domingo, 9 de dezembro de 2018

Noticias Sobre o Protesto: Numa jaula em frente da Assembleia da República aos cuidados Presidente da República, Primeiro-Ministro e Ministro Vieira da Silva.

NOTICIAS PUBLICADAS ANTES E DURANTE O PROTESTO

Imagem Sara Dias
- Deficiência. Atrasos na atribuição de assistentes pessoais desmoralizam quem espera há anos. (Público com vídeo);

- Tetraplégico protesta à porta do Parlamento: "Temos direito à cidadania plena, a ser gente. Viver não é só respirar". (Expresso);

- "Continuamos cidadãos de segunda. Temos direito a dizer basta". (Público em vídeo);

- BE defende que assistência pessoal deve incluir todas as pessoas com deficiência. (RTP em vídeo);

- Uma jaula, uma cama e um corpo, o de Eduardo Jorge, à porta da Assembleia. (Diário de Noticias);

- Eduardo Jorge volta à luta e quer ser cuidado pelos governantes. (Rádio Antena Livre);

- Tetraplégico protesta em gaiola junto ao Parlamento e apela a Marcelo e Costa. (Correio da Manhã vídeo);

- Puro desespero, senhor primeiro-ministro! (Observador);

- Tetraplégico em vigília de quatro dias junto à Assembleia da República. (SIC em vídeo);

- Vida Independente: Novo Protesto de Eduardo Jorge em Frente da Assembleia da República. (Plural & Singular);

- Ativista Eduardo Jorge vai protestar pelo atraso no arranque dos Centros de Vida Independente. (RTP em vídeo);

- Eduardo Jorge, tetraplégico, quer entregar-se ao cuidado de governantes como forma de protesto. (Médio Tejo);

- Tetraplégico faz protesto em gaiola junto ao Parlamento por uma vida independente. (Jornal de Noticias);

- Basta a diferença de um gesto… (105 fm);

- Tetraplégico de Abrantes vai protestar junto à Assembleia da República. (O Mirante);

- Tetraplégico em protesto na AR convida António Costa a visitá-lo. (Público);

- Tetraplégico em protesto frente ao Parlamento. (RTP em vídeo);

- Eduardo Jorge em protesto na AR desde sábado convida Governo a visitá-lo. (Antena Livre).

APÓS DESMOBILIZAR

- “País fez imenso nos últimos anos, mas é preciso fazer mais” (Noticias ao Minuto);

- Tetraplégico em protesto em gaiola junto ao parlamento abandona protesto. (Correio da Manhã);

- O Eduardo podia ser eu. Ou o meu filho. (Observador);

- Governo não pode negar a pessoas com deficiência direito a escolherem como querem viver. (Esquerda.net com vídeo);

- Tetraplégico em protesto na AR vai reunir-se com o Governo amanhã. (TVI em vídeo);

- Tetraplégico em gaiola abandona protesto após visita de Marcelo. (Jornal de Noticias);

- Activista tetraplégico termina protesto após visita de Marcelo. "Houve tanta solidariedade" (Público);

- Tetraplégico termina protesto em frente ao Parlamento após visita de Marcelo Rebelo de Sousa. (Médio Tejo);

- Tetraplégico em protesto recebe apoio do Presidente (Correio da Manhã);

- Levante-se a toupeira. (Expresso);

- Tetraplégico em protesto na AR vai reunir-se 3.ª feira com o Governo. (Sábado);

- Visita de Marcelo põe fim a protesto de ativista tetraplégico em gaiola. (Rádio Renascença);

- Eduardo Jorge, o tetraplégico em protesto frente ao Parlamento, desmobiliza após visita de Marcelo. (Observador);

- Protesto de tetraplégico chega ao fim porque "há abertura para conversar sobre algumas reivindicações". (SIC em vídeo);

- Eduardo Jorge terminou protesto mais cedo. (Esquerda.net);

- Presidente elogia secretária de Estado por demover protesto de tetraplégico na AR (Diário de Noticias).


