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domingo, 7 de abril de 2019

Apoie o Centro de Apoio Social da Carregueira através do seu IRS

Ao preencher a sua declaração de IRS, doe sem custos para si, 0,5% dos seus impostos ao Centro de Apoio Social da Carregueira.

Veja como é fácil e prático fazê-lo:

Conheça-nos melhor aqui, e aproveite para por um "gosto" na nossa página:
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Site: https://cascarregueira.wordpress.com/

domingo, 9 de dezembro de 2018

Esta humilhação já está. Obrigado!

Faz hoje 8 dias que chego a Lisboa para realizar a ação de protesto, conduzido pelo João Condeço, e acompanhado pela Rafaela Fialho. A cama onde me irei deitar está a chegar ao Parlamento. Presidente da instituição onde me encontro, o meu amigo Duarte Arsénio, tem a jaula quase montada com a ajuda de uns seus amigos que com ele se deslocaram da Carregueira e outros que o aguardavam em Lisboa. São 14h e como não me alimentarei nos próximos dias, paramos junto a uma pastelaria, peço um prego, mas trazem-me ao carro um folhado de chouriço cheio de gordura e nada apetecível. Foi a minha última refeição.
Imagem JN
Chego à Assembleia da República (AR), a jaula já se encontra montada, aguardam-me alguns amigos, preparo-me para entrar, mas uma agente da Polícia de Segurança Pública, pede-nos para retirar a jaula daquele espaço por supostamente estarmos a infringir a lei. Levam-na para uma ilha em frente da AR, entre duas vias de trânsito. Já era complicado subir o passeio junto à AR, onde a jaula se encontrava por não cumprir a lei das acessibilidades , aceder ao outro espaço, em cadeira de rodas, era impossível e muito perigoso com os carros a circularem sem parar.
Ao fundo Duarte Arsénio e amigos a montarem a jaula

Felizmente apareceu o deputado Jorge Falcato, e graças a si a situação foi desbloqueada e a jaula voltou para o passeio junto à AR. Só tinha de ser assim. Avisei com antecedência a Câmara Municipal de Lisboa sobre o protesto e tamanho da jaula, que por sua vez encaminhou a informação para o Ministério da Administração Interna e Comando Geral da PSP.

Começam a chegar os primeiros jornalistas, dou entrevistas e despeço-me, e entro para a jaula, Rafaela Fialho a minha acompanhante deita-me na cama de costas, posição sugerida pelo Sérgio Lopes, também tetra, e ainda bem que a acatei, porque foi muito mais fácil interagir com as pessoas, dar entrevistas, atender alguns telefonemas, sugar água através da sonda e passar o tempo. Ainda bem que não fiquei de barriga por baixo, como previsto.

A JAULA E A HUMILHAÇÃO 
A rede passou a ser a minha janela para o exterior e também a prova da minha prisão. Antes de tudo o meu olhar tinha de se focar nela. Todas as imagens que recebia estavam enjauladas, e começo a sentir a humilhação a invadir-me. Vem a vontade de chorar. Foi o início de muita dor na alma. A exposição deixa-me de rastos. Doe-me muito. Demoro muito tempo a esquecer. Calma, engoli em seco, olhei em volta e ali estavam os fiéis guerreiros e guerreiras do costume ao meu lado, também pensei em todos os outros que como eu se sentem aprisionados todos os dias, e encarei a situação de frente. 
Guardiãs
Os fiéis guerreiros e guerreiras por ali andavam como guardiãs. As pessoas vinham e iam após deixar o seu apoio e solidariedade. Cada pessoa que fazia o favor de deixar o conforto do seu lar, para de muitas maneiras vir mostrar o seu apoio, era um incentivo para continuar, a todos e todas fiz questão de tocar com as minhas mãos e senti-las. Pensava, ainda existem pessoas boas. Deixar tudo para se deslocarem até aqui, é um gesto de ternura sem preço.

PRESENTES E COMIDA 
Os primeiros trouxeram chá e biscoitos, outros continuaram a trazer comida, a eles e todos os outros que foram aparecendo, expliquei que não iria me alimentar. O Francisco trouxe-me uma rosa, o amigo e comendador Arruda, presidente da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, ofereceu-me a sua medalha conquistada na maratona das descobertas realizada naquele dia, também recebi umas quentinhas collants térmicas, pantufas, almofada, etc 
Rosa. Imagem R. Renascença
Além de palavras de apoio, muitos traziam também relatos de injustiças que estavam a sofrer. Uma mãe com o seu filho adolescente com escaras profundas a aguardar uma cadeira de rodas há anos, e quando finalmente a avisam que foi aprovado o seu pedido, é informada que não há dinheiro. Outra mãe que é obrigada a ficar com a sua filha também adolescente em casa, porque a escola onde iniciou o ano letivo, a informou que tem de encontrar uma escola particular que a receba, porque segundo eles a filha não se adaptou à sua escola. Um pai indignado por só ter direito a 37,50€ mensais, de comparticipação por 5 embalagens diárias que gasta em fraldas com a filha, etc, etc. Era uma maneira de juntarem a sua indignação à minha.
Chá quentinho. Imagem Sara Dias.
Na hora do almoço, no dia dois da ação, ouço a preocupação dos meus fiéis guerreiros em almoçarem perto de mim. De imediato lhes expliquei que poderiam comer junto à jaula porque não me faria diferença. E o cheiro? Vais ver a comida. Não, não vamos comer perto de ti. É uma maldade muito grande. Insisti que não, aceitaram almoçar por ali e o certo é que não me fez diferença nenhuma. Nunca senti fome durante o período que ali permaneci. Fraqueza sim.

