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sábado, 19 de setembro de 2020

Até ao fim. Morrer com dignidade

Morreu mais um português por suicídio assistido na Suiça. É o oitavo cidadão nacional a recorrer aos serviços da Associação Dignitás. 

Luís Marques tinha de 63 anos, estava paraplégico há 55 e percorreu mais de dois mil quilómetros para concretizar uma morte assistida negada em Portugal.

A RTP acompanhou esta que foi a última viagem de Luís Marques.

A reportagem Até ao fim, de Paula Rebelo e Pedro Miguel Gomes, pode ser vista na íntegra no programa Linha da Frente.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Tetraplégico que pede morte assistida espera que lei avance rapidamente

Foi com alívio que Luís Marques, o tetraplégico de 63 anos que pede a morte assistida, viu a aprovação da despenalização da eutanásia. Acompanhou o debate e votação com grande expetativa e espera agora que lei seja rapidamente regulamentada e aplicada.

domingo, 13 de outubro de 2019

Tetraplégico consegue andar graças a um exoesqueleto


Um homem tetraplégico conseguiu caminhar e fazer movimentos com os braços através de um exoesqueleto controlado pela própria mente. Um pequeno passo, que abre gigantes perspetivas para o futuro das pessoas presas a uma cama.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Ficou tetraplégico com um tiro mas hoje é campeão de surf adaptado

Nuno Vitorino passa grande parte do tempo na praia de Carcavelos. Não passa despercebido entre o pessoal do surf, seja pela simpatia e boa disposição, seja por ser o primeiro atleta de surf adaptado a aparecer por aquelas bandas.


Tem 42 anos mas ninguém diz. "É a água que conserva", atira. Passou os últimos 20 anos numa cadeira de rodas devido a um acidente com uma arma. "Eu disse para o meu amigo: «queres dar um tiro, já que nunca deste um tiro, só para ouvires o barulho?». Ele não sabia que a arma estava carregada e disparou e acertou-me no pescoço", recorda.

A bala acertou-lhe na cervical e, aos 18 anos, ficou tetraplégico. "Quando sofri o acidente, disse ao meu amigo que o acidente não ia ser um casamento para o resto da vida. Obviamente os traumas psicológicos estão cá." Nuno Vitorino teve dois anos difíceis de reabilitação. Foi também um tempo de luto que se transformou em esperança, já que a lesão - uma tetraplegia incompleta - permitiu-lhe recuperar algum movimento de braços no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão.

"Eu tive uma médica muito importante no meu percurso. Foi a doutora Maria da Paz que me disse: «Nuno, esquece. Nunca mais vais voltar a andar na vida, mas otimiza o bom que tens que são os teus braços. A partir daquele momento, em 1995, por muito que me custasse ouvir isto - e custou-me - eu percebi que ela tinha razão e comecei a trabalhar os meus braços».

Da natação ao surf
Antes de se dedicar ao surf, Nuno foi atleta paralímpico de natação, uma modalidade que sempre fez parte do seu dia-a-dia. "De facto, ser um atleta não é fácil."

Nuno queixa-se da falta de apoios, mas admite que o mais importante é a paixão pelo desporto. "A paixão está cá. Um atleta não pode ser atleta pela questão financeira. Um atleta tem que ser atleta pela paixão. Por isso é que Portugal é tão vencedor nos paralímpicos e no desporto adaptado. Todos nós temos muita paixão pelo que fazemos. E isso leva-nos a ganhar medalhas. A diferença não está no treino, nunca esteve no treino. A diferença está em querer mais e eu sou um atleta que tem sempre fome, tenho sempre fome de ganhar".

Ganhou muitas medalhas durante oito anos até perder o entusiasmo pela natação de competição. "Isto custa muito. Dói. Levantar às cinco da manhã para ir treinar, voltar à noite para o treino. Eu treinava quatro quilómetros por dia. Tenho nos meus ombros mais de 30 mil quilómetros. É muito." Com o fim da carreira nas piscinas, sentiu o chamamento do mar. "Um dia que estava nesta praia de Carcavelos e comecei a sentir um grande incómodo na minha barriga ao ver os outros a surfar."

Nuno Vitorino queria competir mas, desta vez, encontrou uma modalidade que ainda não estava preparada para receber atletas tetraplégicos. "Não havia nada disto no mundo. A partir daí e até hoje, nós nunca mais paramos. Eu fui sempre surfar. Fundei uma associação que é Associação Portuguesa de Surf Adaptado, em que colocamos, de Norte a Sul do país, outras pessoas com patologias dentro de água. O desporto agora é democrático. O surf é democrático. Dá para todos."

Em Viana do Castelo para ser o melhor
A Federação Portuguesa de Surf abriu as portas para os atletas com deficiência há quase cinco anos. O presidente, João Jardim Aranha, explica que a chegada de Nuno marcou o início do surf adaptado na federação. "O Nuno foi alguém que se apresentou desde o início como muito interessado. Já treinava, já mostrava um trabalho físico regular e um trabalho de treino regular. Por outro lado, é um atleta que vem dos paralímpicos de natação. É uma pessoa com uma história no desporto."

A federação tem cerca de 900 atletas, seis deles fazem parte da modalidade de surf adaptado. João Jardim Aranha admite que é pouco. "Não tem havido uma adesão como nós gostaríamos." João Jardim Aranha acredita que o Campeonato Europeu de Surf Adaptado, a decorrer em Viana do Castelo, pode ajudar a divulgar a modalidade, já que Portugal tem quatro atletas em competição.

Um deles é Nuno Vitorino, quarto melhor atleta do mundo na modalidade. O surfista, que foi o primeiro português a participar no Mundial de surf adaptado, não esconde que está na Praia do Cabedelo para se bater pelo primeiro lugar. "Eu tenho obrigação de não sair em quarto lugar, nem em terceiro, nem em segundo".

O EuroSurf Adaptive 2019 é organizado pela Câmara Municipal, pelo Surf Clube de Viana, Federação Europeia de Surf, Federação Portuguesa de Surf, Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência, Instituto Português do Desporto e Juventude e pelo Comité Paralímpico de Portugal.

Fonte e reportagem em áudio: TSF

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Sueca recebe primeiro implante de "mão biônica" do mundo

Pela primeira vez no mundo, especialistas implantaram, de modo permanente, uma prótese para mão sensível ao toque e que reconhece objetos, semelhante a natural, em uma sueca de 45 anos de idade. A intervenção cirúrgica foi realizada no Hospital Universitário Sahlgrenska, em Gotemburgo, pelos especialistas Richard Brenemark e Paolo Sassu. A expectativa é de que em poucas semanas a paciente possa usar a "mão biônica" diariamente.