APÓS REUNIÃO FINAL

- Alteração ao Decreto-Lei 129/2017, que cria o Modelo de Apoio à Vida Independente. (Comunicado do Governo);

- Governo vai mudar regras para assistentes pessoais. (Público);

- A vitória do tetraplégico que se enjaulou à frente do Parlamento. (TVI em vídeo);

- Primeiros centros de apoio à vida independente com luz verde. (Antena 1 em vídeo);

- Governo altera lei que regula apoio à vida independente de pessoas com deficiência (Correio da Manhã);

- Cidadãos deficientes que estão em lares vão poder candidatar-se a Centros de Apoio. (RTP em vídeo);

- Governo altera modelo de apoio à Vida Independente. (Esquerda.net);

- Modelo de Vida Independente vai dar seis meses de transição entre lar e assistência pessoal. (Diário de Noticias);

- Governo vai alterar a lei que regula apoio à vida independente das pessoas com deficiência. (Jornal de Abrantes);

- Eduardo protestou à porta do Parlamento e secretária de Estado recebeu-o. (Jornal de Noticias);

- Programa “Agora Nós”, RTP, minuto 45, da 3ª parte.

Esta humilhação já está. Obrigado!

Faz hoje 8 dias que chego a Lisboa para realizar a ação de protesto, conduzido pelo João Condeço, e acompanhado pela Rafaela Fialho. A cama onde me irei deitar está a chegar ao Parlamento. Presidente da instituição onde me encontro, o meu amigo Duarte Arsénio, tem a jaula quase montada com a ajuda de uns seus amigos que com ele se deslocaram da Carregueira e outros que o aguardavam em Lisboa. São 14h e como não me alimentarei nos próximos dias, paramos junto a uma pastelaria, peço um prego, mas trazem-me ao carro um folhado de chouriço cheio de gordura e nada apetecível. Foi a minha última refeição.
Imagem JN
Chego à Assembleia da República (AR), a jaula já se encontra montada, aguardam-me alguns amigos, preparo-me para entrar, mas uma agente da Polícia de Segurança Pública, pede-nos para retirar a jaula daquele espaço por supostamente estarmos a infringir a lei. Levam-na para uma ilha em frente da AR, entre duas vias de trânsito. Já era complicado subir o passeio junto à AR, onde a jaula se encontrava por não cumprir a lei das acessibilidades , aceder ao outro espaço, em cadeira de rodas, era impossível e muito perigoso com os carros a circularem sem parar.
Ao fundo Duarte Arsénio e amigos a montarem a jaula

Felizmente apareceu o deputado Jorge Falcato, e graças a si a situação foi desbloqueada e a jaula voltou para o passeio junto à AR. Só tinha de ser assim. Avisei com antecedência a Câmara Municipal de Lisboa sobre o protesto e tamanho da jaula, que por sua vez encaminhou a informação para o Ministério da Administração Interna e Comando Geral da PSP.

Começam a chegar os primeiros jornalistas, dou entrevistas e despeço-me, e entro para a jaula, Rafaela Fialho a minha acompanhante deita-me na cama de costas, posição sugerida pelo Sérgio Lopes, também tetra, e ainda bem que a acatei, porque foi muito mais fácil interagir com as pessoas, dar entrevistas, atender alguns telefonemas, sugar água através da sonda e passar o tempo. Ainda bem que não fiquei de barriga por baixo, como previsto.

A JAULA E A HUMILHAÇÃO 
A rede passou a ser a minha janela para o exterior e também a prova da minha prisão. Antes de tudo o meu olhar tinha de se focar nela. Todas as imagens que recebia estavam enjauladas, e começo a sentir a humilhação a invadir-me. Vem a vontade de chorar. Foi o início de muita dor na alma. A exposição deixa-me de rastos. Doe-me muito. Demoro muito tempo a esquecer. Calma, engoli em seco, olhei em volta e ali estavam os fiéis guerreiros e guerreiras do costume ao meu lado, também pensei em todos os outros que como eu se sentem aprisionados todos os dias, e encarei a situação de frente. 
Guardiãs
Os fiéis guerreiros e guerreiras por ali andavam como guardiãs. As pessoas vinham e iam após deixar o seu apoio e solidariedade. Cada pessoa que fazia o favor de deixar o conforto do seu lar, para de muitas maneiras vir mostrar o seu apoio, era um incentivo para continuar, a todos e todas fiz questão de tocar com as minhas mãos e senti-las. Pensava, ainda existem pessoas boas. Deixar tudo para se deslocarem até aqui, é um gesto de ternura sem preço.

