Faz-me um grande favor passar por aqui. Sou retirada do povo

Acentua cada palavra com o som “nh”. Não é fácil compreender o que diz José da Silva, a menos que se tenha o ouvido treinado, como o cabo Figueiredo, da GNR de Mangualde. De vez em quando, passa por aquela casa fria, de granito, a perguntar se José tem visto estranhos, a alertá-lo para alguma burla, a tentar perceber como está. 

Há pouco mais de um ano, a GNR lançou um programa especial de apoio a pessoas com deficiência. Neste momento, tem uma lista de 426 que vivem sozinhas e/ou isoladas e, por isso, estão mais vulneráveis a negligência, maus tratos, furtos, burlas e outros crimes. Os militares visitam-nas, aconselham-nas a tomar algumas medidas de segurança, entregam-lhes um número para o qual podem ligar em caso de dúvida ou aflição.

O Comando Territorial de Viseu está a aplicar-se. Há dois anos, fez folhetos do programa “escola segura” em braille e distribuiu-os pelos alunos referenciados. No ano passado, fez o mesmo com o dos “idosos em segurança”. Agora, quer adaptar a linguagem desse para que melhor seja compreendido por pessoas com problemas de saúde mental.

- Bom dia – saúdam o alferes Duarte e o cabo Figueiredo, mal se deparam com o homem, de 63 anos, em frente a casa.
- Bom dia – responde.
- Bem-disposto? - pergunta o alferes.
- Até ver.
- Já trabalhou muito hoje?
- Já podei algumas videiras.
- Ainda trabalha terras?
- Ainda.
- Trabalha muito?
- Devagar.

O cabo Figueiredo repete as primeiras respostas, como se fosse um intérprete. Decorridos uns minutos, já não precisa. O ouvido do alferes, novo no comando da equipa de programas especiais de Mangualde, habitua-se àquele modo de falar e ele próprio vai repetindo as respostas de José, para se certificar de que percebeu bem, que nada lhe escapou.

José não para, apesar de arrastar os pés. A casa tem dois pisos: em cima, habitação; em baixo, produtos e alfaias agrícolas. E ele quer mostrar provas da sua labuta: sacas de milho, garrafões de vinho, maçãs amontoadas. Oferece um punhado de castanhas, que guarda num balde de areia. “Quem diria que as castanhas se conservam assim?”, admira-se o cabo.

Não é uma oferta inusitada. A ordem é para estes militares actuarem de forma próxima, humana, inclusiva. Acontece de vez em quando quem está integrado no programa de idosos ou no de deficientes desfazer-se em gentilezas. Brindam os militares com uma bebida ou uma fatia de bolo ou umas peças de fruta. “Fazem questão”, diz o alferes. “Sentem-se muito sozinhos. Quando apanham alguém, têm todo o gosto em partilhar.”

Acontece-lhes depararem-se com situações críticas. Ainda há pouco, o cabo Figueiredo percebeu perda de peso num idoso e avisou a acção social da câmara. No serviço, fizeram uma recolha de bens para situações de emergência, mas não se iludem. “Um saco de arroz não resolve o problema, o que interessa é que a pessoa diariamente seja acompanhada por alguém que vai lá entregar as refeições, daí a importância do trabalho em rede”, comenta o alferes. Há uma instituição particular de solidariedade social que lá vai agora.

Nem sempre falta dinheiro. Por vezes, falta orientação. Saindo dali, a equipa passará por um irmão e uma irmã residentes numa quinta. Para chegar a casa de Laurinda e Joaquim Almeida é preciso seguir por um caminho de terra. E as pernas dela pouco se aguentam. Ele é que a transporta num carrinho de mão. Já tentaram levá-la num lar, mas ele foi lá buscá-la. É difícil desviar-lhes o pensamento. Trabalhar a terra, para eles, “é um distrai”, mas nem a cavar se esquecem do vizinho, que chamam de “malvado”. Para Joaquim, todos os males, mesmo os de saúde dele e da irmã, resultam de bruxaria.

A lista é dinâmica. Uma pessoa que vivia acompanhada num instante pode ficar sozinha e uma pessoa que vivia sozinha de um momento para o outro pode ganhar companhia. Neste programa, como no destinado a idosos, no decurso do trabalho os guardas vão somando e subtraindo nomes, como se percebe mesmo ali, naquela aldeia de Sátão.

A vizinha da frente está à espreita, de olhar torto, vassoura na mão. Não resiste a perguntar o que andam os militares a fazer em casa de José da Silva.

- Eu gosto de "isolar" a vida dele – afiança ela. Isolar, na boca dela, é proteger.

- A senhora pode vir cá e ver o que estamos a fazer – responde-lhe o cabo Figueiredo.
- Estão a ver o que ele tem. Umas batatas pequenitas!
- Estamos a conversar com ele.
- A gente fica desconfiada.
- Mas está desconfiada porquê?
- A gente hoje em dia vê tanta coisa na televisão.
- A senhora tem razão para desconfiar, mas nós estamos mais do que identificados.

Não era a primeira vez que via a GNR por ali. De todas as vezes se inquietara, mas era a primeira que saía da sombra, que metia conversa.

- Muita gente está sozinha.
- A senhora está sozinha também?
- Eu? Eu estou com a vassoura na mão.
- Não tem familiares?
- Tenho no estrangeiro. E ele ainda tem aqui uma irmã e um cunhado.
- Costumamos visitar algumas das suas vizinhas. Ninguém nos disse que estava sozinha.
- Tenho uma gata!

