Eduardo Jorge avança com ação de protesto pelo direito a uma Vida Independente

São quatro os dias que o ativista Eduardo Jorge promete ficar deitado numa cama, em frente da Assembleia da República numa ação de protesto pelo direito a uma Vida Independente (VI).

De 21 a 24 de maio o ativista diz que ficará “totalmente dependente” dos cuidados do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Primeiro Ministro, António Costa e do Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva.

“O conceito de Vida Independente foi desconhecido para mim durante anos. A partir do momento que o conheci, prometi a mim mesmo que tudo faria para conseguir a sua implementação em Portugal, mas nos moldes em que me foi dado a conhecer, tal como existe noutros países, e não conforme consta na recente proposta apresentada pelo Governo”, refere Eduardo Jorge no comunicado enviado à Plural&Singular.

A intenção desta iniciativa é chamar a atenção para as reais necessidades de uma pessoa com deficiência, dependente de terceiros, como a higiene, alimentação, posicionamento na cama, transferência da cama para a cadeira, etc. Eduardo Jorge garante que, se os três governantes não aceitem o pedido de assistência pessoal, ficará abandonado. “Não permitirei que outros realizem tais tarefas”, assegura.

Eduardo Jorge considera que o "Modelo de Apoio à Vida Independente (MAVI)" apresentado pelo atual Governo “pouco tem de Vida Independente”, porque segundo a proposta uma pessoa totalmente dependente de terceiros terá ao seu dispor assistência pessoal nas suas atividades de vida diária, no máximo durante 40 horas semanais, prestada por Centros de Apoio à Vida Independente que possuam o estatuto de IPSS e sejam reconhecidos pelo Instituto Nacional para a Reabilitação. “Todos nós sabemos que oito horas diárias de apoio são insuficientes para libertar as pessoas dependentes de terceiros para realizar a maioria das atividades da vida diária, como é o meu caso”, comenta o ativista.

Para Eduardo Jorge a filosofia de VI implica que o dinheiro seja atribuído diretamente às pessoas com deficiência e que sejam elas a escolher, no mercado, assistentes pessoais ou empresas, sejam elas privadas ou pertencentes à economia social, que melhor sirvam as respetivas necessidades. “Não se entende a obrigatoriedade deste serviço ser exclusivo das IPSS. Esta obrigação dificulta, ou mesmo impede, a organização das pessoas com deficiência e o controlo destas sobre os serviços que lhes são disponibilizados”, conclui.

Plano de cuidados enviado por Eduardo Jorge aos três convidados:
Domingo, dia 21 (a cargo do Presidente da República):

Início da ação: 15h00 (deitar-me, o que implica transferir-me da cadeira de rodas para a cama, tirar-me a roupa e posicionar-me na cama em decúbito lateral direito (deixar-me sobre o lado direito do corpo);

19h00 voltar a posicionar-me na cama, desta vez deixar-me sobre o meu lado esquerdo, lavar-me as mãos, e servir-me o jantar que será um compal e uma sandes queijo;

23h00 realizar-me a higiene íntima e posicionar-me em decúbito ventral (de barriga para baixo) e despejar o saco coletor de urina;

03h00 virar-me mais uma vez, desta vez deixar-me virado para o meu lado direito;

07h00 (fim do apoio*) deixar-me na posição de costas.
*Como não me assistiu durante a manhã, solicitei o apoio do Sr Presidente, também para a manhã do dia 24, último dia.

Segunda-feira, dia 22 (será o dia de depender do Primeiro Ministro):

9h30 como um banho está fora de questão, preciso que me apoie na higiene matinal que consiste em lavar-me a cara, tronco, zonas íntimas e desinfetar o cistocateter que serve de dreno da urina da bexiga, substituir proteção do orifício que leva a sonda até á bexiga, substituir saco coletor de urina, trocar-me a roupa, servir-me o pequeno almoço que será um pacote pequeno de leite simples, e quatro bolachas de água e sal barradas com marmelada e deixar-me posicionado sobre o meu lado esquerdo do corpo;

13h00 lavar-me as mãos, servir-me o almoço que será uma sandes de queijo e um compal, mudar-me de posição, desta vez deixar-me de costas;

17h00 virar-me para o meu lado direito do corpo e dar-me algumas cerejas como lanche;

21h00 realizar-me higiene geral, virar-me para o lado esquerdo, servir-me o jantar que será uma sandes de queijo e um compal;

24h00 virar-me de barriga para baixo, e despejar o saco coletor de urina;

04h00 (última tarefa do dia) virar-me para o lado direito do corpo;

Terça-feira, dia 23 (tarefas a cargo do Ministro Vieira da Silva):

8h00 virar-me de costas, realizar-me a higiene matinal que consiste em lavar-me a cara, tronco, zonas íntimas e desinfetar o cistocateter que serve de dreno da urina e substituir proteção do orifício que leva a sonda até á bexiga, mudar a roupa da cama e do corpo e servir-me o pequeno almoço que será um pacote de leite pequeno e quatro bolachas de água e sal barradas com marmelada e trocar o saco coletor de urina;

12h00 lavar-me as mãos, servir-me o almoço que será uma sandes de queijo e um compal, mudar-me de posição, desta vez virar-me para o lado direito do corpo;

16h00 virar-me para o lado esquerdo e dar-me uma maçã;

20h00 virar-me de costas, fazer-me higiene, servir-me o jantar que será uma sandes de queijo e um compal;

24h00 realizar-me a higiene íntima e posicionar-me de barriga para baixo;

04h00 (último apoio do dia) virar-me para o lado direito e despejar-me a urina.

Quarta-feira, dia 24 (caso o Sr. Presidente aceite, ficará a seu cargo):

8h00 na impossibilidade de tomar banho, realizar-me a higiene matinal que consiste em lavar-me a cara, tronco, zonas íntimas e desinfetar o cistocateter que serve de dreno da urina, e substituir proteção do orifício que leva a sonda até á bexiga, vestir-me, servir-me o pequeno almoço que será um pacote de leite pequeno e quatro bolachas de água e sal barradas com marmelada, substituir o saco coletor de urina e transferir-me para a cadeira de rodas, dando por encerrada a ação.

Mais sobre as ações de protesto de Eduardo Jorge:

Greve de fome (2013)

Viagem de 180 quilómetros em cadeira de rodas (2014)

Sobre o tema, a Plural&Singular apresenta na 9.ª edição da revista digital o artigo “Uma jornada pela Vida Independente”, uma reportagem que faz o “apanhado” dos 180 quilómetros que Eduardo Jorge percorreu de cadeiras de rodas entre Concavada, em Abrantes, e Lisboa. O Movimento dos (d)Eficientes Indignados e a Associação Portuguesa de Deficientes também falaram sobre este tema que este tetraplégico português colocou na ordem do dia numa ação que arriscou empreender por uma luta que não é só dele, mas de todos os que, como ele, procuram que o Estado faça jus ao artigo 19.º da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência que ratificou em 2009.

A 16.ª edição dedica a capa a este tema: E falar de Vida Independente é falar de liberdade de escolha e da possibilidade de se controlar a própria vida, escolher onde ir e com quem e de decidir o estilo de vida que se quer levar. Falar de Vida Independente é falar de direitos humanos e é falar de uma mudança de paradigma. É falar da vida que qualquer pessoa quer ter, incluindo, uma pessoa com deficiência…

Fonte: Plural&Singular

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