PRESENTES E COMIDA 
Os primeiros trouxeram chá e biscoitos, outros continuaram a trazer comida, a eles e todos os outros que foram aparecendo, expliquei que não iria me alimentar. O Francisco trouxe-me uma rosa, o amigo e comendador Arruda, presidente da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, ofereceu-me a sua medalha conquistada na maratona das descobertas realizada naquele dia, também recebi umas quentinhas collants térmicas, pantufas, almofada, etc 
Rosa. Imagem R. Renascença
Além de palavras de apoio, muitos traziam também relatos de injustiças que estavam a sofrer. Uma mãe com o seu filho adolescente com escaras profundas a aguardar uma cadeira de rodas há anos, e quando finalmente a avisam que foi aprovado o seu pedido, é informada que não há dinheiro. Outra mãe que é obrigada a ficar com a sua filha também adolescente em casa, porque a escola onde iniciou o ano letivo, a informou que tem de encontrar uma escola particular que a receba, porque segundo eles a filha não se adaptou à sua escola. Um pai indignado por só ter direito a 37,50€ mensais, de comparticipação por 5 embalagens diárias que gasta em fraldas com a filha, etc, etc. Era uma maneira de juntarem a sua indignação à minha.
Chá quentinho. Imagem Sara Dias.
Na hora do almoço, no dia dois da ação, ouço a preocupação dos meus fiéis guerreiros em almoçarem perto de mim. De imediato lhes expliquei que poderiam comer junto à jaula porque não me faria diferença. E o cheiro? Vais ver a comida. Não, não vamos comer perto de ti. É uma maldade muito grande. Insisti que não, aceitaram almoçar por ali e o certo é que não me fez diferença nenhuma. Nunca senti fome durante o período que ali permaneci. Fraqueza sim.

A PRIMEIRA NOITE 
A noite foi difícil de passar. Teria sido muito mais complicado se a Isabel Faria e amigos, não tivessem encontrado maneira de tapar a maior parte da jaula, com uma espécie de lona. Dizia-me o deputado Jorge Falcato. Não tens um aquecedor? Sinceramente nem sequer imaginava que existissem aquecedores de rua. Os meus protetores fazem-me chegar também um aquecedor que ficou a noite toda ligado. O frio e desconforto diminuiu muito. A noite avança, consegui convencê-los a sair. Entenderam que seria muito doloroso para mim vê-los a passar frio e a sofrer por minha causa. 
A lona. Imagem Pedro Homem de Gouveia
A Rafaela Fialho, essa não consegui convencer a sair de perto. Foi descansar para o carro estacionado no outro lado da rua, e ia aparecendo de vez em quando a tremer de frio. Na primeira noite ainda tentou que eu me alimentasse. Come só um pouquinho de doce gato! (é brasuca) Não Rafaela, nem penses. Ai gato, estou tão triste! Esquece, é muito importante para mim cumprir com o que prometi. É a minha verdade. Ainda insistiu: e um suco, água com açúcar? Isso não é comida. Como não cedi, lá vai ela toda tristinha encolhida devido ao frio. Felizmente não aceitei que tapassem também a rede da parte da frente da jaula. Foram surgindo pessoas quase toda a noite, policiais de serviço também iam passando e perguntando se estava bem. 
Rafaela Fialho após noite mal dormida
CANSAÇO 
Surgem os primeiros sinais de desgaste. Também devido ao facto de ter suspendido a medicação do dia-a-dia. Olhos a arder, cheios de água, e muito pesados que mal conseguia manter abertos. A perna esquerda resolve ter uma crise de espasmos. Esticões seguidos que nunca mais paravam. Quando acontece é porque algo no organismo não se encontra bem. Ligeira dor de cabeça e muito cansaço cerebral, assim com desconforto devido ao frio. Tentei tapar o rosto com a roupa da cama, na tentativa de dormir uns minutinhos pelo menos. Mas foi impossível, a perna não parava de pular, o barulho na via pública era muito, alguns curiosos paravam. Destapei a cara e começo a sentir o rosto húmido de maresia, o chão brilhava molhado, o frio trazido pelo vento começa a surgir junto à cabeça, fixo o olhar no passeio sem fim ao fundo das escadarias da Assembleia da República, e eu ali naquela cama. Como vieste aqui parar Eduardo? Porquê tudo isto Eduardo? Confirmei o esperado. O meu grito de desespero não foi ouvido pelos governantes. Fui mais uma vez ignorado. Veio a tristeza e com ela as primeiras lágrimas. Só voltaram a surgir com a entrega da rosa pelo Francisco. Voltei a ser prático e determinado. Dava jeito. Eu que me sentia tão forte e convicto até aquele momento não podia começar a ceder.