O equipamento foi desenvolvido graças ao projeto europeu "DeTOP", liderado por Christian Cipriani, da Escola Superior Sant'Anna de Pisa, na Itália, que conta com a ajuda de especialistas do Politécnico de Lausanne, na Suíça, além de pesquisadores da Universidade de Freiburg, na Alemanha. A mulher, que teve sua mão amputada em 2002, participa de um programa de reabilitação, para recuperar a força nos músculos do antebraço, e de realidade virtual, para aprender a controlar a mão robótica.

"Graças a esta interface homem-máquina tão precisa e graças à habilidade e sensibilidade da mão artificial, nós esperamos que a alguns meses a mulher reconquiste funcionalidades motoras e perceptivas muito semelhantes as de uma mão natural", observou Cipriani.

Nos ossos do antebraço da mulher foram implantadas estruturas de titânio como uma ponte entre os ossos e as terminações nervosas de um lado e a mão robótica do outro. Graças a 16 eletrodos inseridos nos músculos, foi possível estabelecer uma ligação direta entre a prótese e o sistema nervoso. Desta forma, a mão robótica pode ser controlada de uma forma mais eficiente, além de permitir restaurar o sentido do tato.

O projeto do implante foi financiado pela Comissão Europeia no âmbito do programa Horizonte 2020. As universidades suecas de Lund e Gotemburgo, a britânica de Essex, o Centro Suíço para Eletrônica e Microtecnologia, a Universidade Campus Bio também estão participando do projeto.

Além delas, há a contribuição da Universidade Biomédica de Roma, o Centro de Prótese do Instituto Nacional de Seguro contra Acidentes de Trabalho (Inail) e do Instituto Ortopédico Rizzoli de Bolonha. Segundo Cipriani, o grupo já está trabalhando para realizar outras duas intervenções similares na Itália e na Suécia.

Fonte: Época

domingo, 13 de janeiro de 2019

domingo, 16 de dezembro de 2018

Os meus problemas

Ao olharem para mim, muitas pessoas pensam que tenho uma vida cheia de problemas e com pouca saúde.
É verdade que quando tive o acidente muitos problemas de saúde se lhe sucederam. Problemas respiratórios, problemas de pele e facilidade em fazer feridas, quebras de tensão sucessivas, adaptação a uma nova vida, reaprender a fazer tudo, etc.

Ainda tenho que estar atento a alguns problemas, mas depois de estabilizar todas essas situações, reparei que foi aí que começaram os verdadeiros problemas que me iam acompanhar por muitos mais anos.

Problemas tenho todos os dias para me lavar, vestir e levantar para a cadeira. Não porque seja uma das mazelas da minha lesão, mas sim porque tenho que estar dependente de familiares ou amigos para que isso seja possível, ou sujeitar-me a que todos os dias venham uma ou duas pessoas diferentes para me tratar e levantar às horas a que lhes dá jeito e com o tempo cronometrado para logo de seguida irem tratar de mais outras pessoas dependentes. Porque em Portugal ainda não existe Vida Independente para que eu tenha a liberdade de decidir quando e como quero fazer todas estas e outras necessidades do meu dia-a-dia, em vez de estar dependente de familiares ou ter que vir a ser institucionalizado.

Problemas tenho quando quero andar de transportes públicos e não posso, ou sou discriminado quando não existem autocarros preparados para pessoas com mobilidade reduzida, ou, nos que existem, muitas vezes se encontram as rampas avariadas ou a falta de formação dos motoristas. Problemas quando quero andar de comboio e me obrigam a fazer uma marcação prévia com 24h para me deslocar, qualquer que seja o meu percurso. Problemas quando quero apanhar um táxi e tenho que me informar se está disponível o único que se encontra preparado no concelho de Vila Franca, ou mesmo em Lisboa, de tal modo que chego a esperar por um táxi adaptado por mais de 1h e ainda ter que pagar uma taxa de 0.80€ por ter feito o pedido. Porque não existe uma Lei que obrigue a que os autocarros sejam registados já com o equipamento devido, a que os comboios e estações não ofereçam dificuldades e discriminação às pessoas com deficiência, ou que as Câmaras Municipais alterem as licenças de táxis, não acrescentando mais, mas adaptando as já existentes para que mais táxis adaptados possam circular nas ruas.

Problemas tenho quando quero circular livremente e em segurança pelos passeios e passadeiras, mas continuam a fazer passadeiras mal niveladas e sem se pensar nas pessoas com mobilidade condicionada. Passeios sem respeitar o peão, mas sim inclinados e a privilegiar as entradas de garagens, com insistência na calçada irregular e sem qualquer simbolismo histórico ou de património. Problemas quando quero tratar de algum documento ou assunto nas finanças, segurança social, etc., e os edifícios não estão preparados para receber alguém com mobilidade reduzida. Quando existe uma lei que obriga a que todos os edifícios e espaços públicos tenham que estar preparados, até inicio de Fevereiro de 2017, para receber pessoas com mobilidade condicionada e nada foi feito até agora, mas continuamos a ver novas construções sem as regras exigidas por lei.

Problemas tenho quando quero ir a um restaurante e não encontro nenhum com as condições necessárias de acessibilidades para eu me poder deslocar lá dentro. Ou os que existem, têm mesas pequenas onde nem as cadeiras de rodas cabem porque preferiram reduzir o tamanho das mesas para que o número de clientes seja maior, transgredindo uma lei que limita o número de clientes sentados por m2 dentro dos estabelecimentos. Quando quero ir ao cinema ou a outra sala de espectáculos e o número limite para cadeiras de rodas chega a ser apenas de 1 e não posso ir acompanhado com outro amigo em cadeira de rodas; isto quando a lei exige um mínimo e nunca um máximo de lugares para pessoas em cadeiras de rodas; e continua a faltar bom senso na altura de resolver estas situações.

Problemas tenho porque recebo uma pensão mínima de invalidez. Não, não que eu ache que tenha que ser o Estado a pagar-me mais para eu estar em casa. Mas sim que tenha melhores condições para eu poder ingressar no mercado de trabalho, com todo o direito que tem um cidadão ‘’normal’’, receber o ordenado justo consoante as minhas funções e continuar a fazer os meus descontos para poder vir a ter uma reforma mais digna. Só assim me posso sentir incluído na sociedade.

Problemas?!

Não, não tenho problemas com as minhas condições.

Mas sim com as condições que me dão…

(Portugal é um dos 127 países que aprovou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Trata-se de um marco histórico, representando um importante instrumento legal no reconhecimento e promoção dos direitos humanos das pessoas com deficiência e na proibição da discriminação contra estas pessoas em todas as áreas da vida, incluindo ainda previsões específicas no que respeita à reabilitação e habilitação, educação, saúde, acesso à informação, serviços públicos, etc. Simultaneamente à proibição da discriminação, a Convenção responsabiliza toda a sociedade na criação de condições que garantam os direitos fundamentais das pessoas com deficiência. Como poderá ser verificado no Instituto Nacional para a Reabilitação.)

