A cultura não é para todos. Mas há honrosas excepções

Quem anda de cadeira de rodas ou é anão não consegue muitas vezes ver a cara de quem lhe vende o bilhete num teatro, porque a bilheteira é demasiado alta. Ou não consegue subir ao andar superior do museu para ver a exposição que queria, porque só há acesso por escadas. Se tiver problemas de visão, pode não conseguir ler as letras minúsculas de um panfleto. E são muitos os que nem sempre compreendem o que diz o guia da visita, que fala rápido e de forma confusa.

“Muitos funcionários e directores de museus e instituições culturais nunca tinham pensado nestas questões” – é essa a raiz do problema que a Acesso Cultura, uma associação sem fins lucrativos criada para melhorar as condições de acesso, físicas, sociais e intelectuais, aos espaços de cultura no país, anda há três anos a tentar minimizar, explica ao PÚBLICO a directora executiva Maria Vlachou. Foi de resto para isso que lançou os prémios entregues esta sexta-feira no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, em Lisboa, e que distinguiram, pelas suas boas práticas na promoção da melhoria do acesso à cultura, o Parque Biológico da Serra da Lousã, a Sociedade Artística de Pousos, a companhia de teatro Comédias do Minho e o grupo Dançando com a Diferença. Traduzindo: um parque biológico que desenvolveu uma quinta terapêutica para pessoas com deficiência, doença mental ou em situação de desemprego de longa duração (e ainda três museus, um parque de vida selvagem e uma quinta pedagógica). Uma associação musical que trabalha regularmente com a comunidade cigana, e que prepara agora uma ópera com os reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria para estrear na Gulbenkian. Um grupo que assumiu como missão levar o teatro às aldeias mais isoladas do Alto Minho. E uma companhia de dança pioneira na inclusão de intérpretes com deficiência.

A Acesso Cultura, diz Maria Vlachou, quer que as idas ao teatro e a concertos e as visitas a museus e exposições não sejam um privilégio de alguns, mas um direito de todos. Após três anos de trabalho no terreno, reconhece que ainda restam muitas dúvidas e que, normalmente, apenas os serviços educativos estão sensíveis para estas questões. Mas há honrosas excepções, a vários níveis, como os quatro trabalhos premiados demonstram.

Foram as práticas de “excelência de integração e de acessibilidade social” que valeram ao Parque Biológico da Serra da Lousã o prémio Acesso Cultura de Acessibilidade Integrada (física, social, intelectual). O parque integra, lado a lado com as actividades de turismo e de promoção do património da região, pessoas com deficiência, doenças mentais e desempregados de longa duração no mercado de trabalho, numa autêntica quinta terapêutica. Num formato que júri considerou “inovador”, o parque biológico inclui três museus que promovem as artes tradicionais e o património natural da região, um parque de vida selvagem e uma quinta pedagógica com centro hípico, entre outros espaços de contacto com a natureza e um hotel adaptado a pessoas com mobilidade reduzida.

O grupo Dançando com a Diferença venceu o prémio de Acessibilidade Física, dado o seu trabalho pioneiro em Portugal, na inclusão de pessoas com deficiência numa companhia de dança. “Inúmeros foram os artistas que tiveram as suas primeiras experiências com artistas com algum tipo de deficiência”, o que permitiu a mudança de mentalidades e a criação de novos espaços de dança inclusiva, referiu o júri.

Na categoria de Acessibilidade Social, os prémios foram para o grupo Comédias do Minho e para a Sociedade Artística Musical dos Pousos (SAMP). O primeiro diferenciou-se “pelas boas práticas” de levar o teatro a aldeias do Vale do Minho. O júri destacou que o projecto criou “uma vasta rede cultural”, que envolve políticos, trabalhadores na área da cultura e desenvolvimento local, artistas amadores, educadores e jovens. Em Leiria, a SAMP é uma sociedade cultural que tem desenvolvido uma série de projectos com idosos, crianças, reclusos e portadores de deficiência. Através da música, a associação promove a integração destes grupos excluídos na comunidade e dá-se a integrar noutras comunidades, como a cigana.

Para além dos quatro premiados nas categorias principais, outros seis projectos receberam uma menção honrosa: a associação cultural d'Orfeu pelo Projecto opÁ! – Orquestra Percussiva de Águeda, a Fundação de Serralves e a Laredo Associação Cultural pelo projecto Serralves em Língua Gestual Portuguesa, os Parques de Sintra – Monte da Lua pela aplicaçãoTalking Heritage, que o júri considerou um exemplo de turismo acessível por permitir a alteração de tamanho da fonte e a auto-vocalização, assim como incluir a descrição em áudio e língua gestual dos conteúdos. As outras menções foram para o projecto Há Festa do Campo, o Museu de Leiria e a Orquestra de Câmara Portuguesa, pelo projecto Notas de contacto.

No total, 38 projectos foram submetidos à avaliação do júri composto por Ana Garcia (especialista em Turismo Acessível e representante em Portugal da ENAT – European Network of Accessible Tourism), Graça Santa-Bárbara (museóloga e responsável pela Comunicação do Museu Nacional dos Coches) e Marta Silva (bailarina e directora do Largo Residências).
Simplificar

A Acesso Cultura conta com trabalho voluntário e pro bono de associados e não associados. Associados activos são já 109. Um “crescimento extraordinário” para quem começou em 2012 com um grupo de 17 pessoas, nota Maria Vlachou. Pelas formações que dedicam a funcionários de associações culturais passaram, em 2015, cerca de 500 pessoas. “Os cursos têm muita procura e, nestes três anos, temos tido todos esgotados”, frisa a directora da associação.

As formações vão desde a teoria à prática, e visam alertar os profissionais da cultura para a necessidade de articulação entre “as várias áreas de uma instituição cultural, desde a técnica, à direcção, programação e comunicação, para produzir uma oferta acessível”. A Acesso Cultura faz também consultoria e diagnósticos a pedido de museus, salas de espectáculos e todo o tipo de instituições públicas ou privadas que se dedicam à cultura.

A organização não esquece que as barreiras físicas podem “ser as mais fáceis de combater”, e sublinha que há questões esquecidas: “Há ainda uma grande falha na comunicação. Muitas pessoas não conseguem ler porque o design é mau, ou não conseguem perceber, porque a linguagem é de especialistas”. Simplificar é, para esta associação, a pedra de toque: uma forma de tornar itens básicos como os panfletos de uma exposição acessíveis a todos.

E há muito na melhoria das condições de acessibilidade que não passa, necessariamente, por mais dinheiro. “É uma questão de ter outra mentalidade. Para fazer um folheto legível gasta-se o mesmo”, destaca Vlachou.

Em 2016, a associação levou, pelo segundo ano consecutivo, as preocupações recolhidas com a experiência no terreno à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), cuja responsável, Paula Silva, garantiu estar a ser revisto o conceito de família para efeitos das entradas em museus e espectáculos, uma das preocupações da Acesso Cultura. Hoje, é considerada uma família um grupo de pessoas com parentesco de primeiro grau provado, o que “muitas vezes não se aplica a algumas famílias portuguesas” e ignora até o conceito de família definido por lei, nota Maria Vlachou.

A associação reforçou também junto da DGPC a necessidade de melhorar os equipamentos da Rede Nacional de Museus: nem sempre estes cumprem as regras de acessibilidade física para além daquelas que são especificamente consagradas pela lei e que apenas dizem respeito a pessoas com mobilidade condicionada. É que há dificuldades de acesso, salientam, que não têm a ver com mobilidade.

Fonte: Público

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