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domingo, 22 de setembro de 2024

Estudo Proteção dos Direitos Fundamentais das Pessoas com Deficiência que Vivem em Instituições.

A pedido do Centro de Vida Independente (CVI) divulga-se o projeto “UNPACK_H8 - Pensar a violência e os crimes motivados pelo ódio contra pessoas com deficiência: processos estruturais e experiências pessoais em Portugal”, ao qual o CVI se associou, e pede que participem, caso preencham os critérios. É fundamental que consigamos informar a investigação científica para que esta possa desenvolver orientações robustas no sentido de combater esta prática. Informa-se ainda que existe uma equipa de apoio psicológico que poderá ser acionada, se houver necessidade após a conversa.
O Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES) e a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) desenvolvem atualmente um projeto sobre o direito das pessoas com deficiência que vivem em instituições à proteção contra a violência, o abuso e a tortura. Com o objetivo de recolher informações sobre a situação em Portugal, encontram-se a realizar entrevistas com pessoas com deficiência com idades iguais ou superiores a dezoito anos que residam ou tenham residido em instituições, por um período mínimo de três meses, e que tenham vivido ou presenciado situações de violência nessas instituições.

Caso tenha vivido ou testemunhado uma situação de violência numa instituição e esteja disponível para conversar com o CES numa entrevista anónima e confidencial pode, por favor, contactar por email fernando@ces.uc.pt ou através do número de telefone 239855570 solicitando para falar com Fernando Fontes. A equipa de investigação desloca-se a qualquer parte do país ou se preferir podem falar consigo por videoconferência.

Por falar em estudos aproveito para deixar o resultado do estudo “Acessibilidade na cultura 2023: experiências das pessoas com deficiência e Surdas” realizado pelo Obi. Media/ICNOVA, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a pedido da Access Lab. Concluiu que no último ano, num universo de 237 inquiridos, 50% participaram entre 2 e 5 eventos. 63% indicaram ter experienciado algum tipo de dificuldade. No global, as pessoas indicam como maior dificuldade (63%) a atribuição ou visibilidade dos seus lugares. Quando focados na última experiência, as dificuldades são reveladoras: 55% sobre instalações sanitárias adaptadas; 85% em programação acessível (como Língua Gestual Portuguesa e/ou Audiodescrição); 58% na bilheteira; e 85% em filas prioritárias.

O inquérito também pedia a classificação da última experiência. Esses resultados foram: 9% como excelente; 46% como boa; 30% como média; e 6% como má. Ou seja, as pessoas com deficiência participam em eventos culturais mesmo sem condições de acessibilidade, por isso é fundamental criar programação para todos sem exceção.

Minha crónica no Jornal Abarca

sábado, 5 de janeiro de 2019

Centro de Inclusão Social ou de segregação na Madeira?

O Centro de Inclusão Social da Madeira (CISM), que será inaugurado em Janeiro próximo no Funchal, é apresentado pelo executivo madeirense como uma infra-estrutura de “referência” para o país, mas a Associação Portuguesa de Deficientes (APD) preferia que os quase sete milhões de euros que vai custar fossem investidos em medidas de inclusão.
O edifício, com uma área a rondar os 10 mil metros quadrados, apresenta um leque alargado de valências, entre as quais um apartamento para treino de vida diária e uma área complementar para formação e treino de autonomia. “Responde às necessidades actuais da região e também perspectiva as necessidades futuras”, resumiu aos jornalistas a secretária regional da Inclusão e dos Assuntos Sociais, Rita Andrade, numa visita recente ao futuro centro, que está em fase de conclusão. Será, acrescentou, uma infra-estrutura de referência para Portugal, e mesmo dentro do espaço ibérico.

Rita Andrade sustenta o discurso no conjunto de serviços e de respostas que o CISM vai dar. Área terapêutica com ginásio de psicomotricidade e fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional e da fala, música, sala de snoezelen para estímulos sensoriais, cozinha, sala de trabalhos manuais, sala de têxteis, sala de cerâmica e pintura, horta pedagógica e um canil. O centro tem também um lar de internamento para 51 pessoas. É principalmente em relação ao lar que a APD é mais crítica.

“Julgamos que os milhões de euros investidos poderiam ter sido aplicados em assegurar uma educação inclusiva de qualidade, formação profissional inclusiva de qualidade e na acessibilidade”, diz ao PÚBLICO a presidente da APD, Ana Sezudo, argumentando que estas, sim, são medidas que visam a inclusão das pessoas com deficiência na comunidade e não o seu isolamento e segregação.

“Retrocesso civilizacional”

A APD fala mesmo em “retrocesso civilizacional” quando olha para o CISM, considerando que a “institucionalização de pessoas com deficiência”, mesmo em “equipamentos dotados de serviços bem apetrechados”, mais não é que a “segregação de seres humanos”

O governo madeirense rejeita esta leitura. O Instituto de Segurança Social da Madeira (ISSM) lembra ao PÚBLICO que a “estrutura de lar residencial sempre existiu quer a nível regional, quer a nível nacional”, e que os utentes que irão ocupar este espaço já se encontram em regime de internamento, noutras instalações com menos condições.

