Um dos meus maiores sonhos é sentir-me livre no meu próprio país

Salvador Mendes de Almeida tem 35 anos e é fundador da Associação Salvador. Com o intuito de ajudar Portugal a ser um país com mais acessibilidades, continua a lutar pelos direitos das pessoas com deficiência motora e a proporcionar-lhes melhorias na qualidade de vida e no processo de reabilitação.


Quinze anos depois da fundação da Associação, Salvador deu uma entrevista ao Notícias ao Minuto, em que garante que é uma pessoa feliz e realizada, apesar de ainda acreditar numa cura, mas não de forma tão "vidrada" como quando era mais jovem.

Aprendeu a viver com as consequências do acidente de mota que teve aos 16 anos e que o deixou tetraplégico, e é um exemplo da sociedade portuguesa, tanto pela sua força de vontade e superação, como pela forma como ajuda os outros.

Aos 35 anos, salvaguarda que a Associação lhe traz um misto de sentimentos, frisando que dá muito a quem mais precisa mas que o sorriso e melhoria de vida dessas pessoas lhe dá muito a si também. Um sentimento mútuo que não o deixa baixar os braços.

A sua vida mudou naquele dia 2 de agosto 1998. O que recorda da noite do acidente?
Recordo-me de uma noite igual a tantas outras, com amigos, na flor da minha adolescência, sem pensar muito nisso mas achando que os acidentes e as coisas drásticas só acontecem aos outros. Já tinha caído de mota, já tinha caído a cavalo, era jogador de râguebi, partia-me todo e achava que a mim nunca me acontecia nada mas, de facto, é quando nós menos esperamos que as coisas acontecem. Mas, felizmente, não são só as coisas más que acontecem, também acontecem muitas coisas boas. A minha história é um bocadinho assim, ao início é difícil, há uma fase de adaptação, partir para um mundo desconhecido. Resta-nos ter o apoio da família, ajudou-me muito ter sido crente para me ajudar a procurar um sentido. À medida que me fui descobrindo, fazendo a minha vida, percebi que ainda havia muitas coisas para mudar e para fazer... E, em vez de assobiar para o lado e dizer que está tudo mal, foi um 'vamos lá fazer'.

Mas na altura acreditou que tudo voltaria à normalidade dentro de pouco tempo?
Sim, ao início sim.

A juventude ajudou a atenuar a situação ou, pelo contrário, tornou tudo mais difícil?
No meu caso, acho que ajudou a atenuar. No início, ajudou a atenuar porque com 16 anos a minha maturidade não era a de uma pessoa de 20 e muitos ou 30 anos, é diferente. Com 16 anos estava nos planos que, um dia, ia acabar o meu curso, formar-me, ser autónomo, independente, ter um trabalho que gostasse, mas não fazia planos a longo prazo.

O facto de ter tido o acidente jovem ajuda a lidar melhor com a situação, a relativizar. Mas a vida continua e também pensamos que, de facto, na altura do acidente era muito jovem, houve muita coisa que perdi, mas também houve muita coisa que ganhei. As pessoas que fui conhecendo, as oportunidades que tive de viajar, de conhecer outras realidades. E as pessoas que me acompanham, família, amigos e as pessoas novas que fui conhecendo desde que fundei a Associação.

Quando é que percebeu que a situação poderia ser mais definitiva do que passageira?
Passado três anos. Passado um ano ou dois anos já sabia que era uma situação definitiva e que podia vir uma cura, mas não sabemos quando ela vem. Hoje em dia fala-se muito em investigação, mas o que tenho aprendido é que temos de viver com aquilo que temos, com aquilo que conseguimos fazer e o meu foco tem sido esse.

Cinco anos depois do acidente, decidiu dar início à Associação Salvador. Em que momento decidiu que tinha de usar o seu exemplo para ajudar os outros?
Não foi bem a pensar no meu exemplo específico, mas a minha luta naquela altura foi em pesquisar coisas que faziam sentido para mim, para fazer desporto, para poder trabalhar, para haver mais acessibilidades e, felizmente, o meu pai teve a oportunidade de viajar para outros países e ver que havia outras realidades bem diferentes. Então, o nosso foco era muito esses, trazer para Portugal coisas que fizessem sentido. No início, a ideia da Associação até era angariar verbas para que não tivesse possibilidade de fazer reabilitação, poder fazê-la e de uma forma mais regular.

À medida que o tempo foi andando e que eu fui ao encontro desta realidade, vi que havia tantas coisas para fazer e foi assim que me tornei mais conhecido da sociedade.

O nome Salvador tornou-se incontornável na sociedade portuguesa por tudo o que tem feito na Associação à qual dá nome. Era muito novo quando a associação começou, foi o momento certo?
Era uma coisa que eu queria muito e pela qual sempre lutei. Tive sempre o impulso e o apoio do meu pai e, sem sombra de dúvidas, que sem ele não tinha condições nem força para chegar onde as coisas estão hoje. Acho que na vida, tal como os acidentes, cada coisa tem de acontecer na hora certa.