A PRIMEIRA NOITE 
A noite foi difícil de passar. Teria sido muito mais complicado se a Isabel Faria e amigos, não tivessem encontrado maneira de tapar a maior parte da jaula, com uma espécie de lona. Dizia-me o deputado Jorge Falcato. Não tens um aquecedor? Sinceramente nem sequer imaginava que existissem aquecedores de rua. Os meus protetores fazem-me chegar também um aquecedor que ficou a noite toda ligado. O frio e desconforto diminuiu muito. A noite avança, consegui convencê-los a sair. Entenderam que seria muito doloroso para mim vê-los a passar frio e a sofrer por minha causa. 
A lona. Imagem Pedro Homem de Gouveia
A Rafaela Fialho, essa não consegui convencer a sair de perto. Foi descansar para o carro estacionado no outro lado da rua, e ia aparecendo de vez em quando a tremer de frio. Na primeira noite ainda tentou que eu me alimentasse. Come só um pouquinho de doce gato! (é brasuca) Não Rafaela, nem penses. Ai gato, estou tão triste! Esquece, é muito importante para mim cumprir com o que prometi. É a minha verdade. Ainda insistiu: e um suco, água com açúcar? Isso não é comida. Como não cedi, lá vai ela toda tristinha encolhida devido ao frio. Felizmente não aceitei que tapassem também a rede da parte da frente da jaula. Foram surgindo pessoas quase toda a noite, policiais de serviço também iam passando e perguntando se estava bem. 
Rafaela Fialho após noite mal dormida
CANSAÇO 
Surgem os primeiros sinais de desgaste. Também devido ao facto de ter suspendido a medicação do dia-a-dia. Olhos a arder, cheios de água, e muito pesados que mal conseguia manter abertos. A perna esquerda resolve ter uma crise de espasmos. Esticões seguidos que nunca mais paravam. Quando acontece é porque algo no organismo não se encontra bem. Ligeira dor de cabeça e muito cansaço cerebral, assim com desconforto devido ao frio. Tentei tapar o rosto com a roupa da cama, na tentativa de dormir uns minutinhos pelo menos. Mas foi impossível, a perna não parava de pular, o barulho na via pública era muito, alguns curiosos paravam. Destapei a cara e começo a sentir o rosto húmido de maresia, o chão brilhava molhado, o frio trazido pelo vento começa a surgir junto à cabeça, fixo o olhar no passeio sem fim ao fundo das escadarias da Assembleia da República, e eu ali naquela cama. Como vieste aqui parar Eduardo? Porquê tudo isto Eduardo? Confirmei o esperado. O meu grito de desespero não foi ouvido pelos governantes. Fui mais uma vez ignorado. Veio a tristeza e com ela as primeiras lágrimas. Só voltaram a surgir com a entrega da rosa pelo Francisco. Voltei a ser prático e determinado. Dava jeito. Eu que me sentia tão forte e convicto até aquele momento não podia começar a ceder.

SEGUNDO DIA 
Surgem os primeiros raios da manhã. Frio apertava. Dor de cabeça mantinha-se. Desgaste emocional também. Ai se eu pudesse lavar pelo menos os olhos e as mãos, aliviar uns segundos o corpo daquele colchão que se colava a ele…Rafaela surge ao fundo toda encolhida a perguntar se estava bem. Respondo que sim. Fico com o coração apertado por imaginar a péssima noite que passou por minha causa. Surge o Sérgio Lopes, de seguida os outros e outras. Começa a rotina. Mais chá, comidinha, chocolate quente e muito amor, e eu sem fome nenhuma. Serviam-se os outros. Nada se perdia.

ESTOU A ATENTAR CONTRA A MINHA VIDA? 
Sou visitado pelo Srº Delegado de Saúde Regional de Lisboa e Vale do Tejo, que a pedido da respetiva Administração Regional de Saúde, mostrava a sua preocupação com a minha saúde. Recebi os seus conselhos e agradeci. No primeiro dia também tinha recebido a visita de um médico com as mesmas preocupações. A enfermeira Teresinha também não me deixou um minuto. Médicos do Mundo também marcaram presença. Todos com a mesma preocupação. A minha suposta frágil saúde. Fisicamente até poderia estar, mas mentalmente continuava forte. De todos vinha o conselho para beber água com açúcar ou com clara de ovo. Era fundamentel ingerir proteína. Como se tratava de líquidos isso não inviabilizava a minha greve a alimentos. Resisti. E sinceramente não sentia fome.

AUTORIDADES 
Comuniquei o protesto a todos os grupos parlamentares, deputados eleitos pelo meu distrito, gabinete Srª Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Presidência da República, gabinete Primeiro Ministro e Instituto Nacional para a Reabilitação. Recebi um email da deputada Idália Serrão do Partido Socialista, de imediato um telefonema do deputado Jorge Falcato, independente pelo Bloco de Esquerda (BE) a mostrar a sua preocupação e a tentar demover-me da ação por achar que estaria a pôr em risco a minha saúde. Ao verificar que nada me demovia, mostrou a sua solidariedade e disponibilidade para ajudar. O que aconteceu. Esteve sempre ao nosso lado no terreno.

No 2º dia recebi a visita da coordenadora do BE Catarina Martins, acompanhada por vários órgãos de comunicação social, depois de se inteirar do meu protesto comunicou-me o que eu também já sabia, que a minha ação poderia ter sido evitada caso o Governo tivesse aceite a proposta do BE apresentada 3 dias antes no Parlamento, a propor a alteração do Decreto Lei 129/2017 a solicitar os 6 meses de transição para permitir a desinstitucionalização que eu estava também a exigir. Não tenho dúvidas que a sua presença tornou ainda mais visível o meu protesto.

