Tecnologia 3D ao serviço da deficiência

O projeto “3D Print 4 Good”, da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Coimbra, disponibiliza uma ferramenta de impressão de ajudas técnicas, em três dimensões, que permitirá melhorar a qualidade de vida e autonomia de mais de 240 pessoas com deficiência intelectual.


A cor vermelha na parte inferior da cadeira de rodas elétrica de Alexandre Murta, de 48 anos, não deixa margem para dúvidas. É pelo Benfica que o seu coração vibra. Alexandre tem paralisia cerebral, vive em casa da irmã Armanda Rodrigues, na freguesia de São Paulo de Frades, concelho de Coimbra, e o seu quarto está repleto de emblemas e cachecóis, conta-nos a própria. Tem sido uma vida difícil, esta, enquanto cuidadora do irmão, com tudo o que isso acarreta. Depois de 18 anos a trabalhar numa pastelaria na cidade dos estudantes, o desemprego viria em 2002 e, com ele, a decisão de cuidar da mãe, falecida há um ano e meio, também doente, e de Alexandre. “Deixei tudo por eles. O meu irmão é como se fosse um filho”, desabafa.

O discurso é acelerado mas o sorriso aparece no final da conversa, denotando orgulho na decisão tomada. “Há anos que não sei o que é ir de férias. É uma vida difícil mas não há nada como tê-lo em casa. É o amor que me move”, conta. Mas também é a fé que lhe dá alento e força às pernas cansadas. As artroses e tendinites já dão de si, o sistema nervoso está comprometido, mas nada a afasta de tratar dos seus. “Assim vamos andando dia-a-dia e só peço a Deus que me permita continuar. Não sei o que seria do meu irmão sem mim.”

Alexandre passa os dias da semana no Centro de Atividades Ocupacionais de São Silvestre, uma unidade da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) de Coimbra. Ao final da tarde regressa para casa onde vive com a irmã, o cunhado e a sobrinha Eunice Filipa, de 33 anos. Eunice “é a luz dos seus olhos”, conta Armanda.

O irmão de Armanda é um dos beneficiários do projeto “3D Print 4Good – Tecnologia 3D ao serviço da deficiência”, que teve início em abril com o objetivo de criar produtos de apoio feitos à medida para melhorar a autonomia diária de quem precisa. “São ajudas técnicas prototipadas, desenhadas num software próprio de raiz e impressas num plástico resistente”, salienta Ana Branco Rocha, mentora e gestora do projeto, além de membro da empresa Sleeklab, parceira da iniciativa.

Apoios para diferentes necessidades
E que produtos são estes? Variam consoante as necessidades dos beneficiários e vão desde os objetos que melhoram a execução de atividades de vida diária, como a higiene, a alimentação ou a locomoção, e estendem-se a áreas de lazer como o desenho ou a escrita. Falamos de engrossadores e adaptadores de talher, lápis e escovas de dentes, mas também encaixes de agulhas, réguas para carpintaria ou adaptações de calha para boccia, entre outros.

Alexandre já tem à disposição ajudas ao nível alimentar. “Como ele não movimenta a mão esquerda, tem dificuldade em comer sozinho. Com esta ajuda, já faz as refeições pela própria mão, o que é muito bom”, salienta Armanda.

A iniciativa valeu à APPACDM uma menção honrosa no Prémio BPI Capacitar, organização conjunta do BPI e da Fundação “la Caixa”, no final do ano passado. A verba, de quase 48 mil euros, foi utilizada “na compra de uma máquina de impressão 3 D e na contratação de um técnico que acompanha a elaboração dos protótipos das peças e ajuda na criação de uma plataforma em que são colocadas à disposição das instituições que as solicitem”, explica a presidente Helena Albuquerque.

A ideia já está a fazer a diferença na vida das pessoas apoiadas pela associação, mas também na dos seus familiares e cuidadores que não encontravam estas respostas no mercado habitual. “A técnica de impressão e modulação 3D traz a vantagem de podermos criar produtos de apoio personalizados, ou seja, perfeitamente adequados não só às características / anatomia da pessoa com deficiência, mas também à função a que se destina”, salienta Ana Branco Rocha. “Acresce ainda que qualquer peça que possa ser conceptualizada pelo próprio utilizador, ou pelo cuidador, técnico ou familiar, e que tenha como função ajudá-lo na realização de determinada tarefa, pode ser prototipada e concretizada fisicamente.”

Desde o arranque da iniciativa foram registados mais de 30 pedidos de desenvolvimento de produtos de apoio, o que veio confirmar a “grande necessidade de produtos sentida por quem está no terreno, bem como o interesse e compromisso dos técnicos com o sucesso deste projeto”, sublinha.

No total, 242 utilizadores podem vir a beneficiar da ajuda, mas o objetivo é apoiar mais pessoas, sobretudo quando a associação disponibilizar o serviço à comunidade e a outras instituições. Todas as unidades da APPACDM já dispõem de peças impressas para serem testadas junto dos utilizadores e avaliar-se o seu potencial.

Fonte: Magazine

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