Fonte: Gaibéu

sábado, 6 de outubro de 2018

"Um tetraplégico é um cérebro sem corpo". Livro "Cartas do Inferno" de Ramón Sampedro

Após ter visto o filme “Mar Adentro”, sobre a vida do tetraplégico Ramón Sampedro, e a sua luta obcecada pela sua morte assistida, fiquei com muita curiosidade em ler o livro da sua autoria “Cartas do Inferno”, onde nos explica como é viver o seu inferno, mas como tem estado fora de circulação, só agora o consegui encontrar e ler.
Os seus dramas, são na maioria também os meus. Revejo-me quase na totalidade no que escreve. Mostra-nos uma vida dramática e cruel, e a sua luta pelo direito a ter uma “boa morte”, como tantas vezes assinala, foi o que o moveu durante anos. Felizmente consegui-o, a ele agradeço a coragem, o testemunho que nos deixou e o modo claro como o fez.

Destaco algumas das frases do livro que mais me impressionaram:

1. “A falta de liberdade e de movimento é como estar morto e ter consciência do facto.”

2. “O meu sofrimento é a falta de liberdade, e a liberdade não é substituível por coisas ou por histórias.”

3. “Um tetraplégico é um cérebro sem corpo”.

4. “Sobreviver em circunstâncias em que é preciso procurar forças fora de si próprio é sintoma de debilidade mais do que de força. A força ou os recursos psicológicos devemos achá-los sempre dentro de nós próprios.”

5. “Para voar são precisas asas. E para andar, um corpo que nos leve onde os sonhos querem chegar”.

6. “Não posso exprimir o amor à mulher como deseja o meu cérebro. Ela diz que com a minha boca lhe basta. Que lhe basta a minha forma de ser para se sentir plena e satisfeita. Contudo, sinto que tem saudades do meu sexo, da forma que ele tinha, da minha maneira de interpretá-lo e de vivê-lo com outras mulheres, que ela diz continuar a imaginar. Assegura-me que a minha ternura lhe basta para se sentir mulher. Mas a mim, não. Sentimos como mulheres e homens através dos nossos corpos. Muitos não entendem o que significa não entender nada sexualmente.”

7. “Os humanos andam há tanto tempo escravizados que já perderam a dignidade. Entregaram a consciência aos heróis, aos deuses aos chicos espertos. Esqueceram-se que cada um deles é um herói, um deus, um soberano. Quando lhes pergunta se querem ser donos de si próprios, a maioria diz que sim, mas fazem-no a medo. Não se põem de pé para reclamar tal direito. Ficam eternamente ajoelhados. Não se atrevem a pensar, como lhes aconselham os verdadeiros mestres.”

8. “A vida tem de ter um sentido. E tem sentido enquanto esperamos alguma coisa . Quase nunca, ou nunca, sabemos o quê, mas enquanto dispomos de um corpo sensível e vivo que nos possibilita desfrutar do sentido da liberdade que nos dá o seu movimento, teremos sempre a sensação de poder ir de um horizonte ao outro, em busca dessa coisa indefinida é maravilhosa que nos libertará da rotina e do monótono cansaço de lutar para viver de uma maneira normal.”

Assim como o Ramón Sampedro, também eu tenho as minhas cartas escritas na memória sobre o meu inferno, assim como o Ramón, detesto esta vida incompleta, mas ao contrário do Ramón, não desisti da procura de uma vida em pleno. Tudo tenho feito ao meu alcance para a conseguir.

Se não conseguir essa vida digna, assim como o Ramón, vou tentar conseguir a minha “morte boa”. Ou se vive, ou não se vive. Fazer de conta que se vive é morrer todos os dias.

Eduardo Jorge

domingo, 15 de julho de 2018

Mar Adentro: o papel do cuidador de indivíduos tetraplégicos

Um dos filmes mais tocantes de todos os tempos, Mar Adentro aborda a complexa questão da eutanásia de maneira bastante profunda. Narra a história de um homem que, ao mergulhar de cima de uma pedra em uma praia rasa, lesiona sua coluna na região cervical e se torna tetraplégico. Cuidado pelo irmão, anos após o acidente decide terminar com sua vida.


O problema é que ele não tem possibilidades de se suicidar sem o auxílio de terceiros, uma vez que lhe faltam os movimentos de braços e pernas. Aqui já surge uma questão interessante: o indivíduo que ajuda alguém a se matar comete homicídio? Esta parece ser a interpretação legal nos países em que a eutanásia é criminalizada. Mas não vamos nos deter neste ponto dada a complexidade da questão.

Como é de se esperar, as pessoas próximas tentam convencê-lo do absurdo que intenta. Os diálogos com o irmão e com um padre, este também restrito em uma cadeira de rodas, são os pontos altos do filme. Tais debates demonstram cada ponto de vista de maneira bastante sólida. Todos parecem ter razão e nos fazem questionar nossas próprias perspectivas.

O suicídio sempre foi um assunto difícil de assimilar em nossas sociedades. Entre outros, castigos Divinos são prometidos por toda a eternidade a quem comete o ato; punições das mais diversas já estiveram presentes nas constituições – não somente para o suicida, como a “profanação” do corpo, mas para a família, pelo impedimento da realização dos ritos de sepultamento, aplicação de multas e retirada de direitos e propriedades.

São muitos os motivos que aparecem como origem do repúdio ao suicídio, entre eles o medo do “contágio” e o contato com a ideia de morte pela desvalorização da vida. Ver que alguém opta por se eliminar em vez de continuar “lutando” nos assusta quando não encontramos em nós convicções claras em relação aos nossos próprios passos. É um ato que nos esfrega na cara a realidade de que a vida pode não ser tão bela quanto se prega por aí, que nos indica que aqueles que ficam não são importantes o suficiente para fazer valer a vida de quem dela se desprendeu, enfim, que deixa transparecer as fragilidades de ser humano em sua finitude e despropósito.

Para muitos, o valor da vida está intrinsecamente ligado às obras que realiza, às possibilidades de se ver reconhecido na materialidade de suas ações. Ao indivíduo tetraplégico fica saliente a ideia de impotência. Não que seja impotente de fato, mas as restrições que sua condição lhe impõem são tantas e tão severas que qualquer ação, para ser possível, requer grandes adaptações.

Se a realização pessoal está na concretização, a impotência é a maior ameaça à dignidade. Não poder fazer talvez signifique não poder ser e a falta de perspectiva que resulta daí é, em alguns casos, a morte em vida. Nestes extremos, o suicídio poderia ser, então, uma libertação.

No filme, o protagonista encontra um grupo de simpatizantes ao seu direito de extinguir sua própria vida e que o auxiliam nesta tarefa, o que pode parecer chocante para muitos. Mas, impedi-lo à conclusão deste ato não atesta a impotência de que tenta escapar? Afinal, se um indivíduo perfeitamente funcional pode se suicidar a qualquer momento, por que tal “direito” deveria negado a quem se vê restrito?