Também compareceram duas representantes do Instituto Nacional para a Reabilitação, a pedido dos membros do seu Conselho Diretivo. Do Gabinete do nosso Primeiro Ministro recebi a resposta que tinham encaminhado o assunto para o Ministério do T. Solidariedade e Segurança Social, e da presidência recebi um ofício que me deixou ainda com mais vontade de avançar. Confundiam Estatuto do Cuidador com Modelo de Apoio à Vida Independente. No último momento do protesto sou visitado pelo deputado do PSD, de Santarém, o distrito onde resido e sou votante, Duarte Marques.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA. EU NÃO DISSE QUE ELE VINHA? 
A segunda noite noite chegou, nada mudou. Eu na mesma posição, sem higiene e sem me alimentar. Desgaste mental estava a ser cada vez mais notório. Fome não tinha, dor de cabeça e olhos a arder sim. Pessoas não paravam de mostrar a sua solidariedade, os meu guardiãs firmes ao meu lado. Telefonemas e mensagens muitas, maioria devido ao posicionamento não conseguia atender. Sara Dias ex colega da faculdade, outra amiga incansável que esteve comigo do primeiro ao último minuto, fez o favor de me entregar um carregador de bateria portátil, para o telemóvel poder continuar a funcionar. De repente ouço um burburinho: é o presidente! É ele! Eu sabia que ele vinha! E vejo-o junto à rede que nos separava a chamar pelo meu nome.
Presidente da República. Imagem Sara Dias
Estico-lhe a mão como fiz com todas as outras visitas, alguns dos seus dedos passaram pelos buracos da rede e tocaram nos meus, informei-o sobre as razões do protesto, entendeu e informou-me que tinha convidado a Srª Secretária de Estado da Inclusão para conversarmos. Que tinha de haver uma solução. Sai e vai recebê-la á saída do carro que a transportava, e surgem de braço dado como sendo o seu guia. Recebi-a, conversamos de uma maneira mais acesa, algo que me desagradou e mostrei-o no momento. Srº Presidente continuou a pedir calma e a apelar ao diálogo, inclusive caso fosse necessário prontificou-se a estar presente na reunião a agendar. Pedido aceite por ambas as partes.
PR e Sec. Estado. Imagem Sara Dias.
Humanidade, respeito, serenidade, objetividade, simpatia, simplicidade, isso mostrou o nosso Presidente da República. Ninguém ficou indiferente ao seu gesto e presença, mas principalmente maneira de lidar com a situação naquele momento, e naquelas circunstãncias. Perante o seu gesto e esforço, resolvi suspender a ação de protesto. Na altura a abertura e postura da Srª Secretária de Estado não foi a melhor. Facto que me fez pensar por momentos em não desmobilizar. Mas como praticamente todos me aconselharam a fazê-lo, e porque sempre desejei ser solução e não problema, fi-lo.
PR e SE


QUERO UM SELFIE COM O PRESIDENTE GATO! 
Dias antes, tinha estado presente na gala comemorativa dos 15 anos da Associação Salvador, onde fizeram o favor de me atribuir o prémio de mérito “Comunidade” pelo meu ativismo. O convite informava que a gala teria o alto patrocínio do Srº Presidente da República. A Rafaela Fialho, é o meu apoio nestas saídas, e logo começou a dizer que o que mais queria era uma selfie, mas o desgosto foi grande porque o Presidente esteve ausente, e só apareceu em vídeo. Selfie nada. Quando vejo o Presidente a despedir-se, imaginei que a Rafaela tinha conseguido a selfie sonhada, mas na dúvida resolvi informar o Presidente do seu sonho, não fosse ele mais uma vez ficar por realizar. Ainda bem que o fiz, a Rafaela sabe-se lá porquê, tinha achado que incomodava, e não teve coragem de solicitar a bendita selfie. Mas de imediato o Presidente a chamou, de um só pulo lá estava ao seu lado, e a selfie aconteceu à primeira. Logo ela que todas as fotos só estão ao seu gosto a partir da meia dúzia para lá. Desta vez estava ótima. Rafaela conseguiu a sua selfie com o Presidente da República, ficou muito feliz, e eu ainda mais por ela. 
Rafaela Fialho e o Presidente da República


E AGORA COMO SAIO DAQUI? 
Olho e vejo o meu enfermeiro Tiago Barbosa, e o meu fisioterapeuta Pedro Oliveira, vindos da Chamusca para me visitar. Logo pensei: são eles que vão ajudar a desmontar a jaula e levar-me de volta para a Carregueira, que ainda fica a mais de 100 km. Assim aconteceu, e com o apoio de muitos, tudo foi desmontado, e por volta da meia noite já me encontrava no lar do Centro de Apoio Social da Carregueira.
Pedro Oliveira e Tiago Barbosa. Imagem Sara Dias.

SORTE
Tive muita sorte. Não choveu. Protegeram-me do frio. Motoristas aparecerem sem esperar. Jornalistas deram-me voz. Sociedade entendeu a mensagem que tinha para passar. Presidente da República mostrou que também sente afetos por nós. Não criei nenhuma escara. Decreto Lei foi alterado e notou-se um pequeno avançar do processo implementação Modelo de Apoio Vida Independente.

APROVEITEM 
Tenho recebido informações que muitas pessoas somente tiveram conhecimento da assistência pessoal através da ação. Aproveito para informar que caso desejem candidatar-se ao apoio de assistência pessoal, devem procurar um destes Centros de Apoio à Vida Independente (CAVIS) na vossa região e inscrever-se. https://tetraplegicos.blogspot.com/2018/05/lista-de-cavis-centros-de-apoio-vida.html

HERÓI 
Conseguiste! És o nosso herói! Obrigado! São frases que me dirigem com frequência. Sinceramente sinto que nada mais fiz do que a minha obrigação. Faria tudo outra vez. Faz parte de mim não ficar em casa quieto, sem agir perante injustiças. Reajo, e esta foi a maneira que encontrei para o fazer desta vez. Nada mais que isso. Venci? Não se trata disso. Não há vencidos e nem vencedores. Senti-me injustiçado, reclamei, fui ouvido, entenderam que tinha razão, e foi feito justiça. Expetativas: Não tenho. Só quando me encontrar na minha casa, ou outro local escolhido por mim, a viver com quem quero, como quero, com direito a assistência pessoal, autónomo, a sentir-me dono da minha vida, é que sentirei o meu dever cumprido. Por enquanto foi dado só mais um passo nesta batalha titânica que parece não ter fim.