SEGUNDO DIA 
Surgem os primeiros raios da manhã. Frio apertava. Dor de cabeça mantinha-se. Desgaste emocional também. Ai se eu pudesse lavar pelo menos os olhos e as mãos, aliviar uns segundos o corpo daquele colchão que se colava a ele…Rafaela surge ao fundo toda encolhida a perguntar se estava bem. Respondo que sim. Fico com o coração apertado por imaginar a péssima noite que passou por minha causa. Surge o Sérgio Lopes, de seguida os outros e outras. Começa a rotina. Mais chá, comidinha, chocolate quente e muito amor, e eu sem fome nenhuma. Serviam-se os outros. Nada se perdia.

ESTOU A ATENTAR CONTRA A MINHA VIDA? 
Sou visitado pelo Srº Delegado de Saúde Regional de Lisboa e Vale do Tejo, que a pedido da respetiva Administração Regional de Saúde, mostrava a sua preocupação com a minha saúde. Recebi os seus conselhos e agradeci. No primeiro dia também tinha recebido a visita de um médico com as mesmas preocupações. A enfermeira Teresinha também não me deixou um minuto. Médicos do Mundo também marcaram presença. Todos com a mesma preocupação. A minha suposta frágil saúde. Fisicamente até poderia estar, mas mentalmente continuava forte. De todos vinha o conselho para beber água com açúcar ou com clara de ovo. Era fundamentel ingerir proteína. Como se tratava de líquidos isso não inviabilizava a minha greve a alimentos. Resisti. E sinceramente não sentia fome.

AUTORIDADES 
Comuniquei o protesto a todos os grupos parlamentares, deputados eleitos pelo meu distrito, gabinete Srª Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Presidência da República, gabinete Primeiro Ministro e Instituto Nacional para a Reabilitação. Recebi um email da deputada Idália Serrão do Partido Socialista, de imediato um telefonema do deputado Jorge Falcato, independente pelo Bloco de Esquerda (BE) a mostrar a sua preocupação e a tentar demover-me da ação por achar que estaria a pôr em risco a minha saúde. Ao verificar que nada me demovia, mostrou a sua solidariedade e disponibilidade para ajudar. O que aconteceu. Esteve sempre ao nosso lado no terreno.

No 2º dia recebi a visita da coordenadora do BE Catarina Martins, acompanhada por vários órgãos de comunicação social, depois de se inteirar do meu protesto comunicou-me o que eu também já sabia, que a minha ação poderia ter sido evitada caso o Governo tivesse aceite a proposta do BE apresentada 3 dias antes no Parlamento, a propor a alteração do Decreto Lei 129/2017 a solicitar os 6 meses de transição para permitir a desinstitucionalização que eu estava também a exigir. Não tenho dúvidas que a sua presença tornou ainda mais visível o meu protesto.