A dependência a que se vê condicionado é, muitas vezes, outro fantasma que povoa os pensamentos de quem sofre a tetraplegia. É comum sentir-se um fardo, uma vez que suas limitações impõem a outros presença constante, como se a condição de sua existência fosse a anulação daqueles que se dedicam aos seus cuidados. A culpa pode ser uma oponente devastadora.

É importante mencionar, apesar de ser mais evidente, a raiva que pode abater o indivíduo pela dificuldade de aceitar as restrições. O protagonista possuía uma vida antes do acidente diferente da que pode constituir futuramente. São tantas as mudanças que o espectador não pode pretender compreender senão uma pequena parte do sofrimento atrelado.

Por mais que a situação da tetraplegia seja complexa, há formas de transcender às suas limitações. Quanto à culpa pela dependência, deve-se notar que muitas pessoas encontram no cuidado a terceiros sua finalidade de vida. Nestes casos, o indivíduo cuidado não deve se enxergar como fardo, mas como solução, como “objeto” promotor da realização do outro.

Quanto às realizações do indivíduo tetraplégico, é necessário compreender que mudam de natureza mas não têm, necessariamente, reduzido seu valor. Um indivíduo que concebe um livro não realiza menos quando o tem escrito pelas mãos de terceiros, por exemplo. Fosse assim, nenhuma obra teria valor a qualquer agente, uma vez que ninguém, por mais autônomo que seja, consegue realizar algo completamente sozinho e livre de influências. Somos seres sociais e constituídos pelas trocas.

Assim, há muito para concretizar na simbiose, na interação com o cuidador e auxiliado por seus instrumentos. Para isso, cuidar precisa ser mais do que oferecer o necessário para existir, mas se tornar uma relação capaz de realizar aquilo que o indivíduo é em potência. Desistir é sempre uma opção, mas é só na construção que se pode sentir o gosto da superação.

Escrito pela Psicóloga Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.

Fonte: i9vadore

sábado, 2 de junho de 2018

Aventuras noturnas de um tetraplégico: O pau ou os óculos?

Por João Rodrigues no Deficientezinho

São quase 2h da manhã e estou a ver Dr House na Netflix. Estava com comichão ao lado do olho esquerdo e tive uma ideia brilhantemente parva. Em vez de colocar o pau no suporte e coçar-me no pau (o pau que uso para escrever), pus o pau entre o meu braço esquerdo e o meu peito. Obviamente que ia dar merda.

Consegui coçar perto do olho e fiquei satisfeito dessa parte. No entanto, o pau começou a escapar para o lado. Estava a ficar fora do meu alcance. Tentei esticar a língua, tentei usar os fones para o puxar para mim… Mas nada resultava. Não podia usar o bom velho truque do fio dos fones porque estes meus novos fones são wireless…

Até que tive uma ideia estupidamente brilhante! Que tal eu tirar os óculos e puxar o pau usando uma haste dos óculos? Pareceu-me genial, mas percebi logo que ia haver uma baixa… Eu ia perder os óculos porque não ia conseguir coloca-los de novo. São óculos novos e ainda não treinei a parte de os colocar novamente nos olhos.

Fiz como a Fátima Campos Ferreira. Fiz um levantamento dos prós e contras. Ou neste caso, os prós de salvar cada um destes dois.

Prós de salvar os óculos (deixando cair o pau):
- Estava a ver a série na Netflix, logo não ia precisar do pau porque assim que um episódio termina, o seguinte começa automaticamente;
- Sem óculos eu ia ter algumas dificuldades em ler as legendas.

Prós de salvar o pau (deixando cair os óculos na mesa):
- Alguém podia falar para mim, e eu iria querer responder à pessoa;
- Podia não perceber algo no episódio e precisar de voltar atrás;
- Podia aparecer uma mosca no meu braço e eu ter de a enxotar;
- Podia acontecer algo grave e eu ter de ligar para o 112.

“Ver ou não ver?”
“Escrever ou não escrever?”
“Eis as questões…”

Pareceu-me que manter o pau e sacrificar os óculos seria o mais sensato. O plano era atirar os óculos para cima da mesa, mas não foi assim que esta epopeia terminou…

Iniciei a operação. Tirei os óculos, segurei uma das hastes na boca e puxei o pau para cima. Foi um sucesso! Estava com a haste na boca e o pau também na boca. É difícil segurar duas coisas ao mesmo tempo. Tentei pousar o pau no suporte para poder atirar os óculos para cima da mesa, mas os óculos caíram-me da boca!!!

Consegui que ficassem pendurados no pau. Agora, era preciso levantar o pau sem os deixar cair e pousá-los na mesa. Obviamente que falhei miseravelmente nessa missão. Os óculos caíram ao chão e arrepiei-me porque era a primeira vez que eu os estava a deixar cair.

Este sacrifício não foi em vão, pois pude conversar com uma amiga, escrever este belo texto e ver o resto de Dr House. Só tive de pôr o Word em zoom de 160% e o Google Chrome em zoom de 175%. Nada mais… Agora só tenho de ter cuidado e não pisar os óculos quando for dormir…

Amanhã conto-vos como isso correu…

PS: A amiga era a Joana Mendes. :)

Fonte: O Deficientezinho

domingo, 27 de maio de 2018

“A cabeça sem corpo” de Ramón Sampedro levou debate sobre eutanásia dos ecrãs para as ruas

O caso do tetraplégico espanhol Ramón Sampedro colocou o debate sobre a eutanásia nos ecrãs do mundo, através do filme “Mar Adentro”, e levou a discussão das televisões para as ruas. A associação espanhola Direito a Morrer Dignamente considera que o caso de Ramón Sampedro foi “muito importante porque levou o debate sobre a eutanásia a toda a população”, segundo uma resposta da organização enviada à agência Lusa.

“Sou uma cabeça sem corpo”, afirmava Ramón Sampedro, que em 1968 ficou tetraplégico, na sequência de um mergulho na praia, ficando com uma imobilidade total do corpo, exceto da cabeça.

Ramón Sampedro tornou público o seu desejo de morrer no início de 1990, mas só oito anos depois conseguiu um suicídio assistido, através da ajuda de uma amiga, tendo gravado um vídeo da sua morte que foi divulgado nas televisões e voltou a despertar a sociedade para o debate sobre a despenalização da morte assistida.

A associação espanhola Direito a Morrer Dignamente lembra à Lusa que, graças à sua luta e às suas reivindicações, Ramón Sampedro contribuiu para que, em 1995, fosse aprovada uma reforma do Código Penal que reduziu as condenações em caso de eutanásia e de assistência ao suicídio. Para a associação, é difícil dizer qual o impacto que o caso teve de facto na sociedade espanhola, mas não tem dúvidas de que qualquer lei que seja um dia aprovada em Espanha incluiria casos como o de Ramón Sampedro.