A REUNIÃO 
Aconteceu nesta última 5ª feira, pelas 11h00 no Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, em Lisboa. Na presença da Srª Secretária de Estado e a sua equipa, e fiz-me acompanhar pela Diana Santos, representante do Centro de Vida Independente (CVI) de Lisboa, Luís Quaresma a representar a Federação das Doenças Raras de Portugal, e o Sérgio Lopes pertencente á Mithós Histórias Exemplares e CVI Lisboa, responsável pelo cartaz a anunciar a ação, e também juntamente com o Tó Silva, meu presidente Duarte Arsénio, os primeiros e únicos a conhecer os meus planos e a aturar-me durante dias. Ao contrário do encontro agressivo junto à Assembleia da República, notório em várias filmagens a circular pela internet, a reunião decorreu num clima de cordialidade e respeito. Uma postura completamente diferente da parte da Srª Secretária de Estado, e que registei com muito agrado. Espero que a nossa relação volte ao respeito e até amizade como acontecia no início da sua tomada de posse. Da minha parte tudo farei para que isso aconteça. Sempre me regi pelo respeito e tolerância. 
Após a reunião


O MEU LAR
No início senti algum receio de acharem que estava a lutar contra o lar do Centro de Apoio Social da Carregueira, local onde trabalho e vivo. Esta instituição deu-me tudo. Devo-lhes muito. Não poderia ser melhor tratado, mas felizmente entenderam que a minha luta é contra a institucionalização compulsiva como única alternativa. Queremos decidir com, como, e onde viver. 
Centro de Apoio Social da Carregueira


AGRADECIMENTOS 
A todos que desde a primeira hora estiveram ao meu lado, principalmente Rafaela Fialho, muito, mas mesmo muito obrigado.

O protesto na comunicação social.

Eduardo Jorge

Centro de Apoio Social da Carregueira, dezembro de 2018

domingo, 4 de novembro de 2018

Meu pequeno grande gesto

Minha crónica deste mês no jornal Abarca

Com o acidente, e ida para a cadeira de rodas, fiquei compulsivamente proibido de realizar muitas das funções que antes fazia dentro da normalidade que é viver sem condicionalismos. Algumas tão simples como colher fruta directamente da árvore. Era um prazer tremendo chegar perto da árvore, escolher o fruto e saboreá-lo. Quem diria que no lar onde me encontro voltaria a poder usufruir desse prazer? Vinte e sete anos depois consegui-o.
A Direcção do Centro de Apoio Social da Carregueira, entre algumas outras iniciativas inovadoras, resolveu criar um projecto agrícola, com a finalidade de auto-sustentabilizar a Instituição, e de forma a aliviar os seus gastos, e a proporcionar aos utentes e colaboradores, uma alimentação mais sadia. Diariamente são confeccionadas nesta IPSS, uma média de 300 refeições, e dessa forma o caminho é ir ao encontro da quase obrigatoriedade que é as IPSS se recriarem de forma a se auto manterem, pois se continuarem a depender do valor dos apoios da Segurança Social, o seu futuro não será risonho.
A colocação em prática do referido projecto agrícola já nos permite ser auto-sustentáveis em grande percentagem no abastecimento de batata, cebola, tomate, alho francês, curgete, couve, salsa, abóbora, coentro, melão, meloa, batata doce, melancia, laranja, clementina, feijão verde, alface, nabiça, pimento, morango, orégão e pepino, a título de exemplo. Só não o é a 100% porque o gelo e o frio do Inverno, sem estufa, o impossibilitam.
Do referido projecto faz também parte a fruticultura. Um pomar de citrinos em regime de arrendamento, e algumas outras árvores frutíferas junto ao Lar, algumas das quais espalhadas por entre a relva sempre bem cuidada, começam a dar os seus frutos.
Junto ao meu quarto existe: uma pereira, uma macieira, uma laranjeira e uma ancoreira. Muitas outras estão espalhadas por todo o espaço envolvente do complexo, incluindo um loureiro e algumas tílias.
É um privilégio ver os produtos crescerem ali ao lado, e poder saboreá-los. Eu que sou um entusiasta de produtos biológicos, sinto um prazer tremendo nisso.
Poder voltar a realizar um gesto que tanto desejava, é emocionante. Este já está. Existem outros dos quais tenho muitas saudades. Como por exemplo sentir os pés na terra e abraçar, são outras pequenas coisas de que muito sinto falta, mas neste caso sei que é uma tarefa impossível. Sem sensibilidade nos pés, sentir a terra não é possível, abraçar como desejo, sem sentir a pele e calor humano de quem se abraça, também não, porque não é um abraço como gosto… aquele "abraçaço”!
Mas ter tido esta surpresa já foi muito bom, porque a vida prazerosa e sentida é muito melhor.

Eduardo Jorge

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Colóquio Internacional “Deficiência e autodeterminação: o desafio da Vida Independente”

Amanhã, dia 19 de junho, realiza-se no Auditório Montepio, em Lisboa, o colóquio internacional sob o tema “Deficiência e autodeterminação: o desafio da Vida Independente”.


O colóquio é de entrada livre (não são necessárias inscrições) e terá interprete de Língua Gestual Portuguesa e tradução simultânea.

Programa do Colóquio Internacional “Deficiência e autodeterminação: o desafio da Vida Independente”

09h30 - 10h00 » Abertura
Eduardo Ferro Rodrigues, Presidente da Assembleia da República (a confirmar)
Ana Sofia Antunes, Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência
Ricardo Robles, Vereador do Pelouro da Educação e dos Direitos Sociais (a confirmar)
José Arruda, Presidente da Associação dos Deficientes das Forças Armadas
Helena Rato, Associação Portuguesa de Deficientes
Fernando Fontes, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

10h00 - 10h45 » Conferência de Abertura
Independent Living for all Through Personal Assistance: Principles and Implementation
Adolf Ratzka, Diretor do Institute on Independent Living (Suécia)
10h45 - 11h15 » Discussão
Moderador: Eduardo Jorge, Ativista pelos direitos das pessoas com deficiência

----------------------------------------------------- Intervalo --------------------------------------------------------

11h45 - 12h15 » Painel 1
Condições de vida das pessoas com deficiência em Portugal: apresentação de resultados
Equipa DECIDE
12h15 - 12h45 » Discussão
Moderador: Jerónimo Sousa, Diretor do Centro de Reabilitação de Gaia