“Só são institucionalizados os utentes cujos pais não têm condições ou possibilidades de transportar diariamente os seus familiares. A decisão de institucionalizar cabe sempre aos familiares”, indica o ISSM, sublinhando que a única preocupação é “providenciar as melhores condições de vida possíveis” a pessoas com necessidades especiais, promovendo o acompanhamento das respectivas famílias.

Para o CISM, além do lar residencial, transitam serviços e valências dos vários centros de actividades ocupacionais (CAO) do Funchal. Os restantes, dispersos pela ilha, vão continuar a funcionar, mas também vão beneficiar das ofertas disponibilizadas na nova infra-estrutura.

A APD carrega nas críticas. O Estado português, lembra Ana Sezudo, ratificou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, reconhecendo a igualdade de direitos que todos têm de viver em comunidade. “[Portugal] comprometeu-se a tomar as medidas eficazes e apropriadas para a sua total inclusão e participação na comunidade”, diz, considerando que a “concentração e isolamento” de pessoas com deficiência numa instituição constitui uma “violação clara” destes compromissos.

“A Comissão sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência nas observações finais sobre a implementação da convenção recomendou ao Estado português que eliminasse os locais de trabalho segregados, incluindo a revisão da legislação que regula os CAO, o que não foi feito até à data”, alerta a responsável pela APD.

O CISM, ressalva o executivo madeirense, não é única resposta da Madeira às pessoas com necessidades especiais. Existe, garante o gabinete de Rita Andrade, um conjunto de programas que promovem a inclusão, tanto ao nível do ensino como do emprego, que vão desde a majoração de subsídios a bolsas de formação e incentivos à contratação.

Fonte: Público

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Ser ajudante num lar de idosos e o desrespeito da Segurança Social

Desta vez questiono o porquê da Segurança Social exigir o impossível das Ajudantes de Lares e lares, na minha crónica no Jornal Abarca.
Das 8h às 11h00 o tempo foi gasto em: levantar da cama, colocar na cadeira sanitária, realizar treino intestinal e banho, transferir para a cama, desinfetar e proteger o orifício de entrada do cistocateter, hidratar o corpo, vestir a roupa, servir o pequeno almoço e medicação, transferir mais uma vez, (desta vez para a cadeira de rodas do dia-a-dia), vestir o resto da roupa, calçar...ufa! É notório o cansaço no rosto da auxiliar que me realizou todas estas tarefas. 

Fica espantada ao pedir-lhe que me vista um casaco polar. Atira: “credo”! Não me diga que está com frio! Eu estou cheia de calor. No tempo que esteve comigo, sempre que os meus afazeres lhe davam uma folga, lá ia ela atender uma campainha que tocava, apoiar uma colega numa transferência de outro utente, mudar uma fralda, colocar outro na sanita, adiantar outro serviço…

Como não estar cansada? Dou muito trabalho porque sou totalmente dependente. Pouco ou nada consigo colaborar. O simples vestir-me umas calças torna-se uma tarefa muito cansativa. Além disso, a auxiliar que me está a apoiar entrou ao serviço às 7h00 da manhã e já realizou outros banhos, e depois de mim ainda “fará outros utentes” do lar, (expressão como definem a tarefa). Costumam dizer, muitas vezes com manifesta satisfação: - “já fiz X utentes, só me falta X”.

Esta rotina é diária. Se estiver a trabalhar no turno da tarde, felizmente comigo o trabalho diminui. Mais trabalhoso será o deitar-me. Transferir-me para a cama, despir-me, posicionar-me, e se nada de imprevisto acontecer, só voltará para me mudar de posição na cama, 3 horas depois, mas com a maioria dos restantes utentes continuará a ter o mesmo trabalho.

A vida de quem trabalha numa ERPI - Estrutura Residencial para Pessoas Idosos não é tarefa fácil. Além da força física, é necessário também muita força anímica, paciência, resiliência e muita capacidade de amar. Um lar de idosos hoje em dia é um espaço de retaguarda ao serviço dos hospitais. Se não há cama vaga na unidade hospitalar, transfere-se o paciente para as estruturas residenciais. Atrevo-me a afirmar que a maioria das convalescenças são realizadas pelos lares, transformando-os numa espécie de hospitais de segunda linha.

Quantas vezes o paciente é levado ao hospital, e passadas umas horas é “devolvido à proveniência” para no dia seguinte ter que voltar, e ficar em internamento, numa espécie de vai vem, como se de mercadoria se tratasse?
Por cada ERPI construída com o apoio dos fundos europeus, o Estado fica automaticamente com direito a 20% das suas vagas abrangidas pelos acordos que comparticipa, quando comparticipa, e dá-lhe o uso que entender. Na maioria das vezes os utentes que envia chegam com patologias graves e num estado clínico muito complicado, e a necessitar de cuidados de saúde permanentes e personalizados. Além disso é necessário material para tratamento de escaras, algaliação, sondas gástricas para alimentação, antiescaras, hidratantes, bons produtos de apoio, produtos de higiene, roupa, produtos pessoais, transporte adequado para realização de exames diagnóstico, análises e consultas, etc., na maioria dos casos a resolução fica à responsabilidade dos lares. A Segurança Social descarta-se também de mais esse “problema”.