Ramón Sampedro lutou durante cerca de três décadas pelo reconhecimento legal de ter ajuda a morrer com dignidade. Antes de se suicidar, Ramón Sampedro publicou, em 1996, um livro que é uma espécie de mistura entre uma autobiografia e um livro de poemas intitulado “Cartas desde o Inferno”.

Quase seis anos após a sua morte, chegou o filme baseado na sua luta, pela mão do realizador Alejandro Amenabar e interpretado pelo ator Javier Bardem. “Mar Adentro” ganhou diversões galardões, como 14 prémios Goya, os prémios mais importantes do cinema espanhol, e oOscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005.

No seu livro, que vendeu mais de 100 mil exemplares só em Espanha, Ramón Sampedro responde, em poesia, à pergunta “Porquê morrer?”: “Morrer é jogar uma única carta durante toda a nossa vida / É apostar tudo no desejo de encontrar uma estrela que nos dê um novo caminho”.

Fonte: Observador

domingo, 25 de março de 2018

As Pequenas Grandes Coisas da Vida - A Força De Um Jovem Que Acredita Que Todos Os Dias Podem Ser Bons

Henry Fraser tinha 17 anos quando um trágico acidente em Portugal lhe causou danos irreversíveis na medula espinal. Paralisado dos ombros para baixo, Henry conseguiu ultrapassar dificuldades inimagináveis e adaptar-se a uma nova forma de viver.


As Pequenas Grandes Coisas da Vida não só revela como Henry combina a sua sabedoria e visão pessoal para encontrar a capacidade de superar os desafios da vida, mas também é uma fonte de inspiração para aqueles que se confrontam com o infortúnio. Mostra-nos ainda a visão de Henry no que respeita à procura do lado positivo das coisas e ao aperfeiçoamento de tudo o que fazemos e à forma como é possível identificar e aceitar a adversidade. Na essência da filosofia inspiradora de Henry está o facto de ele acreditar que todos os dias podem ser dias bons.

Uma história real, com prefácio de J.K. Rowling.

Fonte e mais informações: Editorial Presença

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Um dos meus maiores sonhos é sentir-me livre no meu próprio país

Salvador Mendes de Almeida tem 35 anos e é fundador da Associação Salvador. Com o intuito de ajudar Portugal a ser um país com mais acessibilidades, continua a lutar pelos direitos das pessoas com deficiência motora e a proporcionar-lhes melhorias na qualidade de vida e no processo de reabilitação.


Quinze anos depois da fundação da Associação, Salvador deu uma entrevista ao Notícias ao Minuto, em que garante que é uma pessoa feliz e realizada, apesar de ainda acreditar numa cura, mas não de forma tão "vidrada" como quando era mais jovem.

Aprendeu a viver com as consequências do acidente de mota que teve aos 16 anos e que o deixou tetraplégico, e é um exemplo da sociedade portuguesa, tanto pela sua força de vontade e superação, como pela forma como ajuda os outros.

Aos 35 anos, salvaguarda que a Associação lhe traz um misto de sentimentos, frisando que dá muito a quem mais precisa mas que o sorriso e melhoria de vida dessas pessoas lhe dá muito a si também. Um sentimento mútuo que não o deixa baixar os braços.

A sua vida mudou naquele dia 2 de agosto 1998. O que recorda da noite do acidente?
Recordo-me de uma noite igual a tantas outras, com amigos, na flor da minha adolescência, sem pensar muito nisso mas achando que os acidentes e as coisas drásticas só acontecem aos outros. Já tinha caído de mota, já tinha caído a cavalo, era jogador de râguebi, partia-me todo e achava que a mim nunca me acontecia nada mas, de facto, é quando nós menos esperamos que as coisas acontecem. Mas, felizmente, não são só as coisas más que acontecem, também acontecem muitas coisas boas. A minha história é um bocadinho assim, ao início é difícil, há uma fase de adaptação, partir para um mundo desconhecido. Resta-nos ter o apoio da família, ajudou-me muito ter sido crente para me ajudar a procurar um sentido. À medida que me fui descobrindo, fazendo a minha vida, percebi que ainda havia muitas coisas para mudar e para fazer... E, em vez de assobiar para o lado e dizer que está tudo mal, foi um 'vamos lá fazer'.

Mas na altura acreditou que tudo voltaria à normalidade dentro de pouco tempo?
Sim, ao início sim.

A juventude ajudou a atenuar a situação ou, pelo contrário, tornou tudo mais difícil?
No meu caso, acho que ajudou a atenuar. No início, ajudou a atenuar porque com 16 anos a minha maturidade não era a de uma pessoa de 20 e muitos ou 30 anos, é diferente. Com 16 anos estava nos planos que, um dia, ia acabar o meu curso, formar-me, ser autónomo, independente, ter um trabalho que gostasse, mas não fazia planos a longo prazo.

O facto de ter tido o acidente jovem ajuda a lidar melhor com a situação, a relativizar. Mas a vida continua e também pensamos que, de facto, na altura do acidente era muito jovem, houve muita coisa que perdi, mas também houve muita coisa que ganhei. As pessoas que fui conhecendo, as oportunidades que tive de viajar, de conhecer outras realidades. E as pessoas que me acompanham, família, amigos e as pessoas novas que fui conhecendo desde que fundei a Associação.

Quando é que percebeu que a situação poderia ser mais definitiva do que passageira?
Passado três anos. Passado um ano ou dois anos já sabia que era uma situação definitiva e que podia vir uma cura, mas não sabemos quando ela vem. Hoje em dia fala-se muito em investigação, mas o que tenho aprendido é que temos de viver com aquilo que temos, com aquilo que conseguimos fazer e o meu foco tem sido esse.

Cinco anos depois do acidente, decidiu dar início à Associação Salvador. Em que momento decidiu que tinha de usar o seu exemplo para ajudar os outros?
Não foi bem a pensar no meu exemplo específico, mas a minha luta naquela altura foi em pesquisar coisas que faziam sentido para mim, para fazer desporto, para poder trabalhar, para haver mais acessibilidades e, felizmente, o meu pai teve a oportunidade de viajar para outros países e ver que havia outras realidades bem diferentes. Então, o nosso foco era muito esses, trazer para Portugal coisas que fizessem sentido. No início, a ideia da Associação até era angariar verbas para que não tivesse possibilidade de fazer reabilitação, poder fazê-la e de uma forma mais regular.

À medida que o tempo foi andando e que eu fui ao encontro desta realidade, vi que havia tantas coisas para fazer e foi assim que me tornei mais conhecido da sociedade.