----------------------------------------------- Pausa para almoço --------------------------------------------------

14h30 - 15h00 » Painel 2
Vida Independente em Portugal: avaliação intermédia do Projeto-Piloto
de Vida Independente da Câmara Municipal de Lisboa
Equipa DECIDE
15h00 - 15h30 » Discussão
Moderador: Pedro Homem de Gouveia, Coordenador da Comissão de Acompanhamento
do Projeto-Piloto de Vida Independente da Câmara Municipal de Lisboa

---------------------------------------------------------- Intervalo ----------------------------------------------------

16h00 - 16h45 » Conferência final
Independent Living for Disabled People: Standards and Practices
Kapka Panayotova, Presidente da European Network on Independent Living
16h45 - 17h15 » Discussão
Moderador: Jorge Falcato Simões, Deputado da Assembleia da República

17h15 - 17h45 » Encerramento
Feliciano Barreiras Duarte, Presidente da Comissão de Trabalho e Segurança Social (a confirmar)
Humberto Santos, Presidente do Instituto Nacional para a Reabilitação (INR) (a confirmar)
Mais informações sobre o projeto podem ser consultadas na página na Internet: http://www.ces.uc.pt/projectos/decide/

Fonte: APD

sábado, 30 de setembro de 2017

Voto em quem?

Votar, voto de certeza, mas em quem? No Joel Marques ou António Silva? Como ativista que sou não poderia deixar de exercer este meu direito de cidadania. Não sou de votar por votar, tenho de ter motivos para o fazer num determinado candidato ou candidata.

Esses motivos procuro-os nos programas eleitorais apresentados pelos candidatos, costumo votar em programas ou pessoas e não em partidos. Já fui candidato a uma autarquia como independente pelo PSD, e acho que já votei em quase todos os principais partidos. Mas recém-chegado á Carregueira como conhecer a realidade politica da freguesia da Carregueira? Voto no partido onde está o Joel Marques, no da Gisela Matias ou nos outros que se apresentam a sufrágio?

No programa eleitoral do Joel Marques / Paulo Queimado, não consegui encontrar referências ao local onde estou institucionalizado e onde exerço a minha profissão de Assistente Social e responsável pela Valência de Centro de Dia, o que mais uma vez me leva a concluir que a terceira idade não faz parte das suas preocupações.

No da Gisela Matias / António Silva, encontra-se no respectivo programa uma referência ao Centro de Apoio Social, presumo que da Carregueira, Instituição que me diz muito.

Sobre o tema deficiência nada li. Quem sabe não os consigo ajudar a lembrarem-se de quem tem mobilidade reduzida mostrando-lhes alguns péssimos exemplos de acessibilidades em locais onde circulo quase todos os dias, assim como utentes do lar com mobilidade reduzida, e talvez vá a tempo de os convencer a colocarem o tema também na agenda, e desse modo ajudarem-me a decidir em quem votar.

Primeiro passeio junto ao lar do Centro de Apoio Social da Carregueira

1ª curva do passeio junto ao Centro
1ª passadeira
Passeio
Outro obstáculo
Junto á entrada do Centro
Mais um obstáculo 
Entrada do Centro
Entrada do Centro
Entrada do Ceentro
Em frente ao Centro
No que toca à Câmara Municipal da Chamusca sei bem em quem não quero votar: certamente que em Paulo Queimado NÃO, pelas razões indicadas na página nº 4 do “Factos & Palavras” nº 18, boletim informativo do Centro de Apoio Social da Carregueira: https://cascarregueira.files.wordpress.com/…/factos-e-palav…

Um presidente que põe em causa a sustentabilidade e funcionamento de uma instituição que presta apoio social a mais de 200 pessoas diariamente, e emprega mais de setenta outras, não pode de maneira nenhuma merecer a minha confiança e o meu voto.

No próximo Domingo, dia 1 de Outubro esteja onde estiver, faça como eu: Vote, mas vote bem.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Ser utente e funcionário do Centro de Apoio Social da Carregueira

Na minha nova crónica no jornal abarca escrevo sobre a minha experiência enquanto utente e funcionário de uma instituição.

Exerço as funções de assistente social (diretor técnico da valência de Centro de Dia) e sou utente da Estrutura Residencial para Idosos (ERPI). Quando exerço as minhas funções sou mais um dos colaboradores do Centro de Apoio Social da Carregueira (CASC). Quando preciso de apoio, sou mais um dos seus utentes da ERPI/Lar.

O funcionário.
Devido a uma acidente de viação, desloco-me em cadeira de rodas elétrica, e possuo 90% de incapacidade. Embora existam incentivos financeiros por parte do Estado à empregabilidade das pessoas com deficiência, raramente o mercado de trabalho nos dá uma oportunidade. Eu sou um dos poucos “privilegiados” a quem foi dada essa oportunidade. Primeiro, o estágio profissional, depois, a possibilidade de continuar a exercer a profissão que tanto gosto: Assistente Social.

Com a deficiência veio o estigma e o preconceito. Para a maioria das entidades empregadoras a deficiência é sinônimo de incompetência, de alguém que perdeu a validade e deixou de ser útil. Alterar este paradigma tem sido uma tarefa difícil. São atitudes como a tomada pela direção do CASC, que fazem a diferença e ajudam na mudança. Ter tido a coragem de apostar num inútil para a maioria da sociedade, é uma grande ajuda na desmistificação de ideias erradas formadas a nosso respeito.

Nesta casa nunca fui olhado como diferente, mas sim como sou, somente uma pessoa com características diferentes da maioria, mas com direitos e deveres como os demais. O facto de ser olhado como igual, de não ser somente a minha cadeira de rodas o foco das atenções, mas sim valorizando as minhas capacidades e não as limitações, foi uma grande ajuda à minha adaptação, e claro, refletiu-se no trabalho que realizo. Ficaram criadas as condições para poder exercer as minhas funções em pleno, sem complexos e receios.