Esquizofrenias, depressões e outras perturbações psiquiátricas, infectocontagiosas, demências, como alzheimer, parkinson e outras, sequelas de AVC, lesão medular, neurodegenerativas, escareados, ataxias, alcoolismo, e mais um sem número de patologias e situações, são o universo de pessoas recebidas por estes espaços e muitas delas enviadas pela Segurança Social.

Quanto a mim esta responsabilização e imposição por parte da Segurança Social e Ministério da Saúde colocada a estes espaços é uma cobardia. Vejo muito pouca gente a denunciar este facto e a opor-se a esta anormalidade e desrespeito por estes doentes/utentes, seus familiares e espaço que os recebe.
É muito grave, e embora não seja jurista arriscaria acrescentar que se trata de um ato inconstitucional esta prática por parte da tutela. Estes espaços não são unidades de convalescença e nem foram criados para esse fim. Segundo a Segurança Social estes espaços são destinados a alojamento coletivo, de utilização temporária ou permanente, para idosos, com a finalidade principal de contribuir para a estimulação de um processo de envelhecimento ativo e potenciar a sua integração social.

Mas não é isso que acontece. Estes espaços foram transformados em serviço de cuidados continuados integrados e unidades hospitalares de segunda, ou até em muitos casos, de primeira linha. Pelo menos realizam praticamente as mesmas funções. De acordo ainda com a Segurança Social, têm direito à prestação de cuidados continuados integrados todas as pessoas, independentemente da idade, nas seguintes situações:

● Dependência funcional transitória decorrente de processo convalescença ou outro (por estar a recuperar de uma doença, cirurgia, etc.);
● Dependência funcional prolongada;
● Idosos com critérios de fragilidade (dependência e doença);
● Incapacidade grave, com forte impacto psicossocial;
● Doença severa, em fase avançada ou terminal;
● Alimentação entérica;
● Tratamento de úlceras de pressão e ou feridas;
● Manutenção e tratamento de estomas;
● Terapêutica parentérica;
● Medidas de suporte respiratório, designadamente a oxigenoterapia ou a ventilação assistida;
● Ajuste terapêutico e/ou de administração de terapêutica, com supervisão continuada.

Como se pode verificar acima, estes utentes deveriam ser recebidos por estes serviços e não nas ERPI.

E porque razão são encaminhados para o lar de idosos e não para espaços adequados às suas necessidades? Em primeiro lugar porque fica muito mais barato ao Estado. Por cada utente em lar, a Segurança Social contribui mensalmente com 383,16€ Na rede de cuidados continuados um internamento diário ronda os 110,00€, fora as comparticipações familiares. E a uma unidade hospitalar? Sei que no Centro de Reabilitação de Alcoitão em 2009 uma diária rondava os 400,00€

Estas pessoas deveriam ser colocadas em espaços adequados e ter direito aos melhores, e mais adequados cuidados de saúde que cada caso clínico exige. Serviço de cuidados continuados, paliativos, residências autónomas, centros de reabilitação, etc. apoiados por recursos humanos adequados às suas necessidades e deixar as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas cumprir as suas funções. Deste modo é impossível estes espaços funcionarem em pleno. Pelo contrário, ao obrigarem os lares a realizar as funções para as quais não foram criados e nem se encontram preparados estão a prejudicar os utentes com alguma autonomia e outros objetivos de vida. Conviver diariamente com pessoas em elevado grau de demência ou doença, faz com que a sua saúde se degrade.

Estes espaços na maioria das vezes e como descreve a Segurança Social, deveriam servir para reabilitar e manter o idoso ativo. Como poderá isso acontecer lidando esse idoso com tantos outros utentes com sofrimento físico e/ou psicológico acentuado? Além disso não existe uma equipa multidisciplinar para acompanhar cada pessoa com os seus problemas inerentes. Mas como se sabe, nem nas unidades hospitalares, ou outros espaços preparados supostamente para receber estes doentes têm condições estruturais e humanas para esse efeito. A grande questão é que os lares não estão equipados para atender às necessidades de pessoas com tantos problemas, mas a falta de outras respostas institucionais deixa-os sem opção.

Perante tudo isto como não estar cansada a auxiliar ou a ajudante de lar, o nosso principal cuidador? São exigências profissionais complexas em demasia para as suas capacidades e para o parco valor que recebe como compensação mensal.

Já que o Estado obriga as ERPI’s a realizar o trabalho para o qual não foram criadas, deve assumir também a responsabilidade de lhes criar condições físicas, humanas e financeiras para realizarem um trabalho que vá de encontro às necessidades dos seus utentes, e lhes permita recompensar os seus colaboradores de acordo com as tarefas realizadas e de uma forma justa. Não é com os 383,16 € actuais que disponibiliza por utente que se poderão fazer milagres.

O Estado somos todos, mas as responsabilidades da resolução dos nossos problemas, neste concreto, no que respeita à saúde, cuidados básicos, envelhecimento com qualidade, num estado de direito como o nosso é designado, está delegada no Governo a quem “quase todos nós” pagamos para fazer bem, o qual resulta do veredicto resultante das eleições periódicas.