Também compareceram duas representantes do Instituto Nacional para a Reabilitação, a pedido dos membros do seu Conselho Diretivo. Do Gabinete do nosso Primeiro Ministro recebi a resposta que tinham encaminhado o assunto para o Ministério do T. Solidariedade e Segurança Social, e da presidência recebi um ofício que me deixou ainda com mais vontade de avançar. Confundiam Estatuto do Cuidador com Modelo de Apoio à Vida Independente. No último momento do protesto sou visitado pelo deputado do PSD, de Santarém, o distrito onde resido e sou votante, Duarte Marques.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA. EU NÃO DISSE QUE ELE VINHA? 
A segunda noite noite chegou, nada mudou. Eu na mesma posição, sem higiene e sem me alimentar. Desgaste mental estava a ser cada vez mais notório. Fome não tinha, dor de cabeça e olhos a arder sim. Pessoas não paravam de mostrar a sua solidariedade, os meu guardiãs firmes ao meu lado. Telefonemas e mensagens muitas, maioria devido ao posicionamento não conseguia atender. Sara Dias ex colega da faculdade, outra amiga incansável que esteve comigo do primeiro ao último minuto, fez o favor de me entregar um carregador de bateria portátil, para o telemóvel poder continuar a funcionar. De repente ouço um burburinho: é o presidente! É ele! Eu sabia que ele vinha! E vejo-o junto à rede que nos separava a chamar pelo meu nome.
Presidente da República. Imagem Sara Dias
Estico-lhe a mão como fiz com todas as outras visitas, alguns dos seus dedos passaram pelos buracos da rede e tocaram nos meus, informei-o sobre as razões do protesto, entendeu e informou-me que tinha convidado a Srª Secretária de Estado da Inclusão para conversarmos. Que tinha de haver uma solução. Sai e vai recebê-la á saída do carro que a transportava, e surgem de braço dado como sendo o seu guia. Recebi-a, conversamos de uma maneira mais acesa, algo que me desagradou e mostrei-o no momento. Srº Presidente continuou a pedir calma e a apelar ao diálogo, inclusive caso fosse necessário prontificou-se a estar presente na reunião a agendar. Pedido aceite por ambas as partes.
PR e Sec. Estado. Imagem Sara Dias.
Humanidade, respeito, serenidade, objetividade, simpatia, simplicidade, isso mostrou o nosso Presidente da República. Ninguém ficou indiferente ao seu gesto e presença, mas principalmente maneira de lidar com a situação naquele momento, e naquelas circunstãncias. Perante o seu gesto e esforço, resolvi suspender a ação de protesto. Na altura a abertura e postura da Srª Secretária de Estado não foi a melhor. Facto que me fez pensar por momentos em não desmobilizar. Mas como praticamente todos me aconselharam a fazê-lo, e porque sempre desejei ser solução e não problema, fi-lo.
PR e SE


QUERO UM SELFIE COM O PRESIDENTE GATO! 
Dias antes, tinha estado presente na gala comemorativa dos 15 anos da Associação Salvador, onde fizeram o favor de me atribuir o prémio de mérito “Comunidade” pelo meu ativismo. O convite informava que a gala teria o alto patrocínio do Srº Presidente da República. A Rafaela Fialho, é o meu apoio nestas saídas, e logo começou a dizer que o que mais queria era uma selfie, mas o desgosto foi grande porque o Presidente esteve ausente, e só apareceu em vídeo. Selfie nada. Quando vejo o Presidente a despedir-se, imaginei que a Rafaela tinha conseguido a selfie sonhada, mas na dúvida resolvi informar o Presidente do seu sonho, não fosse ele mais uma vez ficar por realizar. Ainda bem que o fiz, a Rafaela sabe-se lá porquê, tinha achado que incomodava, e não teve coragem de solicitar a bendita selfie. Mas de imediato o Presidente a chamou, de um só pulo lá estava ao seu lado, e a selfie aconteceu à primeira. Logo ela que todas as fotos só estão ao seu gosto a partir da meia dúzia para lá. Desta vez estava ótima. Rafaela conseguiu a sua selfie com o Presidente da República, ficou muito feliz, e eu ainda mais por ela. 
Rafaela Fialho e o Presidente da República


E AGORA COMO SAIO DAQUI? 
Olho e vejo o meu enfermeiro Tiago Barbosa, e o meu fisioterapeuta Pedro Oliveira, vindos da Chamusca para me visitar. Logo pensei: são eles que vão ajudar a desmontar a jaula e levar-me de volta para a Carregueira, que ainda fica a mais de 100 km. Assim aconteceu, e com o apoio de muitos, tudo foi desmontado, e por volta da meia noite já me encontrava no lar do Centro de Apoio Social da Carregueira.
Pedro Oliveira e Tiago Barbosa. Imagem Sara Dias.

