Circular de cadeira de rodas em Lisboa

Andar de cadeira de rodas numa cidade como Lisboa é uma experiência brutal. Uma verdadeira tortura. Não há palavras para descrever a bestialidade de certos (ir)responsáveis pelo espaço público.

Há a agenda dos políticos e há a agenda dos cidadãos. Infelizmente uma e outra coincidem muito pouco. Enquanto uns fazem slogans e bandeira de temas que interessam a minorias, há maiorias expressivas a sofrer sem nada poderem fazer. Falo de pessoas portadoras de deficiência, de gente com necessidades especiais e mobilidade reduzida, por exemplo. Mas também falo de uma legião de homens e mulheres, velhos e crianças com doença crónica, que sofrem o que Deus sabe, sem nunca terem estes mesmos políticos do seu lado.

Andar de cadeira de rodas é uma tragédia neste país, sobretudo nas grandes cidades, onde tudo é obstáculo e aparentemente nada existe para facilitar a vida. Mas ninguém pense que são só os deficientes que sofrem. Esses são massacrados diariamente de manhã à noite, é certo, mas não são os únicos. Os doentes incuráveis são outra casta altamente sofredora. Desde logo, pela longevidade da própria enfermidade, bem como pelas dores e desconfortos associados às suas doenças, mas também pelos muros, tantas vezes invisíveis, que os mantêm à margem de uma vida dita normal e começam nas perversidades do sistema nacional de saúde, sempre que não recebem a atenção e os cuidados que lhes são devidos.

Há um par de anos o ministro finlandês da Saúde fez o que todos os políticos ligados às questões que tocam nas fibras mais sensíveis das populações deviam fazer: durante um dia inteiro simulou ser um doente crónico mimetizando o comportamento de um jovem com doença de Crohn. Para quem tem a felicidade de não saber do que se trata, deixo aqui o essencial sobre uma doença inflamatória do intestino que afecta principalmente jovens adultos entre os 16 e os 40 anos: dor ou cólica abdominal severa, febre, diarreias brutais e recorrentes (perdoem-me a escatologia, mas é mesmo esta a realidade da esmagadora maioria dos doentes).

O dia que o ministro da Saúde finlandês guardou na sua agenda para assumir as dores e desconfortos (simulados, note-se) de um jovem doente, foi passado a copiar exactamente o ritmo deste mesmo rapaz. Recebeu dezenas de sms no seu telemóvel indicando sintomas e procedimentos. Durante a manhã e ao longo da tarde foi obrigado a interromper as reuniões de trabalho vezes sem conta para se sentar na retrete durante pelo menos dez minutos seguidos (felizmente sem desconforto nenhum, já que estava apenas a simular, insisto) e assim imitar o quotidiano daquele jovem.

Abstenho-me de enunciar aqui detalhes que seriam insuportáveis para quem lê uma simples crónica de jornal, habitualmente sem cheiros nem cores, mas posso garantir que ao fim do dia o ministro da Saúde estava estafado, enervado, frustrado e sem mais capacidade de resistência. Mesmo tendo apenas simulado ser um doente de Crohn e não passando realmente pelas dores e desconfortos, o ministro terá desabafado: “Não sei como é que conseguem viver assim todos os dias que duram as crises, nem como se atravessa uma vida inteira com uma doença crónica”.

No dia seguinte retomou a normalidade, coisa que não aconteceu com o rapaz, nem acontece com os doentes crónicos nem com os portadores de deficiências ou doenças incapacitantes, claro. Tenho a certeza de que a experiência de se pôr na pele de um doente mudou para sempre a perspectiva deste responsável pela saúde pública e privada de todo um país e, por isso mesmo, tenho a certeza de que os nossos políticos humanizariam para sempre o seu olhar e, acima de tudo, a sua acção se dessem passos no mesmo sentido.

Como? Muito fácil. Os presidentes de câmaras e autarcas poderiam começar por passar um dia em cadeira de rodas. Um dia apenas das suas vidas. Sair de casa de manhã e voltar à noite, tentando fazer a sua vida normal. Tenho a certeza absoluta (a máxima certeza!) de que muita coisa mudaria em si e à sua volta. E não tenho uma dúvida de que todos ganharíamos com a pedregosa experiência.

Andar de cadeira de rodas numa cidade como Lisboa, que é onde moro e a que melhor conheço, é uma experiência brutal. Uma verdadeira tortura. Não há palavras para descrever a bestialidade de certos (ir)responsáveis pelo espaço público. Falo por conhecer bem o dia a dia de tetraplégicos, pois tenho quatro amigos que, tendo nascido e vivido muitos anos sem qualquer condicionante, foram vítimas de acidentes que os deixaram em cadeira de rodas para o resto da vida. Mas também falo como voluntária de uma associação apostada em melhorar a qualidade de vida às pessoas com mobilidade reduzida e necessidades especiais. Ou seja, felizmente não falo por mim, mas por uma multidão de aflitos que muitas vezes (vezes demais!) opta por nem sair à rua. Escolhe tristemente ficar enclausurado em casa para não ter que se confrontar com um rol de barreiras e obstáculos que fariam qualquer mortal querer desistir de existir ao primeiro entardecer.

O ministro finlandês assumiu-se incapaz de viver como um doente crónico ao fim de um dia de esgotante simulação, mas aposto que a maior parte das pessoas que constroem casas e passeios, recuperam monumentos e praças, multiplicam estradas e edifícios públicos nunca calçaram os sapatos de quem lá vive e é obrigado a percorrer diariamente (ou a tentar sobreviver, para ser mais exacta) esses caminhos tortuosos.

Chateia-me a incoerência de alguns políticos, decisores e planeadores urbanos. Enervam-me as batotas dos que dizem que fazem mas não fazem, dos que fingem que rebaixam passeios e eliminam barreiras, mas deixam tudo às três pancadas, provocando novos acidentes e gerando mais feridas que não cicatrizam. E irritam-me certos slogans a defender as grandes questões do povo, quando muito deste povo é literalmente ignorado nas suas dores e fracturas, quando é silenciosamente seviciado, torturado, dia após dia, mês após mês, durante todos os anos da sua vida. Julgam que exagero? Experimentem andar de cadeira de rodas um dia, apenas um, e verão se exagero.

Fonte: Observador

Comentários

  1. Grande reflexão. Hoje em dia aparecem pessoas que se preocupam com estas questões.

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    1. A Laurinda Alves sempre foi uma grande defensora dos nossos direitos.
      Fique bem

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