Da minha parte, enquanto utente, um grande obrigado a todas as cuidadoras e cuidadores formais e informais, principalmente ás do Centro de Apoio Social da Carregueira onde me encontro.

Dos governantes espero e exijo muito mais. Exijo que estejam à altura de honrar os compromissos inerentes aos cargos que aceitaram. É para isso que lhes pagamos!

terça-feira, 24 de abril de 2018

Valores pagos pelo Estado aos lares para nos manter aprisionados. Assinatura de acordo com Setor Social e Solidário

Os ministros do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, da Saúde e da Educação assinaram no dia 13 de abril, em reunião plenária da Comissão Permanente do Setor Social e Solidário, um acordo com a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, a União das Misericórdias Portuguesas, a União das Mutualidades Portuguesas e a Confederação Cooperativa Portuguesa, CCRL, estabelecendo assim os princípios e os termos da Adenda ao Compromisso de Cooperação para o Setor Solidário, Protocolo para o biénio 2017-2018.


A comparticipação financeira da Segurança Social relativa ao funcionamento dos equipamentos e serviços sociais com acordo de cooperação para o ano de 2018 aumenta em 2,2% face ao observado em 2017, destinando-se à atualização de todos os acordos de cooperação relativos às respostas sociais, e visa compensar o acréscimo de despesas com o seu funcionamento, contribuindo para a sustentabilidade económica e financeira das instituições, essencial para a prossecução do desenvolvimento das respostas sociais.

Consulte a Adenda ao Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário 2017-2018 
Fonte: ISS

NÓS: retenho os valores pagos mensalmente pelo nosso aprisionamento em lares:
- Lar residencial: 1.027,03€
- Lar de apoio: 736,81€
- Ama/Creche: 397,03€
- Centro de Atividades Ocupacionais (8 horas diárias): 509,51€

Facilmente se verifica que o Estado gasta muito mais dinheiro mantendo-nos aprisionados sem a nossa vontade. Não nos atribui valores suficientes para nos podermos manter nas nossas residências, juntos dos nossos familiares e amigos porque não quer. Prefere excluir-nos da sociedade. Ninguém consegue compreender esta politica: 

- Para nos mantermos em casa, o Estado faz o grande favor de nos atribuir mensalmente valores entre 93,15 e 103,51€, e somente a quem usufrua mensalmente valores inferior a 600,00€ mas como podemos verificar acima, para nos obrigar a frequentar um lar despende mensalmente a esse lar: 1.027,03€ 

Como compreender tal injustiça e aceitá-la? Aqui não entra somente burrice, e má gestão dos nossos impostos, mas sim também malvadez, discriminação, desrespeito e muuuito medo de enfrentar os lobbys e interesses instalados.

Se depender de mim, continuarão a "levar" comigo. Eles que me aguardem. 



domingo, 14 de maio de 2017

Obrigado Centro de Apoio Social da Carregueira (meu lar)

Ao anunciar a realização da nova ação de protesto, tenho-me perguntado com frequência se não estou a parecer injusto para o Centro de Apoio Social da Carregueira, lar que me acolheu com tanto carinho. Estou com receio que as minhas constantes ações pela desinstitucionalização não sejam compreendidas por alguns. Daí esta necessidade de explicar o seguinte:

Eu não estou a realizar mais uma ação porque estou desesperado para sair deste lar. Nada disso. Sinto-me aqui muito bem. Esta luta já é antiga. Esta ação é somente a continuidade. É do conhecimento de muitos, que conheci esta instituição durante um desses protestos pelo direito a uma Vida Independente. Foi durante a viagem de protesto que realizei em 2014 de 180km em cadeira de rodas. Na altura fui surpreendido pelo apoio que os utentes me manifestaram em frente ao seu edifício, mesmo junto à EN 118. Nesse momento ficaram no meu coração. Fiquei muito sensibilizado com o seu carinho e apoio incondicional. Quem diria que um dia mais tarde também viria a fazer parte desta família...

Como estar contra uma instituição que me tem dado tanto! Tirou-me de casa onde não tinha apoio permanente como me proporcionam aqui, ofereceram-me a possibilidade de trabalhar na área que tanto gosto, Ação Social, mostraram-me que nem todas as instituições se preocupam somente com o dinheiro…

Nem imaginam a diferença entre dormir na minha casa sem apoio durante as noites, e grande parte dos dias, e saber que aqui estou protegido. É tão reconfortante pousar a cabeça no colchão quando me viram para dormir, e saber que caso precise tenho alguém ao toque de uma campainha. Na minha casa as noites eram longas, angustiantes e assustadoras. Sabia que estava sozinho e por minha conta, acontecesse o que acontecesse. Ao mínimo barulho acordava sobressaltado. Nos longos serões no inverno, após deixado na cama nem me atrevia a ligar a TV ou som do PC. Só o silêncio me tranquilizava. Achava que se houvesse barulho não conseguiria ter controle sobre o que se passava à minha volta.