SORTE
Tive muita sorte. Não choveu. Protegeram-me do frio. Motoristas aparecerem sem esperar. Jornalistas deram-me voz. Sociedade entendeu a mensagem que tinha para passar. Presidente da República mostrou que também sente afetos por nós. Não criei nenhuma escara. Decreto Lei foi alterado e notou-se um pequeno avançar do processo implementação Modelo de Apoio Vida Independente.

APROVEITEM 
Tenho recebido informações que muitas pessoas somente tiveram conhecimento da assistência pessoal através da ação. Aproveito para informar que caso desejem candidatar-se ao apoio de assistência pessoal, devem procurar um destes Centros de Apoio à Vida Independente (CAVIS) na vossa região e inscrever-se. https://tetraplegicos.blogspot.com/2018/05/lista-de-cavis-centros-de-apoio-vida.html

HERÓI 
Conseguiste! És o nosso herói! Obrigado! São frases que me dirigem com frequência. Sinceramente sinto que nada mais fiz do que a minha obrigação. Faria tudo outra vez. Faz parte de mim não ficar em casa quieto, sem agir perante injustiças. Reajo, e esta foi a maneira que encontrei para o fazer desta vez. Nada mais que isso. Venci? Não se trata disso. Não há vencidos e nem vencedores. Senti-me injustiçado, reclamei, fui ouvido, entenderam que tinha razão, e foi feito justiça. Expetativas: Não tenho. Só quando me encontrar na minha casa, ou outro local escolhido por mim, a viver com quem quero, como quero, com direito a assistência pessoal, autónomo, a sentir-me dono da minha vida, é que sentirei o meu dever cumprido. Por enquanto foi dado só mais um passo nesta batalha titânica que parece não ter fim.

A REUNIÃO 
Aconteceu nesta última 5ª feira, pelas 11h00 no Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, em Lisboa. Na presença da Srª Secretária de Estado e a sua equipa, e fiz-me acompanhar pela Diana Santos, representante do Centro de Vida Independente (CVI) de Lisboa, Luís Quaresma a representar a Federação das Doenças Raras de Portugal, e o Sérgio Lopes pertencente á Mithós Histórias Exemplares e CVI Lisboa, responsável pelo cartaz a anunciar a ação, e também juntamente com o Tó Silva, meu presidente Duarte Arsénio, os primeiros e únicos a conhecer os meus planos e a aturar-me durante dias. Ao contrário do encontro agressivo junto à Assembleia da República, notório em várias filmagens a circular pela internet, a reunião decorreu num clima de cordialidade e respeito. Uma postura completamente diferente da parte da Srª Secretária de Estado, e que registei com muito agrado. Espero que a nossa relação volte ao respeito e até amizade como acontecia no início da sua tomada de posse. Da minha parte tudo farei para que isso aconteça. Sempre me regi pelo respeito e tolerância. 
Após a reunião


O MEU LAR
No início senti algum receio de acharem que estava a lutar contra o lar do Centro de Apoio Social da Carregueira, local onde trabalho e vivo. Esta instituição deu-me tudo. Devo-lhes muito. Não poderia ser melhor tratado, mas felizmente entenderam que a minha luta é contra a institucionalização compulsiva como única alternativa. Queremos decidir com, como, e onde viver. 
Centro de Apoio Social da Carregueira


AGRADECIMENTOS 
A todos que desde a primeira hora estiveram ao meu lado, principalmente Rafaela Fialho, muito, mas mesmo muito obrigado.

O protesto na comunicação social.

Eduardo Jorge

Centro de Apoio Social da Carregueira, dezembro de 2018

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O jovem que comoveu Eduardo e a rosa que simboliza esta luta

Eduardo Jorge esteve durante dois dias sem comer, em vigília em frente à Assembleia da República. Dizia que só aceitaria ajuda do Presidente da República, primeiro-ministro ou ministro do Trabalho. Na véspera do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, Marcelo apareceu.


