De volta a casa

Quanto mais me afastava do Centro (lar), mais o coração apertava. Sentia uma angústia e um desconforto muito grande. Era como se estivesse a sair da minha zona de conforto, de um lugar onde estava protegido. Sentimentos que me acompanharam até a casa.

Encosto a cadeira de rodas á mesa, avisto pela janela o esplendor da natureza, e finalmente sinto que estou em casa e a angústia diminui. Vejo o familiar bando de corvos a deixar-se levar pelo vento…o cartaxinho pousado na cerca em frente, o picanço bebé no candeeiro... Melhor receção impossível. Velhos conhecidos a desejarem-me boas vindas. Durante momentos senti-me de volta a casa, no meu espaço.

1ª noite, após o apagar das luzes e ser deixado só, os sons da noite e a escuridão obrigaram-me a ficar acordado durante algum tempo, mas depressa chamei pelo sono e o obriguei a levar-me dali para fora. Com a manhã vem o alívio. 1ª noite passada sem grandes problemas o que aconteceu até à última noite. Difícil acreditar que tudo funcionou na perfeição.

O receio de ter de precisar de ajuda durante a noite e não a ter, era o meu maior medo. A logística também. Maioria dos equipamentos de apoio ficaram no lar. A própria casa já não se encontra operacional. Mas tudo se resolveu com a preciosa ajuda da Euridice e Rafaela, minhas cuidadoras de todas as horas. Até a bexiga, intestinos e outras miudezas resolveram se associar á festa e deixaram-me em paz.

“Vi-o nas fotografias e nota-se que está feliz”. “Teus colegas têm mesmo cara de boas pessoas”. Ouvi estas frases algumas vezes. Ainda bem que transparece cá para fora o quanto estou feliz por estar no Centro de Apoio Social da Carregueira (CASC), e o quanto sou acarinhado por toda a família que o compõe. É a pura realidade. Não tenho palavras para descrever o quanto me fazem bem.
Ali encontrei o que pensei não ter direito: respeito, amor, solidariedade, honestidade, profissionalismo, verdade...mas principalmente paz, respeito pelo meu trabalho e confiança. E não é de agora. Logo que iniciei funções, e ainda estagiário, a direção fez questão de me incluir nas reuniões de direção, da equipa técnica, do CLAS-Conselho Local de Ação Social (estruturas concelhias de funcionamento do Programa da Rede Social), tendo inclusive solicitado á Chamusca, alteração do local dos encontros para um espaço acessível, o que aconteceu de imediato. No CASC sinto-me por inteiro, valorizado e olhado como sou. Um técnico de serviço social, que por acaso é tetraplégico. Nada mais.

O lar

O lar é o lar. Um espaço frio, impessoal, de sofrimento até, lugar onde maioria chega para ser a sua última residência...mas também um lugar de amor, solidariedade, ternura, acolhedor, familiar, lugar de alegria de esperança e de escolha de muitos. Para mim continua a não ser o local adequado, mas o melhor de momento. Em casa voltou a nostalgia e a possibilidade de poder com outra clareza/isenção comparar e realizar o balanço deste ano passado no lar. Faz no próximo mês um ano que fui institucionalizado.


E concluo que neste momento a segurança e a paz que encontro neste espaço é o mais importante para mim. Senti-o quando estava a sair. Foi uma sensação de perda e medo. Sair para a incerteza e instabilidade. Para quem não conhece a ERPI-Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, minha atual casa, pode pensar que se trata de mais um local fechado e minúsculo com camas amontoadas, onde só existe sofrimento, maus tratos, cheiros nauseabundos e tudo o resto, mas não é o caso, espaço é amplo, quartos são na sua maioria individuais com WC privativo, existe uma equipa técnica multidisciplinar e embora não seja o local perfeito, é um local onde a dignidade humana é o foco principal.

Quem manda...

Maioria dos relatos que recebo de quem se encontra nestes lares, são assustadoras e nada dignificantes da qualidade humana. Confesso que cheguei a pensar que todos os lares seriam mais ou menos assim. Mas estava errado, embora tenha como lema não julgar antes de conhecer a realidade, e evitar generalizar, era difícil não pensar desse modo perante situações que vivenciei e me foram apresentadas.

O CASC Carregueira é a prova que existe exceções. Desde o meu primeiro contato com o Centro e sua direção/equipa técnica, vi que ali era diferente, e ainda bem que é para melhor. A direção é de uma humanidade incrível. Nosso presidente Duarte Arsênio que se dedica 24 horas por dia ao Centro, tesoureiro José Rodrigues que após o seu horário de trabalho ali fica sempre pronto para o que for preciso, diretora técnica Telma Leitão, uma mulher que nunca vira a cara á luta, vice presidente Maria Eduarda sempre pronta a colaborar.

De volta ao lar após uns dias em casa a tratar de uns assuntos, concluo que sou um privilegiado por estar rodeado de gente tão especial. À direção, colegas utentes e colegas de trabalho, obrigado por tudo o que me proporcionam e me fazerem acreditar num futuro melhor.

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