E as suas colaboradoras e colaboradores...é verdade que gosto mais de uns e de umas que de outros, mas na generalidade encontrei gente surpreendente. Gente que na sua maioria faz o que faz por amor. Aguentam gritos de revolta, palavras duras e até ofensivas, alguma indiferença e falta de compreensão por parte de alguns de nós, utentes, mas mantêm a sua postura sorridente e alheios a palavras e atos menos próprios. Relevam e fazem o seu serviço com o mesmo carinho de sempre. Eu de certeza que não faria melhor que muitas delas.

A direção é composta por pessoas comprometidas com a solidariedade e preocupadas constantemente em proporcionar-nos o melhor. O nosso presidente Duarte Arsénio, encontra-se ao serviço da Instituição 8 horas ou mais diárias, e há vários anos, sem receber nada em troca. Admiro muito a sua capacidade de não abdicar dos seus princípios e de continuar a acreditar que a mudança para uma sociedade mais justa é possível. A nossa vice presidente Maria Eduarda Caetano é outro membro que se dedica a tempo inteiro voluntariamente à instituição.

Estou no lugar certo nas circunstâncias atuais. Melhor não encontraria de certeza. Foi uma sorte terem surgido na minha vida. Sou é contra a obrigatoriedade da institucionalização obrigatória. Cada um deve ter o direito de escolher onde, como, e com quem quer viver e não ter como única alternativa um lar.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

APPACDM: Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Lisboa

É uma Associação com mais de meio século - completa 55 anos a 2 de Fevereiro. Há 55 anos que a Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Lisboa (APPACDM Lisboa) procura compensar as falhas do Estado com respostas inovadoras, muitas delas pioneiras, como o foi a primeira creche inclusiva do país, constituída em 1978 por iniciativa de uma médica e da mãe de uma criança com trissomia 21

Com cerca de 250 colaboradores, a associação apoia hoje mais de 700 crianças, jovens e adultos nas suas várias valências: duas creches (a Tartaruga e a Lebre), seis Centros de Actividade Ocupacional (CAO) e lares residenciais para pessoas com deficiência intelectual e incapacidade, em Lisboa, Cascais e Almada. Tem também equipas técnicas destacadas em escolas de 14 agrupamentos, onde assegura terapia da fala e psicologia, por exemplo, a centenas de alunos.

Para os maiores de 18 anos dá formação profissional, e já conseguiu que alguns fossem integrados no mercado de trabalho. Entre os projectos inovadores que tem desenvolvido, está uma rádio, criada no CAO da Ajuda, e que, em breve, poderá alargar-se a outros centros.

Em entrevista à Renascença, o presidente da APPACDM Lisboa, Mário Matos, fala da importância desta instituição.

Como surgiu, há 55 anos, a Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental?
A APPACDM teve origem numa iniciativa de cidadania de duas pessoas. Uma, Sheila Stilwell, mãe de uma criança, outra, a pedopsiquiatra Alice Melo Tavares, que, encontrando-se perante situações de necessidade de resposta a uma criança deficiente (trissomia 21), começaram este projecto. Ganhou a dimensão que tem porque, tendo nascido há 55 anos em Lisboa, deu origem a mais de 30 congéneres em quase todos os distritos do país.

Há 55 anos, esta era uma área absolutamente desprotegida...
Absolutamente. Posso dizer que, no âmbito da deficiência intelectual, esta associação terá sido a primeira e creio que é ainda a de maior dimensão no país. Estamos em Lisboa, onde temos a maior parte das nossas estruturas, mas também em dois outros concelhos: Almada e Cascais.

Promover a inclusão das pessoas com deficiência - crianças, jovens e adultos - tem sido uma preocupação constante da associação. Como é que promovem essa inclusão? Que respostas sociais proporcionam?
Começámos por criar, em 1978, e nessa matéria também fomos pioneiros em Portugal, uma creche inclusiva, em que 30% das crianças eram portadoras de deficiência. Durante muitos anos, até há uns quatro ou cinco anos, foi essa a resposta que demos. Actualmente, por via da abertura da própria sociedade e de políticas públicas, essas crianças com deficiência já são genericamente integradas em todas as creches.

Nós, naturalmente, mantemos uma vocação específica, até porque temos técnicos e competências nessa matéria, e continuamos a aceitar casos de maior complexidade de deficiência, embora não como anteriormente, porque os custos são significativos e houve uma redução dos apoios a esta instituição. Mas, as nossas respostas cobrem o ciclo de vida das pessoas, desde a creche até às residências.

No início, começaram por dar mais atenção às crianças?
Começámos por dar mais atenção às crianças. Houve um período da vida da instituição em que a área correspondente ao percurso da educação formal também estava coberto. De há uns anos a esta parte, as escolas passaram a ter que dar resposta a essas situações e, então, foram criados Centros de Recurso para a Inclusão, onde dispomos de equipas técnicas que, em vez de trabalharem na instituição, estão a trabalhar junto das escolas. Acompanhamos e prestamos serviços técnicos a 14 agrupamentos de escolas, abrangendo cerca de 300 alunos, com terapia da fala, ocupacional, psicologia, etc. Esses apoios são prestados por nós. Dentro da idade escolar, dos 6 aos 18, acompanhamos essa população nas escolas, colaborando na elaboração dos planos de desenvolvimento individual e depois na parte final nos planos de transição para a vida activa.

