Fiquei tetraplégico. Suicido-me?

Algum tempo atrás escrevi sobre este assunto. Desta vez voltei a fazê-lo na minha crónica do Jornal Abarca


Alguns meses após o acidente que me deixou tetraplégico, encontrei um antigo conhecido da minha idade, que já não via há muito tempo.

Ele ficou muito confuso e surpreso por me ver numa cadeira de rodas, e naquela situação, e quis saber se era grave. Disse-lhe que era para sempre, irreversível. Disparou imediatamente: “não pode ser! E tu aguentas? Eu já me tinha matado”. Naquele momento não pensei muito no assunto e acho que nem lhe respondi concretamente, até porque no início, achava que poderia a qualquer momento ter melhoras significativas e também não queria ver a real gravidade do meu problema.
Mas de há uns anos para cá penso nesta frase e tento enquadrá-la. Acho que muitas pessoas quando nos vêem, a pensam, só não a dizem. Questionam-se se seriam capazes de viver nestas circunstâncias e este tipo de vida.

Hoje, vejo que passaram 25 anos e eu sem as ditas melhoras significativas. Pelo contrário, com o tempo, aparecem é as pioras e o estado de saúde agrava-se.

É fácil viver dependente dos outros? De maneira nenhuma! Acostumei-me? Não, nunca me acostumarei! Aceitei? Nem pensar! Vou vivendo uma mentira e faço de conta que sou feliz? Nada disso. Eu sou infeliz. Já ouvi da boca de dois conhecidos tetraplégicos portugueses, que são mais felizes após o acidente. Eles lá saberão porquê. Talvez se fosse rico como eles, vos pudesse dar uma resposta…eu não o sou.

Então porque vivo nestas circunstâncias, e não me suicido, como meu conhecido teria feito? Porque não sei como, mas encontrei uma maneira de ter momentos felizes, viver com o que tenho e sou, e não fazer dramas. Também tive a confirmação, que nós, seres humanos, somos mais fortes que imaginamos, e somos capazes de ultrapassar coisas que até nós duvidamos.

Nunca mais vi esse meu conhecido, mas se ele me aparecesse com as mesmas dúvidas e questões, continuaria igualmente a não lhe saber, ou querer responder.

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