Parece tudo ligado no interior do país despovoado e envelhecido. Às vezes, pessoas idosas e pessoas com deficiência fundem-se. Com a idade, tende a aumentar a dificuldade que cada um experimenta a andar, subir degraus, levantar e transportar qualquer coisa, ver, mesmo com óculos, concentrar-se, dobrar-se, segurar algo, ouvir, mesmo com prótese auditiva, sentar-se ou levantar-se, compreender ou fazer-se compreender. Nas acções de sensibilização que a GNR vai fazendo, sobretudo nas escolas que lhe compete proteger, explica que com a idade todas as pessoas perdem habilidades e chama a atenção para pormenores da vida em comunidade, como o respeito por todos, a relevância das caixas de atendimento prioritárias e dos estacionamentos reservados.

“É um trabalho de prevenção”, resume o guarda principal Duarte, do destacamento de Viseu. “Tentamos aliviar o trabalho dos colegas mais tarde.” Na tarde desta sexta-feira, programou passar por casa de um deficiente, de 53 anos, que vive com a mãe, de 83. A mãe, Maria de Lurdes Fernandes, está frágil, debilitada. Preocupa-se com o que o futuro reserva ao filho, a que deu o nome de Eneias, como a personagem da literatura greco-romana.

- Por aqui tem andado alguém estranho? - pergunta ele.
- De dia, não sei. De dia, tenho estado no centro. Sabe que me pode passar algo e estou aqui sozinha. Ele não ouve. Ele não fala. Se me passa algo, que é que eu vou fazer? Se me passa algo sempre estou ao pé delas e coiso.
- Mas de noite está em casa. Alguma coisa já sabe. Pode ligar para nós. Já lhe tinha deixado o número de telefone. Vou pôr aqui neste calendário que lhe trouxe.
- Se me acontece alguma aqui, tenho de ir de arrastos ao quarto dele chamá-lo. Não vale a pena gritar, que ele não ouve. Se lhe toco, ele vai chamar alguém. De noite não vai que tem medo!
- Tem aqui o número do posto. Também tem aqui o número do serviço da emergência. É pequenino: 112. Às vezes, numa atrapalhação, para não estar a marcar tantos números, é melhor ligar 112, que quem estiver do outro lado ajuda.
- Está bem.
- De resto é o que temos falado. Cuidado com a portinha. Sempre fechada.
- Sim, tem estado.
- Espreite pela janela antes de abrir a porta.
- Tenho aí um cachorrito que dá conta de tudo.
- Como é que se chama?
- Chama-se Leão, mas é pequenino.
- Também já sabe que as notas de 20 euros mudaram, mas ninguém vem trocá-las.
- Já! Tudo trafulhice.
- As notas que tiver não passam de validade.
- Eu não deixo juntar nem novas, nem velhas. A reforma é pequena. Tem de chegar para luz, telefone, vestir e coisa. O dinheiro vai.

Falam sobre a viuvez, que já dura há 16 anos, sobre o outro filho, que está na Suíça, sobre a filha, que vive em Águeda, e sobre aquele filho, Eneias, tão parecido com o pai. E tão incapaz de lidar com as derrotas do Benfica. “Faz bem em vir”, diz Lurdes. “Faz-me um grande favor passar por aqui. Sou retirada do povo. Pode haver para aí algum maluco. Sinto-me muito mais segura por passarem aqui de vez em quando. Só que vejam, já dizem: pronto! Não vale a pena ir lá, porque aparecem de repente.”

Os burlões tendem a ser gente simpática, de voz meiga, convincente. Alguns fazem-se passar por funcionários da empresa da electricidade, do gás ou da água para entrar em casa. Outros vestem a pele de funcionários da segurança social. Podem, por exemplo, pedir dinheiro adiantada para ajudar a antecipar reformas. Também há os que se fazem passar por funcionários dos correios, com uma encomenda de uma familiar. E os que batem à porta a anunciar que a pessoa ganhou um prémio qualquer e para o receber tem de pagar uma certa quantia.

O militar sai satisfeito. “É bom ver que as pessoas gostam da nossa presença. É muito gratificante perceber isso. Este é um trabalho que não apresenta números. Ainda há pouco estive duas horas com uma senhora. O marido morreu, tem a filha fora. Chorou, riu-se. Quando vim embora, estava radiante. ‘Passe cá outra vez’. E eu disse: ‘passo, só não posso prometer quando’”.

Tal como faz com os idosos, a GNR convida os deficientes em situação de vulnerabilidade a aderirem ao programa "Residência Segura". Até agora, aderiram 113. Os militares recolheram os seus dados e inseriram-nos em mapas por região, convencida de que tal lhe permite direccionar melhor os meios e aumentar o sentimento de segurança.

“Isto é um projecto bastante embrionário, mas tem pernas para andar”, acredita o guarda principal Mourão, da GNR de Lamego. Está a sair, com o guarda principal Santos, para casa de Domingos, um homem que se desloca numa cadeira de rodas e arrasta as palavras, como se não as quisesse deixar. Encontram-no no largo da aldeia, sozinho. O centro de convívio está vazio e na rua é raro aparecer vivalma. “Aqui, nada, nada. Não há, não há, não há união. Muito pouco”, queixa-se. Conversam longamente com ele. E ele não os quer deixar partir.

Fonte: Público

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