É aí, muitas vezes, que surgem mais problemas, não é? Porque as famílias deparam-se com falta de respostas quando têm os filhos com 18 anos e não sabem onde pô-los nem como ajudá-los...
Nós temos uma resposta social de Centro de Actividades Ocupacionais (CAO). Esses centros têm um conjunto de actividades e acompanhamento técnico também em terapia ocupacional, psicologia e actividades simplesmente ocupacionais. Conforme os perfis desses jovens, a incidência é mais nas terapias ou é mais nas actividades ocupacionais, podendo, nalguns casos, desenvolver aquilo que nós designamos por "actividades ocupacionais socialmente úteis", inclusivamente a integração em alguns postos de trabalho.

Há muitos casos desses?
Temos alguns, uns 10-12. Gostaríamos de ter mais, mas a integração no mercado de trabalho não é fácil. A sociedade está como está, o emprego está como está, e temos essas limitações. Mas é um desafio que procuramos vencer permanentemente: encontrar respostas para aqueles que poderiam ser mais úteis à sociedade e têm competências para isso. Muitas vezes, não são integrados porque ainda existem preconceitos que é necessário ultrapassar e nós fazemos o possível para ajudar a sociedade a ultrapassá-los.

A imaginação faz parte da vossa actividade e estão sempre a tentar inovar. Foi por isso que criaram uma rádio num dos centros? além de outras actividades...
Procuramos criar actividades que potenciem as competências que eles detêm, desenvolvendo-as e permitindo, também, ma componente lúdica, porque eles passam a maior parte do dia connosco e têm que ter prazer também naquilo que fazem. Temos actividades desde pintura, dança e teatro e, mais recentemente, uma rádio, que surgiu no âmbito de um dos nossos centros, o CAO da Ajuda, por grande criatividade e disponibilidade da directora técnica, Filomena Abraços.

O projecto tem vindo a crescer de tal forma que, recentemente, apresentámos um projecto ao BPI Capacitar, que foi aprovado e que nos vai permitir dar uma maior dimensão e integrar essa actividade com outros pólos. É uma actividade que dá bastante prazer aos jovens, potencia e desenvolve capacidades. A capacidade de se exprimirem é estimulada, e o à vontade e a alegria com que o fazem também é estimulante para quem vê os resultados e para quem trabalha com eles.

Também têm lares residenciais para estes utentes?
Sim, é uma das respostas que foram criadas. Têm que ter mais de 18 anos para poder estar num lar. E estão por várias razões, que têm a ver com dificuldades da família, com a ausência de família, com opções da família. Temos quatro residências para um total de 90 utentes. Duas são em Lisboa - uma em Pedralvas, para deficientes mais profundos, outra para pessoas já com um grau de autonomia razoável, num prédio na Penha de França. As outras duas são em Almada e a outra na Alapraia, em Cascais.

A vossa instituição ajuda quantos utentes e quantas famílias?
Temos cerca de 800 associados e o número de utentes varia consoante estas respostas. No âmbito das residências, são cerca de 90. Nos Centros de Apoio Ocupacional, 250. Nas creches, 63. Nos Centros de Recursos para a Inclusão e Apoio às Escolas, cerca de 300. Alguns deles beneficiam de vários tipos de resposta conjuntamente, porque os que estão em residência também beneficiam de resposta de CAO. Temos também uma resposta de formação profissional, com cerca de 40 formandos em áreas como lavandaria, cozinha, limpezas industriais, jardinagem, que funciona na nossa estrutura em Almada. Com este município temos uma relação próxima de prestação de serviços, porque o transporte adaptado em Almada somos nós que o fazemos.

Como presidente desta associação o que é que o preocupa mais?
Manter a segurança da instituição em termos do equilíbrio dos recursos de que dispõe, para satisfazer as necessidades que deve satisfazer. Mas também nos preocupa a abertura a soluções inovadoras, como essa da rádio, e que as nossas equipas técnicas consigam ter disponibilidade e estímulo para pensar em novas formas de abordar as questões com que diariamente se deparam.

Contam com quantos colaboradores?
São cerca de 250 que, como se compreende, são o principal capital da instituição.

Entre as preocupações que enumerou, está a questão dos custos que tudo isto implica. É por isso que do programa comemorativo para este ano faz parte uma gala de angariação de fundos? É necessário recorrer a estes meios?
Naturalmente que sim.

O Estado não apoia a vossa actividade o suficiente?
Esta actividade e das congéneres tem uma fonte de financiamento básica que se traduz em acordos de cooperação com o Estado. Depois, temos os apoios das famílias, a comparticipação familiar é calculada em função do rendimento de cada uma das famílias. Portanto, as nossas fontes de financiamento são, de facto, o Estado, na ordem dos 75 por cento, e as famílias com 20 por cento. Os outros cinco por cento são de iniciativas diversas, como a gala, que vai ter lugar em Junho, em Lisboa. Estamos a procurar um local, que talvez a câmara de Lisboa nos possa disponibilizar, a própria Aula Magna. Depende também da natureza dessa iniciativa, que envolverá, seguramente, alguns momentos com os nossos utentes, que fazem teatro, fazem dança. É também uma oportunidade deles evidenciarem as suas capacidades e as suas competências, e uma oportunidade também para darmos a conhecer a instituição.