O nome Salvador tornou-se incontornável na sociedade portuguesa por tudo o que tem feito na Associação à qual dá nome. Era muito novo quando a associação começou, foi o momento certo?
Era uma coisa que eu queria muito e pela qual sempre lutei. Tive sempre o impulso e o apoio do meu pai e, sem sombra de dúvidas, que sem ele não tinha condições nem força para chegar onde as coisas estão hoje. Acho que na vida, tal como os acidentes, cada coisa tem de acontecer na hora certa.

Lembro-me que alguma das coisas que me criava algum descontentamento é que criei a Associação em 2003 e só em finais de 2007/08 é que consegui constituir uma equipa que conseguisse desenvolver projetos e iniciativas capazes de ajudar pessoas com deficiência.

O que é que faltava?
Faltavam apoios, pessoas necessárias para desenvolver o projeto e só quando percebi que tinha de me dedicar e fazer uma coisa profissional que, de facto, a Associação arrancou para mudar vidas.

Para quem se depara com uma situação deste tipo, qual o apoio dado pela Associação?
Nós temos vários tipos de apoios, desde manual de informações, apoios diretos a pessoas que não têm forma ou acesso a ter uma cadeira de rodas, um andarilho, um computador ou casa de banho adaptada. A Associação desenvolve ao longo do seu ano um conjunto de iniciativas que apoiando pessoas com deficiência motora.

"Quero fazer de Portugal um país acessível a todos”, disse. Passo a passo, tem visto as diferenças no nosso país?
Acho que sim, tenho visto essa mudança, mas confesso que nunca esperaria que essa mudança demorasse tanto tempo, porque uma das coisas que mais me entristece e uma das barreiras que tenho mais dificuldades em lidar é a das acessibilidades, com a falta das acessibilidades e com a falta de sensibilidade das pessoas para lidar com este problema. Eu quero acreditar que as pessoas são sensíveis a este tema, mas depois no dia a dia há poucas pessoas a tomarem as medidas certas para mudarem esta situação.

Nós temos uma lei das acessibilidades que dura há 20 ou 30 anos e não há quem a fiscalize. Felizmente, vai havendo mais sensibilização e pessoas sensíveis a esse tema, fruto de muita ajuda da comunicação social, mas a mudança ainda demora.

Apesar da sensibilidade de cada um, tem de ser o Governo a ter mais medidas e a fiscalizar mais?
Sem sombra de dúvidas. Tem de ser o Governo a fiscalizar, mas todos nós enquanto cidadãos e participantes de uma sociedade, não podemos estar à espera das leis e que o Governo anda com uma arma apontada. 'Se abrir um restaurante tem de ter as acessibilidades, porque depois vem o fiscal...'. Não, eu se quiser abrir um restaurante vou fazer bem feito e com acesso para todos. Mas varia muito da sensibilidade e de zona para zona. Mas acho que, a pouco e pouco, têm-se notado algumas mudanças.

A sociedade não está preparada para integrar totalmente pessoas com deficiência?
Não, está longe disso. Tenho visto uma evolução mas está longe de estar preparada. A sociedade está preparada para, em algumas zonas, as pessoas poderem fazer a sua vida, passear, mas para fazer a sua vida autonomamente é muito difícil.

Felizmente, Portugal é um país muito solidário e há sempre alguém que ajuda a que essas pessoas tenham uma vida ativa e normal, mas estamos longe de ser totalmente acessíveis.

A Associação Salvador tem ajudado centenas de pessoas na integração e melhoria da qualidade de vida. Como reage a cada conquista?
Reajo com muita satisfação porque, de facto, é um projeto que eu não fazia ideia que com a ajuda de uma grande equipa pudesse mudar tantas vidas e ajudar tanta gente. É com grande satisfação que nós ajudamos, mas como costumo dizer cada caso é um caso e muitas vezes são essas pessoas que nós ajudamos, que nos ajudam, a mim e à minha equipa...

É um sentimento mútuo?
É um sentimento mútuo. Nós na vida estamos cá para dar e receber e felizmente trabalhamos numa área em que isso acontece mais vezes. É um sentimento muito válido e de grande satisfação, porque nós ao ajudar também ganhamos muito. É uma área muito cativante e facilmente apaixonante porque, de facto, quando vemos as coisas a mudar e o sorriso na cara das pessoas preenche-nos a alma e permite-nos a nossa realização profissional e pessoal.

Ainda acredita que, um dia, a sua condição pode melhorar com a cura de que falava há pouco?
Sim, acho que pode acontecer, não estou é tão vidrado como estava no início porque pensava muito mais vezes nisso.

Sente-se feliz?
Sim, sou feliz.

Que sonhos é que ainda tem por realizar?
Ainda estão muitos sonhos por realizar. Mas sem sombra de dúvida que um dos meus maiores sonhos é sentir-me livre no meu próprio país, conseguir andar, conseguir viajar, fazer a minha vida sem depender tanto de outras pessoas e isso é uma coisa que ainda há muito para batalhar.

Fonte: Noticias ao Minuto


domingo, 21 de janeiro de 2018

Tetraplégico aguarda há 19 anos por uma casa adaptada

Uma queda de um pinheiro há quase 20 anos deixou o Henrique Correia com lesões irreversíveis na coluna.


Ficou tetraplégico, com os tratamentos e fisioterapia recuperou o movimento das mãos e braços mas o mesmo não aconteceu com os membros inferiores.Vive com uma pensão miserável de 260 euros Não fosse a ajuda da mãe e padrasto com quem partilha um apartamento em Salvaterra de Magos não conseguiria sobreviver.


O Henrique está dependente de tudo e de todos para poder ir à rua. Conta-me que as entidades oficiais, segurança social e Câmara Municipal de Salvaterra de Magos analisam a situação há quatro anos mas até ao momento não foi encontrada nenhuma solução por ausência de verbas para o efeito.

O que o Henrique precisa é apenas de uma casa humilde mas com condições para puder fazer a sua vida menos dependente. Preferencialmente perto da mãe que é a sua cuidadora.

Ninguém merece viver assim.
Ninguém deveria viver este drama num país da União Europeia no ano de 2018. 

Fonte: SIC e tejo rádio jornal

sábado, 6 de janeiro de 2018

Deixou a filha tetraplégica, mas julgamento foi anulado outra vez

Foi anulado pela terceira vez o julgamento do ex-fuzileiro que baleou a filha médica, deixando-a tetraplégica.

O caso remonta a Abril de 2011 e o agressor continua em liberdade, depois de ter cumprido o período máximo de prisão preventiva, que são dois anos. O antigo fuzileiro não gostava do namorado da filha, e foi na sequência de uma discussão com a jovem de 26 anos que a alvejou quando ela se encontrava no seu apartamento no Feijó, no concelho de Almada.