A noite não foi fácil. No segundo dia de protesto, "o frio e o barulho” impediram Eduardo Jorge de pregar olho. Deitado dentro de uma gaiola em frente à Assembleia da República, o ativista tetraplégico, de 56 anos, luta pela implementação do projeto de Vida Independente.

Reportagem em video

Foi um acidente de carro, em 1991, que lhe roubou a mobilidade. 27 anos depois, recusa-se a cruzar os braços e exige o direito a um assistente pessoal “que será, no fundo, os nossos braços e as nossas mãos”.

Com 90% de incapacidade, Eduardo desafiou o Presidente da República, o primeiro-ministro e o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social a cuidarem dele, “para que no terreno verificassem as dificuldades que nós enfrentamos e o trabalho que damos”.

António Costa e Vieira da Silva não responderam ao desafio. O Presidente da República “confundiu o estatuto do cuidador com o projeto Vida Independente”, garantia Eduardo à Renascença na tarde deste domingo.

Horas mais tarde, já de noite, e sem que a agenda do Presidente o fizesse prever, Marcelo Rebelo de Sousa apareceria junto à Assembleia, acompanhado somente da secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes. Conversou longamente com Eduardo e o ativista abandonaria a jaula e local pouco depois, terminando assim o protesto.

“Eu vi que tinha leis e direitos. Isso transformou-me completamente”

Depois do acidente que o deixou numa cadeira de rodas, frequentou vários centros de reabilitação e regressou a casa, ao fim de um ano, “sem apoio”. Durante vários meses assim permaneceu, sozinho. Desconhecia os seus direitos.

Tudo mudou quando “a internet chegou ao interior”. Eduardo navegou no mundo digital e descobriu que nem só de deveres se faz a legislação. Criou o seu próprio blog, “Nós Tetraplégicos”, e rapidamente começou a partilhar as “descobertas”.

“Hoje eu entendo que a Constituição me defende como defende os outros cidadãos. Eu sou um cidadão de plenos direitos”, explica.

Formado em serviço social, o ativista trabalha no lar onde está institucionalizado. Quer regressar a casa, onde se "sente bem", mas para isso é preciso que o governo avance com o projeto Vida Independente.

“É uma violência psicológica muito grande. Eu não gosto desta exposição. Detesto esta humilhação, tipo um animal de circo. É horrível”, garante.

Não é a primeira vez que protesta. Em 2013 fez uma greve de fome em frente ao Parlamento. Há cinco anos a luta era mesma.

No ano seguinte, 2014, percorreu 180 quilómetros, de Abrantes a Lisboa, na sua cadeira de rodas.

"Antes de me virar para estas formas de protesto radicais, eu já fiz tudo. Já reuni com os grupos parlamentares, já contactei os canais normais. Só que como não há resultados eu opto pela única ferramenta que tenho: o meu corpo e a minha exposição", esclarece.

"Só os deputados Jorge Falcato, do Bloco de Esquerda, e Idália Serrão, do Patido Socialista, é que me contactaram", acrescenta.

O jovem que comoveu Eduardo e a rosa que simboliza esta luta

Eduardo Jorge não está sozinho. Durante a noite de sábado, e ao longo deste domingo, esteve sempre acompanhado por amigos que “lutam pela mesma causa”. “Há muita gente boa que me acompanha. É muito muito interessante”, garante.

Muitos deles enfrentam diariamente os mesmos desafios, outros veem neste ativista, natural de Concavada, em Abrantes, uma resiliência admirável.

Francisco Maio, de 28 anos, veio de propósito para lhe agradecer. Com algum esforço, coloca a mão dentro da gaiola para entregar uma rosa vermelha a Eduardo. Francisco não é capaz de falar, mas o gesto emocionou o homem que protesta há já dois dias.

“Oh Chico, agora emocionou-me”, diz o ativista, que repete agradecimentos. “Não é por nada, é para saber que não está sozinho”, reponde a mãe de Francisco, Rosa.

[Notícia atualizada às 23h15 com a informação de que Marcelo Rebelo de Sousa se encontrou com Eduardo Jorge e o protesto terminou].

Fonte: Rádio Renascença