O programa comemorativo arranca já esta semana...
Na quinta-feira, 2 de Fevereiro, teremos uma missa na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, às 10h30, com a participação de um coro dos nossos utentes. No dia 4, haverá um almoço com os nossos colaboradores, em que iremos distinguir aqueles que completaram 25 anos na instituição. É um momento de reconhecimento, porque não é possível permanecerem 25 anos na instituição sem se identificarem com os seus valores. Em Junho, haverá a gala e, no final do an,o faremos uma festa de Natal, em que, pela primeira vez, tentaremos juntar as nossas várias estruturas numa festa com maior dimensão, porque a data também o justifica.

Fonte e reportagem em áudio: Renascença

sábado, 15 de outubro de 2016

Deficientes das Forças Armadas exigem definição sobre tutela do lar

Ouvida hoje, dia 10/10 na comissão parlamentar de Defesa Nacional, a direção da ADFA afirmou que existe "um bloqueio" que está, alega, a impedir a criação de melhores condições de acompanhamento dos deficientes militares internados no Lar Militar da Cruz Vermelha, Lisboa.



Segundo Manuel Lopes Dias, vice-presidente da ADFA, que integra o grupo de trabalho criado pelo Governo em 2015 para a aplicação do Plano de Apoio aos Deficientes Militares, a Cruz Vermelha sustenta que o ministério da Defesa "só tem a tutela inspetiva".

"Não aceitamos que o Lar não seja da Defesa Nacional e deve ser tutelado pela Defesa Nacional. E faz falta definir isso", reforçou por seu lado o presidente da ADFA, Manuel Arruda, acrescentando "rejeitar que o governo só tenha o direito de tutela inspetiva".

Esta questão, acrescentou, "tem bloqueado" o avanço da concretização do Plano de Apoio no que respeita à melhoria das condições de acompanhamento dos deficientes internados naquela instituição.

"Aquilo não tem condições. Os deficientes estão ali armazenados à espera que chegue a morte, estão acamados, deitados, não há uma equipa multidisciplinar que lhes dê uma dinâmica de vida", apontou Manuel Lopes Dias, frisando que a vida não pode ser "só comer, dormir e tomar medicamentos".

O Lar Militar foi inaugurado em 1971 para os militares com deficiência motora grave em consequência da prestação do serviço militar, e tem capacidade para 40 camas, acolhendo atualmente 16 deficientes militares.

Fonte: Noticias ao Minuto

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Rede de serviços e equipamentos sociais

Dar a conhecer a diversidade e abrangência da Rede de Serviços e Equipamentos Sociais é um dos objetivos da Carta Social.
Enquanto serviço público de informação ao cidadão, a página da Internet da Carta Social tem vindo a incorporar novas funcionalidades que visam melhorar a sua utilidade na pesquisa por serviços e equipamentos sociais, procurando aproximar os Cidadãos e as Instituições em função das suas necessidades e respostas, respetivamente.

Assim, a partir da página www.cartasocial.pt, é já possível, por exemplo:

- Pesquisar um equipamento localizando-o num mapa interativo até ao nível de freguesia;
- Identificar por listagem as respostas sociais existentes por área geográfica, até ao nível de freguesia;
- Saber se uma Instituição tem um Sistema de Gestão de Qualidade que lhe confira a Certificação de Qualidade ISO 9001, EQUASS ou Marca de Qualidade ISS, IP;
- Identificar a localização aproximada do equipamento em mapa, visão satélite e híbrida;
- Conhecer algumas das outras atividades que as Instituições desenvolvem para além das respostas principais;
- Ver algumas imagens das Instituições que disponibilizaram esses elementos.

A atualidade e rigor da informação produzida decorrem naturalmente da disponibilidade e iniciativa das Instituições em manter o seu registo atualizado, pelo que se agradece a colaboração de todos para que seja mais fácil dar a conhecer aos Cidadãos as respostas sociais que existem em funcionamento em cada momento, de forma a rentabilizarem-se os serviços e ao mesmo tempo contribuirmos para a satisfação das necessidades dos utentes e suas famílias.

Fonte e mais informações: Carta Social

quarta-feira, 29 de junho de 2016

De volta a casa

Quanto mais me afastava do Centro (lar), mais o coração apertava. Sentia uma angústia e um desconforto muito grande. Era como se estivesse a sair da minha zona de conforto, de um lugar onde estava protegido. Sentimentos que me acompanharam até a casa.

Encosto a cadeira de rodas á mesa, avisto pela janela o esplendor da natureza, e finalmente sinto que estou em casa e a angústia diminui. Vejo o familiar bando de corvos a deixar-se levar pelo vento…o cartaxinho pousado na cerca em frente, o picanço bebé no candeeiro... Melhor receção impossível. Velhos conhecidos a desejarem-me boas vindas. Durante momentos senti-me de volta a casa, no meu espaço.