A vítima morava no Feijó com o progenitor desde que este se divorciara da mulher, tinha a jovem 13 anos. Mas saíra da casa paterna há escassos três meses, para tirar a especialidade no Hospital de Évora. Foi na capital alentejana que conheceu o namorado, um operário fabril divorciado. O antigo militar não gostou da notícia: idealizara para a filha, cujos passos sempre controlara até ali, um casamento com um médico ou então com um juiz . “Tinha feito sacrifícios económicos para que nada faltasse à filha", relata a sentença em que, no Verão de 2012, o tribunal de Almada o condenou a 17 anos de cadeia e ainda ao pagamento de uma indemnização de 107 mil euros à médica.
Canalizou frustração para a filha

Os juízes descreveram-no como uma pessoa conservadora. Dizem que canalizou para a rapariga a frustração de ele próprio não ter prosseguido estudos, por a situação económica não lho ter permitido. Reformou-se antecipadamente para poder tomar conta dela a tempo inteiro. Em tribunal, a jovem médica viria a admitir que andava a tentar libertar-se lentamente do seu controlo absoluto, nem sempre lhe atendendo os telefonemas para que não percebesse que saía à noite ou com quem estava.

No dia do crime tinha combinado almoçar com ele, mas acabou por o fazer em casa dos pais do namorado, em Évora, sem o avisar. Foi a gota de água para o antigo militar. Sentiu-se desrespeitado e abandonado, “considerando que a filha o estava a trocar por aquelas pessoas”. Quando por fim chegou ao pé dele a discussão estalou, como de resto ela já temia.

O ex-fuzileiro foi buscar uma pistola e disparou. Três dos quatro tiros atingiram-na, confinando-a para sempre a uma cadeira de rodas. O quarto disparo terá acertado no tecto.

Na opinião da psiquiatra que o acompanhou na cadeia, na altura do crime o arguido sofria de uma perturbação depressiva profunda, causada por ciúmes obsessivos e pelo medo de ser abandonado, o que diminuía a sua imputabilidade. A gravação do depoimento da especialista em tribunal acabou, porém, por não ficar audível. Daí que o Tribunal da Relação de Lisboa tenha na passada semana mandado reabrir a audiência de julgamento, para que a médica seja novamente ouvida e a sentença redigida pela quarta vez.

“Queremos uma punição, mas uma punição que seja justa”, diz o advogado do antigo militar, Gameiro Fernandes, segundo o qual a condenação não levou em linha de conta nem o testemunho daquela psiquiatra nem o facto de um dos disparos ter acertado no tecto, o que na sua opinião mostra o estado de descontrolo em que se encontrava o seu cliente, que sabia atirar. O advogado defende que o arguido disparou contra a filha num momento de desespero e sob forte comoção, e promete recorrer da nova sentença se o ex-fuzileiro voltar a ser condenado a 17 anos de prisão.

Fonte: CM

domingo, 6 de agosto de 2017

Candidato tetraplégico não conseguiu entrar no tribunal de Vila Real

O candidato do Bloco de Esquerda à Câmara de Vila Real deslocou-se esta sexta-feira ao tribunal para entregar a sua lista às próximas eleições autárquicas, mas não conseguiu entrar no edifício por falta de acessos para pessoas com mobilidade reduzida.

Mário Gonçalves, 45 anos, é tetraplégico e desloca-se numa cadeira de rodas elétrica. "Foi impossível entrar no tribunal. A entrada principal tem uma série de degraus e a entrada lateral tem um degrau que impossibilita o acesso com a minha cadeira de rodas", afirmou o candidato, que foi informado de que não existe nenhuma rampa amovível para poder transpor aquela barreira física.

O estacionamento foi o primeiro obstáculo encontrado por Mário Gonçalves, que anda numa cadeira de rodas por causa de um acidente de mergulho. "Ao chegar ao tribunal, tive de parar num lugar reservado para a magistratura porque o lugar para deficientes mais próximo estava ocupado e fica numa subida", explicou.

O candidato teve de parar num lugar reservado aos magistrados do tribunal. "Depois tive de fazer todo o percurso pela estrada em paralelo até encontrar uma rampa no passeio", contou Mário Gonçalves, que percorreu cerca de 50 metros a subir até conseguir passar para o passeio.

O candidato dirigiu-se depois à entrada principal, onde existem vários degraus, onde viu os restantes membros da lista subir as escadas para fazer a entrega da documentação no interior do tribunal. "O nosso mote é "cidadania sem barreiras", mas ainda há um longo percurso a fazer em Vila Real", concluiu o candidato, que teve de fazer o caminho inverso para regressar ao seu automóvel.

Fonte: JN

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Conduzir só com a boca e os olhos

Hoje em dia com 53 anos, Sam Schmidt é um ex-piloto de Fórmula Indy que, além de ter sido “Rookie do Ano”, chegou a vencer o Grande Prémio de Las Vegas, em 1999. Momento que foi também o mais alto numa carreira que, no entanto, terminaria abruptamente no ano seguinte, na sequência de um grave acidente durante os treinos na Walt Disney World Speedway, em que Schmidt embateu num muro quando seguia a 338 km/h, acabando por ficar tetraplégico.

Apesar do infortúnio, o americano não baixou os braços e, hoje em dia, continua não só a conduzir, como até já participou em algumas provas, como a rampa de Pikes Peak. Mais do que isso, Sam criou uma fundação com o intuito de reunir fundos que possam financiar a investigação em torno das lesões da medula espinhal. Desde 2000, a Conquer Paralysis Now (inicialmente designada Sam Schmidt Paralysis Foundation) já angariou mais de 8 milhões de dólares, utilizados precisamente para a investigação científica.

O caso de Sam Schmidt, cujo amor ao desporto automóvel e, em particular, à Indy Cars levou a que seja hoje em dia proprietário de uma das equipas que militam naquele campeonato norte-americano, é, aliás, um exemplo de determinação e superação. Já que, conforme o próprio revela em entrevista ao programa “Jay Leno’s Garage”, após o acidente, o médico que o assistiu disse à sua mulher que, ainda que ele “conseguisse sobreviver à primeira semana, ficaria para o resto da vida acamado e ligado a um ventilador”.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A cadeira de rodas não entra nos meus sonhos

Na minha nova crónica no Jornal Abarca, escrevo sobre sonhos.

É mais um dia quente de agosto. Saio da aldeia e desço uma encosta por um pequeno carreiro de pedras soltas, que rasga a encosta em ziguezagues sucessivos, serpenteando entre estevas, moitas, alecrins, tojos e carquejas. O sol vai alto e o calor aperta, acelero o passo para chegar ao destino o mais rápido possível, mas os encantos da natureza fazem-me abrandar e parar por várias vezes para os saborear e sentir. Desta vez paro porque surge à minha frente uma videira secular de tronco grosso, toda enrolada numa pequena azinheira e coberta de silvas. Como é possível sobreviver naquelas condições tão agrestes?