Lembro-me que alguma das coisas que me criava algum descontentamento é que criei a Associação em 2003 e só em finais de 2007/08 é que consegui constituir uma equipa que conseguisse desenvolver projetos e iniciativas capazes de ajudar pessoas com deficiência.

O que é que faltava?
Faltavam apoios, pessoas necessárias para desenvolver o projeto e só quando percebi que tinha de me dedicar e fazer uma coisa profissional que, de facto, a Associação arrancou para mudar vidas.

Para quem se depara com uma situação deste tipo, qual o apoio dado pela Associação?
Nós temos vários tipos de apoios, desde manual de informações, apoios diretos a pessoas que não têm forma ou acesso a ter uma cadeira de rodas, um andarilho, um computador ou casa de banho adaptada. A Associação desenvolve ao longo do seu ano um conjunto de iniciativas que apoiando pessoas com deficiência motora.

"Quero fazer de Portugal um país acessível a todos”, disse. Passo a passo, tem visto as diferenças no nosso país?
Acho que sim, tenho visto essa mudança, mas confesso que nunca esperaria que essa mudança demorasse tanto tempo, porque uma das coisas que mais me entristece e uma das barreiras que tenho mais dificuldades em lidar é a das acessibilidades, com a falta das acessibilidades e com a falta de sensibilidade das pessoas para lidar com este problema. Eu quero acreditar que as pessoas são sensíveis a este tema, mas depois no dia a dia há poucas pessoas a tomarem as medidas certas para mudarem esta situação.

Nós temos uma lei das acessibilidades que dura há 20 ou 30 anos e não há quem a fiscalize. Felizmente, vai havendo mais sensibilização e pessoas sensíveis a esse tema, fruto de muita ajuda da comunicação social, mas a mudança ainda demora.

Apesar da sensibilidade de cada um, tem de ser o Governo a ter mais medidas e a fiscalizar mais?
Sem sombra de dúvidas. Tem de ser o Governo a fiscalizar, mas todos nós enquanto cidadãos e participantes de uma sociedade, não podemos estar à espera das leis e que o Governo anda com uma arma apontada. 'Se abrir um restaurante tem de ter as acessibilidades, porque depois vem o fiscal...'. Não, eu se quiser abrir um restaurante vou fazer bem feito e com acesso para todos. Mas varia muito da sensibilidade e de zona para zona. Mas acho que, a pouco e pouco, têm-se notado algumas mudanças.

A sociedade não está preparada para integrar totalmente pessoas com deficiência?
Não, está longe disso. Tenho visto uma evolução mas está longe de estar preparada. A sociedade está preparada para, em algumas zonas, as pessoas poderem fazer a sua vida, passear, mas para fazer a sua vida autonomamente é muito difícil.

Felizmente, Portugal é um país muito solidário e há sempre alguém que ajuda a que essas pessoas tenham uma vida ativa e normal, mas estamos longe de ser totalmente acessíveis.

A Associação Salvador tem ajudado centenas de pessoas na integração e melhoria da qualidade de vida. Como reage a cada conquista?
Reajo com muita satisfação porque, de facto, é um projeto que eu não fazia ideia que com a ajuda de uma grande equipa pudesse mudar tantas vidas e ajudar tanta gente. É com grande satisfação que nós ajudamos, mas como costumo dizer cada caso é um caso e muitas vezes são essas pessoas que nós ajudamos, que nos ajudam, a mim e à minha equipa...

É um sentimento mútuo?
É um sentimento mútuo. Nós na vida estamos cá para dar e receber e felizmente trabalhamos numa área em que isso acontece mais vezes. É um sentimento muito válido e de grande satisfação, porque nós ao ajudar também ganhamos muito. É uma área muito cativante e facilmente apaixonante porque, de facto, quando vemos as coisas a mudar e o sorriso na cara das pessoas preenche-nos a alma e permite-nos a nossa realização profissional e pessoal.

Ainda acredita que, um dia, a sua condição pode melhorar com a cura de que falava há pouco?
Sim, acho que pode acontecer, não estou é tão vidrado como estava no início porque pensava muito mais vezes nisso.

Sente-se feliz?
Sim, sou feliz.

Que sonhos é que ainda tem por realizar?
Ainda estão muitos sonhos por realizar. Mas sem sombra de dúvida que um dos meus maiores sonhos é sentir-me livre no meu próprio país, conseguir andar, conseguir viajar, fazer a minha vida sem depender tanto de outras pessoas e isso é uma coisa que ainda há muito para batalhar.

Fonte: Noticias ao Minuto


Comentários