1ª noite, após o apagar das luzes e ser deixado só, os sons da noite e a escuridão obrigaram-me a ficar acordado durante algum tempo, mas depressa chamei pelo sono e o obriguei a levar-me dali para fora. Com a manhã vem o alívio. 1ª noite passada sem grandes problemas o que aconteceu até à última noite. Difícil acreditar que tudo funcionou na perfeição.

O receio de ter de precisar de ajuda durante a noite e não a ter, era o meu maior medo. A logística também. Maioria dos equipamentos de apoio ficaram no lar. A própria casa já não se encontra operacional. Mas tudo se resolveu com a preciosa ajuda da Euridice e Rafaela, minhas cuidadoras de todas as horas. Até a bexiga, intestinos e outras miudezas resolveram se associar á festa e deixaram-me em paz.

“Vi-o nas fotografias e nota-se que está feliz”. “Teus colegas têm mesmo cara de boas pessoas”. Ouvi estas frases algumas vezes. Ainda bem que transparece cá para fora o quanto estou feliz por estar no Centro de Apoio Social da Carregueira (CASC), e o quanto sou acarinhado por toda a família que o compõe. É a pura realidade. Não tenho palavras para descrever o quanto me fazem bem.
Ali encontrei o que pensei não ter direito: respeito, amor, solidariedade, honestidade, profissionalismo, verdade...mas principalmente paz, respeito pelo meu trabalho e confiança. E não é de agora. Logo que iniciei funções, e ainda estagiário, a direção fez questão de me incluir nas reuniões de direção, da equipa técnica, do CLAS-Conselho Local de Ação Social (estruturas concelhias de funcionamento do Programa da Rede Social), tendo inclusive solicitado á Chamusca, alteração do local dos encontros para um espaço acessível, o que aconteceu de imediato. No CASC sinto-me por inteiro, valorizado e olhado como sou. Um técnico de serviço social, que por acaso é tetraplégico. Nada mais.

O lar

O lar é o lar. Um espaço frio, impessoal, de sofrimento até, lugar onde maioria chega para ser a sua última residência...mas também um lugar de amor, solidariedade, ternura, acolhedor, familiar, lugar de alegria de esperança e de escolha de muitos. Para mim continua a não ser o local adequado, mas o melhor de momento. Em casa voltou a nostalgia e a possibilidade de poder com outra clareza/isenção comparar e realizar o balanço deste ano passado no lar. Faz no próximo mês um ano que fui institucionalizado.


E concluo que neste momento a segurança e a paz que encontro neste espaço é o mais importante para mim. Senti-o quando estava a sair. Foi uma sensação de perda e medo. Sair para a incerteza e instabilidade. Para quem não conhece a ERPI-Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, minha atual casa, pode pensar que se trata de mais um local fechado e minúsculo com camas amontoadas, onde só existe sofrimento, maus tratos, cheiros nauseabundos e tudo o resto, mas não é o caso, espaço é amplo, quartos são na sua maioria individuais com WC privativo, existe uma equipa técnica multidisciplinar e embora não seja o local perfeito, é um local onde a dignidade humana é o foco principal.

Quem manda...

Maioria dos relatos que recebo de quem se encontra nestes lares, são assustadoras e nada dignificantes da qualidade humana. Confesso que cheguei a pensar que todos os lares seriam mais ou menos assim. Mas estava errado, embora tenha como lema não julgar antes de conhecer a realidade, e evitar generalizar, era difícil não pensar desse modo perante situações que vivenciei e me foram apresentadas.

O CASC Carregueira é a prova que existe exceções. Desde o meu primeiro contato com o Centro e sua direção/equipa técnica, vi que ali era diferente, e ainda bem que é para melhor. A direção é de uma humanidade incrível. Nosso presidente Duarte Arsênio que se dedica 24 horas por dia ao Centro, tesoureiro José Rodrigues que após o seu horário de trabalho ali fica sempre pronto para o que for preciso, diretora técnica Telma Leitão, uma mulher que nunca vira a cara á luta, vice presidente Maria Eduarda sempre pronta a colaborar.

De volta ao lar após uns dias em casa a tratar de uns assuntos, concluo que sou um privilegiado por estar rodeado de gente tão especial. À direção, colegas utentes e colegas de trabalho, obrigado por tudo o que me proporcionam e me fazerem acreditar num futuro melhor.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

No lar do Centro de Apoio Social da Carregueira, as nossas plantas podem-nos acompanhar

Sair das nossas casas e deixar tudo para trás é muito doloroso. No lar do Centro de Apoio Social da Carregueira, pelo menos as nossas plantas/flores podem-nos acompanhar.

Eu trouxe uma que me pertence desde o falecimento da minha mãe. Ficaria muito triste se fosse obrigado a separar-me dela. Olhá-la todos os dias faz-me muito bem.

Ei-la (a vermelha):

Dos meus amigos:


O jardim das aromáticas:









































Dentro do desenraizamento que somos obrigados, manter algumas raízes faz-nos muito bem.