Aqui na encosta as árvores são raras. Só existem nos vales mais abaixo. A videira está totalmente abandonada no meio do mato e asfixiada pelas silvas trepadeiras, talvez ali tenha nascido e nunca conhecido o que é ser regada, limpa e cuidada. Ainda por cima está repleta de cachos de uvas, não daqueles de bago grosso e vistosos que se encontram nos supermercados, mas igualmente bonitos para mim e sem dúvida muito mais saborosos. São doces como o mel. Alguns bagos já se transformaram em passas, outros foram esburacados pelos insetos e pássaros.

Ali fiquei sentado á sua sombra, a saborear um dos seus cachos e a olhá-la de ponta a ponta e a admirar aquela capacidade de adaptação. De repente um som estranho vem de um dos seu ramos entrelaçados na azinheira e invadidos pelo silvado, olho com atenção e eis que me deparo com um ninho de rolas. Um conjunto de paus e pauzinhos entrelaçados, aparentemente uma construção sem lógica, mas eficaz. Em criança os idosos da aldeia contavam-me que o ninho de rola era construído daquela maneira, porque quando Deus estava a ensinar os pássaros a construir os seus ninhos, as rolas atrasaram-se e não conseguiram chegar a tempo de aprender. Daí aquela maneira peculiar dos fazer. Um aparente monte de paus.

Saio dali pois a minha presença fez com que a rola abandonasse o ninho assustada. Continuo a descida da encosta encantado e feliz, e eis que surge o que me levou até lá. As água límpidas e calmas do Rio Ocreza no fundo do vale. Dispo-me totalmente, coloco a roupa com cuidado sobre um monte de juncos, sinto a erva fresca por baixo dos meus pés, e ao som do chilrear das rãs, chego-me junto á água, paro por momentos para apreciar pequenos cardumes de peixes bebés aos ziguezagues e felizes, ponho os dois pés na água e mergulho naquelas águas tão familiares que me abraçam desde criança e…acordo.

Levanto a cabeça meio confuso e sem saber onde estou, tento ver o que o escuro da noite não me deixa ver. Concluo que afinal estou na cama, sem me poder mexer, nem sequer é verão e nem eu conseguirei outra vez voltar àquele lugar onde fui tão feliz na minha infância.

Era somente mais um sonho e neles nunca entra a minha cadeira de rodas. Nos meus sonhos sou sempre livre. Porque será?

terça-feira, 18 de abril de 2017

Fiquei tetraplégico. Suicido-me?

Algum tempo atrás escrevi sobre este assunto. Desta vez voltei a fazê-lo na minha crónica do Jornal Abarca


Alguns meses após o acidente que me deixou tetraplégico, encontrei um antigo conhecido da minha idade, que já não via há muito tempo.

Ele ficou muito confuso e surpreso por me ver numa cadeira de rodas, e naquela situação, e quis saber se era grave. Disse-lhe que era para sempre, irreversível. Disparou imediatamente: “não pode ser! E tu aguentas? Eu já me tinha matado”. Naquele momento não pensei muito no assunto e acho que nem lhe respondi concretamente, até porque no início, achava que poderia a qualquer momento ter melhoras significativas e também não queria ver a real gravidade do meu problema.
Mas de há uns anos para cá penso nesta frase e tento enquadrá-la. Acho que muitas pessoas quando nos vêem, a pensam, só não a dizem. Questionam-se se seriam capazes de viver nestas circunstâncias e este tipo de vida.

Hoje, vejo que passaram 25 anos e eu sem as ditas melhoras significativas. Pelo contrário, com o tempo, aparecem é as pioras e o estado de saúde agrava-se.

É fácil viver dependente dos outros? De maneira nenhuma! Acostumei-me? Não, nunca me acostumarei! Aceitei? Nem pensar! Vou vivendo uma mentira e faço de conta que sou feliz? Nada disso. Eu sou infeliz. Já ouvi da boca de dois conhecidos tetraplégicos portugueses, que são mais felizes após o acidente. Eles lá saberão porquê. Talvez se fosse rico como eles, vos pudesse dar uma resposta…eu não o sou.

Então porque vivo nestas circunstâncias, e não me suicido, como meu conhecido teria feito? Porque não sei como, mas encontrei uma maneira de ter momentos felizes, viver com o que tenho e sou, e não fazer dramas. Também tive a confirmação, que nós, seres humanos, somos mais fortes que imaginamos, e somos capazes de ultrapassar coisas que até nós duvidamos.

Nunca mais vi esse meu conhecido, mas se ele me aparecesse com as mesmas dúvidas e questões, continuaria igualmente a não lhe saber, ou querer responder.

sábado, 1 de abril de 2017

Tecnologia inovadora permitiu que homem paralisado há oito anos voltasse a ter mobilidade

Um homem que ficou tetraplégico num acidente voltou a mover-se com a ajuda da tecnologia e apenas usando o pensamento, num projeto de investigadores dos Estados Unidos divulgado esta terça-feira na revista especializada em medicina The Lancet. Bill Kochevar conseguiu, depois de oito anos paralisado, mover uma mão e um braço e beber água, sendo o primeiro recetor de sistemas de gravação e estimulação de músculos implantados no cérebro.


De acordo com o trabalho desenvolvido na universidade Case Western Reserve, em Cleveland, Estados Unidos, o paciente deverá ser o primeiro tetraplégico do mundo a mexer um braço e uma mão com a ajuda de duas tecnologias que lhe foram temporariamente implantadas. Segundo o artigo publicado na revista científica britânica, Bill Kochevar conseguiu pegar numa caneca de água, puxa-la para os lábios e beber por uma palhinha, embora com movimentos lentos e tendo sido necessário algum treino.

Um interface cérebro-computador com eletrodos de gravação debaixo do crânio, e um sistema de estimulação elétrica funcional ativaram o braço e a mão, ligando o cérebro de novo aos músculos paralisados. Com este método, Kochevar conseguiu também segurar um cabo e coçar com ele o nariz, ou pegar num garfo e comer uma batata. "Para alguém que foi ferido e durante oito anos não se podia mexer, ser capaz de se mover ainda que só um pouco foi incrível para mim", disse Kochevar, 56 anos, acrescentando: "é melhor do que eu pensava que seria". Segundo Bob Kirsch, presidente do departamento de Engenharia Biomédica da universidade, o paciente é um precursor da comunidade de pessoas com lesões na espinal medula e a experiência é um "passo importante para restaurar alguma independência".

As pessoas tetraplégicas estabelecem como prioridades, quando questionadas, para a recuperação dos movimentos o poderem coçar-se, alimentar-se e executar outras funções simples sem dependerem de terceiros. "Tomando os sinais cerebrais gerados quando Bill se tenta mover, e usando-os para controlar os estímulos do seu braço e mão, foi possível que ele realizasse funções pessoais que eram importantes para ele", disse Bolu Ajiboye, professor assistente de engenharia biomédica.

Veja em vídeo:



Fonte: CM