Social da Carregueira, mas houve empatia imediatamente. Não precisei de nenhum estratagema para o conquistar. Foi espontâneo. De repente estávamos a conversar sobre o nosso clube favorito, (Benfica claro) e ainda da última vez que me visitou eu estava na cama, colocou brinquedos no chão junto a ela e toca a brincar e por a conversa em dia.



Não há preço que pague este carinho e atenção que me proporcionam. É algo mágico e muito gratificante sentir que independentemente das circunstâncias, eles estarão comigo.

Comentários

  1. muito lindo gostei-O Eduardo é muito forte divertido.com muita experiência,acho que qualquer pessoa o quer ter por perto.Fique bem.

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    1. Olá Amélia.
      São crianças. Acho que preferiam que jogasse futebol...brincasse com eles...etc
      Como não posso...

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  2. Temos que conquistar a atenção das crianças usando as palavras. :)

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