Centro de Dia
O Centro de Dia é uma resposta social de apoio à população, especialmente a mais idosa, que consiste na prestação de um conjunto de serviços nas nossas instalações, na tentativa de contribuir para a manutenção dos nossos utentes no seu meio sócio-familiar.

Funciona atualmente com um total de 45 utentes, limite imposto pelo Instituto da Segurança Social. Infelizmente não é o suficiente para satisfazer todas as solicitações que nos chegam diariamente, encontrando-se na presente data várias pessoas em lista de espera a aguardar vaga para beneficiarem dos nossos serviços.

A nossa finalidade é a capacitação do idoso para a melhoria da sua qualidade de vida e a promoção do seu envelhecimento ativo. É nossa preocupação constante proporcionar aos nossos utentes bem-estar físico, psíquico e social, promovendo a sua autoestima, fazendo-os sentir-se parte integrante de uma comunidade que os deseja e estima.

Quanto aos utentes do Centro de Dia, também sinto que a cadeira de rodas serve somente para alguns deles me identificarem. Quando se esquecem do meu nome a cadeira é a sua referência. Sou aquele senhor da cadeira de rodas. De resto, sabem que sou somente mais um membro da equipa disponível para os servir, seja em que circunstâncias for, dentro das nossas possibilidades.

Infelizmente uma grande parte da nossa sociedade ainda olha o idoso como sendo um fardo sem potencial e competências. No meu caso não me cabe classificá-los como sendo ativos ou passivos, mas sim percebê-los como pessoas de valor, únicas, com vontades próprias e capacidades, com quem se pode estabelecer um diálogo e relações pessoais interessantes. É-me fácil reconhecer que têm um valor moral básico, independentemente de serem ou não capazes de exercer autonomia.

É com este espírito que me apresentei e apresento perante eles todos os dias. Só desse modo faz sentido e vale a pena ser Assistente Social. Promover a dignidade e o valor das pessoas.

O utente.
É de muitos conhecida a minha luta pública contra a institucionalização das pessoas com deficiência. A minha vinda para um lar de idosos não foi, e nem está a ser fácil. Mas nas circunstâncias que me encontrava foi sem dúvida a melhor solução. Agora vejo que só num lugar assim e com estas condições poderia trabalhar. Devido às minhas especificidades necessito de apoio de terceiros várias vezes ao dia, e para várias tarefas. Ter esse apoio ao meu dispor durante 24 horas por dia faz toda a diferença. Só graças a esse apoio consigo exercer a minha profissão e ter uma vida ativa. Sem ele seria impossível exercer as minhas funções.

Suponho que para as/os colegas de trabalho da ERPI, nem sempre deve ser fácil conseguir separar o utente do colega, pois tanto estamos a almoçar juntos e em amena “cavaqueira”, como de seguida a “cuidar-me”. Se existe essa dificuldade, eu não a sinto. Sinto sim, que as coisas funcionam e nos conseguimos entender.

Ter as/os colegas como cuidadores fez com que na maioria dos casos se criassem laços muito interessantes. Encontrei amizades para a vida.

Têm a minha profunda admiração pela profissão que exercem e como a exercem. O estar “deste lado”, fez-me ter um olhar critico diferente do que tinha há meses atrás. Comprovei que nem todas as Instituições deste género funcionam a pensar no que é melhor para os seus diretores, esquecendo-se das suas reais responsabilidades. Nesta “casa” encontrei equipas, desde a direção e equipa técnica às colaboradoras e colaboradores, de uma forma generalizada, todos se preocupam com a solidariedade e o bem servir.

Não ficaria bem comigo mesmo se não deixasse um registo sobre as preocupações que sinto pelo futuro da Instituição, uma vez que, ao contrário do que é desejável, o Município tem uma postura de costas voltadas para o CASC, o que, sejam quais forem os motivos, constrange e dificulta o exercício de quem o dirige e as vítimas são os seus utentes. Não conheço tal postura noutros locais similares e tão pouco a posso aceitar.

Eduardo Jorge
(Tetraplégico, Assistente Social, Diretor Técnico da Valência de Centro de Dia no CASC e utente da Valência de Lar / ERPI) Texto publicado inicialmente no boletim informativo do Centro de Apoio Social da Carregueira "factos & palavras".

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Eduardo Jorge luta por uma vida mais independente

Eduardo Jorge teve um acidente de carro quando tinha 28 anos e ficou tetraplégico. Licenciou-se há poucos anos em Ciências Sociais/Serviço Social e conseguiu trabalho no Centro Social da Carregueira. Tem dedicado os últimos anos a lutar por uma vida mais independente.

Foto: Sandra Henriques

Veja a reportagem em video AQUI.

AQUI relato a minha experiência enquanto utente do Centro de Apoio Social da Carregueira.

domingo, 2 de abril de 2017

Neste caso ajudar não custa nada

Chegou mais uma vez a altura de submeterem as vossas declarações do IRS, e como sabem podem doar sem custos 0,5% dos vossos impostos a uma instituição.

Venho pedir-vos que o façam ao Centro de Apoio Social da Carregueira, instituição onde resido e trabalho.


Para nos doarem 0,5% dos vossos impostos destinados ao Estado, basta seguir as instruções da imagem, ou seja colocar o nº do nosso NIF 503 524 158 no campo 11, do Modelo 3 da sua declaração.

Convido-vos também a conhecerem melhor o nosso trabalho aqui: https://cascarregueira.wordpress.com/ e 

colocar um "gosto" na nossa página no facebook:

O CAS Carregueira agradece.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Banco de Produtos de Apoio do Cas Carregueira

Já conhece o nosso serviço de empréstimo temporário de equipamentos específicos? Temos um Banco de Produtos de Apoio/Ajudas Técnicas à disposição da comunidade.


Para mais informações venha às nossas instalações ou ligue para o 249741222

Mais informações AQUI

domingo, 23 de outubro de 2016

Nova etapa na minha carreira

Iniciou-se uma nova etapa na minha carreira. Estou muito orgulhoso e feliz. Foi com grande emoção que assinei o meu primeiro contrato de trabalho, como assistente social, no Centro de Apoio Social da Carregueira (CASC).

Cheguei a esta casa (lar) completamente destroçado. Não sou de entrar em desânimo e nem de desistir, mas como diz o povo elas não matam mas moem. Foram momentos muito difíceis os que passei. Tempos esses que me deixaram sem vontade de sonhar e criar expectativas. Estagnei e entreguei-me ao tempo e acaso, permitindo que a vida seguisse por mim o rumo que quisesse. Faltava-me paciência para criar forças para a contrariar.

Estava longe de imaginar que o meu destino seria um lar de idosos. De repente vejo-me num deles e com muitos problemas de saúde. Senti-me vencido. Acabou-se Eduardo. Aceita o destino como refere a maioria.

Pouco a pouco fui-me reerguendo e despertando. As pessoas que me rodeavam riam, trabalhavam, alimentavam-se, choravam, morriam, acarinhavam-me, sofriam, ordenavam, obedeciam...era a vida que fluia e continuava o seu rumo. Hoje estás assim, amanhã assado, mas vive, não deixes de fazer parte dela. Foi o que fiz. Acordei do coma induzido a mim mesmo, e quis-me sentir mais uma vez a fazer parte do mundo, que também quero meu outra vez.

Nessa altura, resolvi ceder finalmente e autorizar o meu coração a acalmar e a ver um lugar diferente. Ver a realidade. O lar de idosos que tanto temia e detestava afinal era a minha nova casa e muitas coisas boas. Tinha a Alice Vaz com as suas brincadeiras despretensiosas; o pessoal da cozinha, a deixar tudo que estavam a fazer para me tirarem um café da máquina nos fins-de-semana, que por ali andava perdido; o sorriso encantador da colega utente D. Judite; as longas conversas com o José Luís; o primeiro banho/treino intestinal realizado especialmente pela coordenadora Natália; a dedicação e disponibilidade das auxiliares; os primeiros trabalhos delegados pela diretora técnica Telma Leitão, e os seus abraços reconfortantes...mas principalmente a confiança inabalável e respeito demonstrado pela Direção e principalmente o seu presidente Duarte Arsénio.Tudo começou nele.

Impossível ficar indiferente perante tamanha dedicação e carinho. Ainda bem que despertei e deixei de ser injusto, com toda aquela gente, que estavam a dar o melhor de si, para que eu tivesse o que que tinha que ter, num lugar daqueles, e naquelas circunstâncias. O que é que queria mais, deveriam todos eles questionar. O impossível?

O meu emprego. Um sonho realizado.
Cheguei como estagiário, o trabalho foi sempre o meu escape nos momentos mais difíceis. Era ele que me fornecia o alimento interior e o combustível. Era a minha alegria no meio de tanta dúvida, aversão e descontentamento. Se não fosse esse emprego e o apoio dado por toda aquela gente, não sei se teria aguentado e me tivesse dado tempo, permitindo despertar para a realidade.

Depois de tanto receber ainda sou presenteado com um contrato de trabalho. Acabo de assinar o meu primeiro contrato de trabalho não precário, após adquirir a deficiência. Foi um momento inesquecível. Já me tinha sido comunicado pela direção que isso iria acontecer, mas ao ver a minha diretora técnica, e colega Telma Leitão, com aquele contrato na mão a me pedir para assinar foi inevitável não ficar comovido.

Para muitos pode parecer um exagero este contentamento, mas para nós, pessoas com grande grau de dependência (no meu caso 90%), não é todos os dias que confiam e apostam em nós. O mercado de trabalho ainda é inacessível para a maioria. Basta verificar a elevada percentagem de desemprego entre o nosso meio.

Pese embora existam incentivos financeiros e não só à empregabilidade. No meu caso, fui admitido ao abrigo da medida de emprego “Contrato de Emprego Apoiado em Mercado Aberto”. Destina-se a pessoas com deficiência e incapacidade, inscritas nos centros de emprego ou centros de emprego e formação profissional, com capacidade de trabalho não inferior a 30 % nem superior a 90 % da capacidade normal de trabalho de um outro trabalhador nas mesmas funções profissionais, o respetivo grau de incapacidade é fixado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), em conjunto com os Centros de Recursos.

A pessoa com deficiência terá direito aos mesmos valores atribuídos a um trabalhador com capacidade normal para o mesmo posto de trabalho, de acordo com a graduação da sua capacidade, que não pode ser inferior ao valor da retribuição mínima mensal garantida ou retribuição idêntica à de um outro trabalhador para as mesmas funções ou posto de trabalho, desde que a diferença seja objeto de compensação por parte do IEFP.

No meu caso, como as minhas limitações me impedem de produzir o mesmo que a minha colega que exerce as mesmas funções, o meu vencimento mensal é pago em parceria pelo IEFP e o Centro de Apoio Social da Carregueira, meu empregador.

Claro que só consegui este contrato de trabalho porque este Centro é gerido por pessoas sensíveis e alertadas para a nossa realidade e que levam em conta as pessoas, e não a deficiência. Além de mim, trabalham no CASC outras pessoas com deficiência e a sua incapacidade nunca foi motivo para não as contratar. Pois todos sabemos que só os apoios não chegam. É fundamental mudar mentalidades para que as pessoas com deficiência sejam olhadas como iguais e respeitadas, e não olhadas como inúteis e incapazes.

Faz-me muito bem produzir.
Tanto a Convenção das Nações Unidas sobre os direitos das Pessoas com Deficiência adotada por Portugal em 2009, como a Estratégia Europeia para a Deficiência da Comissão Europeia, apontam para a necessidade de fomentar o emprego e a empregabilidade, enquanto estratégias ao serviço da inclusão das pessoas com deficiências ou incapacidade.

Está mais que provado que a integração das pessoas com deficiência no mercado de trabalho é um fator decisivo para a sua inclusão social, independência económica e consequente valorização e realização pessoal. Todos os estudos indicam que o empregador que aposta nestas pessoas está satisfeito com o seu rendimento, daí ser muito doloroso e incompreensível o facto de continuarem a não nos darem oportunidades.

Só precisamos de uma oportunidade. Eu tive a minha e espero não a deixar fugir. Sou muito grato a esta casa. Tudo farei para retribuir a confiança.

Obrigado direção do Centro de Apoio Social da Carregueira, seu presidente Duarte Arsénio, diretora técnica Telma Leitão e a todas e todos os meus colegas utentes e colegas de trabalho..


Eduardo Jorge

quarta-feira, 29 de junho de 2016

De volta a casa

Quanto mais me afastava do Centro (lar), mais o coração apertava. Sentia uma angústia e um desconforto muito grande. Era como se estivesse a sair da minha zona de conforto, de um lugar onde estava protegido. Sentimentos que me acompanharam até a casa.

Encosto a cadeira de rodas á mesa, avisto pela janela o esplendor da natureza, e finalmente sinto que estou em casa e a angústia diminui. Vejo o familiar bando de corvos a deixar-se levar pelo vento…o cartaxinho pousado na cerca em frente, o picanço bebé no candeeiro... Melhor receção impossível. Velhos conhecidos a desejarem-me boas vindas. Durante momentos senti-me de volta a casa, no meu espaço.

1ª noite, após o apagar das luzes e ser deixado só, os sons da noite e a escuridão obrigaram-me a ficar acordado durante algum tempo, mas depressa chamei pelo sono e o obriguei a levar-me dali para fora. Com a manhã vem o alívio. 1ª noite passada sem grandes problemas o que aconteceu até à última noite. Difícil acreditar que tudo funcionou na perfeição.

O receio de ter de precisar de ajuda durante a noite e não a ter, era o meu maior medo. A logística também. Maioria dos equipamentos de apoio ficaram no lar. A própria casa já não se encontra operacional. Mas tudo se resolveu com a preciosa ajuda da Euridice e Rafaela, minhas cuidadoras de todas as horas. Até a bexiga, intestinos e outras miudezas resolveram se associar á festa e deixaram-me em paz.

“Vi-o nas fotografias e nota-se que está feliz”. “Teus colegas têm mesmo cara de boas pessoas”. Ouvi estas frases algumas vezes. Ainda bem que transparece cá para fora o quanto estou feliz por estar no Centro de Apoio Social da Carregueira (CASC), e o quanto sou acarinhado por toda a família que o compõe. É a pura realidade. Não tenho palavras para descrever o quanto me fazem bem.
Ali encontrei o que pensei não ter direito: respeito, amor, solidariedade, honestidade, profissionalismo, verdade...mas principalmente paz, respeito pelo meu trabalho e confiança. E não é de agora. Logo que iniciei funções, e ainda estagiário, a direção fez questão de me incluir nas reuniões de direção, da equipa técnica, do CLAS-Conselho Local de Ação Social (estruturas concelhias de funcionamento do Programa da Rede Social), tendo inclusive solicitado á Chamusca, alteração do local dos encontros para um espaço acessível, o que aconteceu de imediato. No CASC sinto-me por inteiro, valorizado e olhado como sou. Um técnico de serviço social, que por acaso é tetraplégico. Nada mais.

O lar

O lar é o lar. Um espaço frio, impessoal, de sofrimento até, lugar onde maioria chega para ser a sua última residência...mas também um lugar de amor, solidariedade, ternura, acolhedor, familiar, lugar de alegria de esperança e de escolha de muitos. Para mim continua a não ser o local adequado, mas o melhor de momento. Em casa voltou a nostalgia e a possibilidade de poder com outra clareza/isenção comparar e realizar o balanço deste ano passado no lar. Faz no próximo mês um ano que fui institucionalizado.


E concluo que neste momento a segurança e a paz que encontro neste espaço é o mais importante para mim. Senti-o quando estava a sair. Foi uma sensação de perda e medo. Sair para a incerteza e instabilidade. Para quem não conhece a ERPI-Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, minha atual casa, pode pensar que se trata de mais um local fechado e minúsculo com camas amontoadas, onde só existe sofrimento, maus tratos, cheiros nauseabundos e tudo o resto, mas não é o caso, espaço é amplo, quartos são na sua maioria individuais com WC privativo, existe uma equipa técnica multidisciplinar e embora não seja o local perfeito, é um local onde a dignidade humana é o foco principal.

Quem manda...

Maioria dos relatos que recebo de quem se encontra nestes lares, são assustadoras e nada dignificantes da qualidade humana. Confesso que cheguei a pensar que todos os lares seriam mais ou menos assim. Mas estava errado, embora tenha como lema não julgar antes de conhecer a realidade, e evitar generalizar, era difícil não pensar desse modo perante situações que vivenciei e me foram apresentadas.

O CASC Carregueira é a prova que existe exceções. Desde o meu primeiro contato com o Centro e sua direção/equipa técnica, vi que ali era diferente, e ainda bem que é para melhor. A direção é de uma humanidade incrível. Nosso presidente Duarte Arsênio que se dedica 24 horas por dia ao Centro, tesoureiro José Rodrigues que após o seu horário de trabalho ali fica sempre pronto para o que for preciso, diretora técnica Telma Leitão, uma mulher que nunca vira a cara á luta, vice presidente Maria Eduarda sempre pronta a colaborar.

De volta ao lar após uns dias em casa a tratar de uns assuntos, concluo que sou um privilegiado por estar rodeado de gente tão especial. À direção, colegas utentes e colegas de trabalho, obrigado por tudo o que me proporcionam e me fazerem acreditar num futuro melhor.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

No lar do Centro de Apoio Social da Carregueira, as nossas plantas podem-nos acompanhar

Sair das nossas casas e deixar tudo para trás é muito doloroso. No lar do Centro de Apoio Social da Carregueira, pelo menos as nossas plantas/flores podem-nos acompanhar.

Eu trouxe uma que me pertence desde o falecimento da minha mãe. Ficaria muito triste se fosse obrigado a separar-me dela. Olhá-la todos os dias faz-me muito bem.

Ei-la (a vermelha):

Dos meus amigos:


O jardim das aromáticas:









































Dentro do desenraizamento que somos obrigados, manter algumas raízes faz-nos muito bem.