Mostrar mensagens com a etiqueta Minha história. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Minha história. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de julho de 2012

Final da minha história

Na coluna anterior no Portal Vida Mais Livre, escrevi sobre as escaras que tive até hoje. Desta vez irei partilhar convosco o último capítulo da minha história.

Como sabem, após a alta definitiva do centro de reabilitação, fui admitido no emprego que mantinha anterior ao acidente. Tinha um auxiliar pago pela empresa em troca do meu ordenado. No início, foi muito complicada a adaptação em relação à minha nova vida pessoal. Quanto ao exercer minhas funções, tudo certo. Era o responsável total. Fazia compras, ementas, contratação de novos funcionários, formação, decidia preços, negociava com os clientes... tinha liberdade total por parte dos meus ex-patrões. O problema maior foi viver fechado em casa. Nunca saia. Intestinos, bexiga, articulações começaram a dar muitos problemas.

Ligava para o centro e médicos só sabiam encaminhar-me para minha médica de família. Fazia-o, mas verificava que eu era um extraterrestre para ela. Tentava hospitais idem. Vinha para casa e tentava resolver tudo à minha maneira. Não me esqueço do episódio que já vos contei sobrecadeira de rodas de banho/sanitária que me foi atribuída na alta hospitalar. Era péssima. Tinha um orificio à frente para onde minhas pernas deslizavam sempre. Almofada antiescaras também não tinha. Fica numa posição péssima e incômoda.

Acho até que foi nela que apanhei a única escara após alta hospitalar. Mas achava que tinha que me adaptar e ponto final. Não me passava pela cabeça que tinha direito a dar a minha opinião, experimentar produtos e só comprar se me adaptasse a eles...andei uns 10 anos com mesmo material, sem colchão antiescaras e cama adequada. Só descobri mais tarde alguns dos meus direitos e até hoje sinto-me triste por os funcionários da loja de material ortopédico onde era cliente nunca me terem informado sobre novos produtos.

O seguro nunca me recusou nada. Lembro-me de outros episódios: quando era necessário enviar a minha cadeira de rodas elétrica para conserto, ficava na cama durante os dias em que a cadeira estivesse fora. Cheguei a ficar mais que um mês. Sendo que tinha direito a uma substituta, assim como certa vez que perguntei à seguradora do porque de só ter uma cadeira velha e já sem condições, me informarem que tinha que ser eu a requisitá-la. Fi-lo, mas a continuar sem saber que poderia escolher. Enviaram-me um Sunrise de péssima qualidade com assento tamanho 38 ou 39cm. Mal cabia sentado nela. Uso com assento tamanho 43. Liguei para a médica de familia para pedir ajuda, informa-me que teria que ter calma. Comparou a cadeira de rodas a um par de sapatos novos que estamos a usar pela primeira vez e que por isso levaria algum tempo a me acostumar.

Bem tentei dar umas voltinhas, mas impossível. Lembro-me que nesse dia chorei sozinho e culpava-me por ter inventado de pedir uma cadeira nova. Que tinha errado e agora ficava pior. Mas depois de continuar a insistir e verificar que era impossível usá-la, tomo coragem e ligo muito timidamente para seguradora e digo o que se estava a passar. Na hora me descansaram dizendo que iriam proceder à troca por uma cadeira de assento maior. Ufa, foi uma grande alegria.

Por esses episódios vejo que estava muito mal apoiado. No emprego tudo certo, e minha vida corria normalmente. Mas sair, só saia para ir visitar família e consultas. Acessos ao edifício também não existiam. Tinham que me pegar ao colo e outras pessoas a cadeira. Como não gosto de dar trabalho, talvez esse fato pesasse. Hoje, sei que ficar em casa em nada ajuda nossa integração. Mas como trabalhava e morava no mesmo edifício, talvez tenha ajudado a esse fato. Mas nunca me escondi, eu recebia os vendedores, me reunia com clientes para negociar preços de casamentos, grupos, etc e deslocava-me às mesas sempre que era solicitado ou havia algum problema a resolver.

Concluindo: maioria das pessoas após acidente costumam dizer que passam pelo luto, revolta e aceitação. Acho que nunca passei por essas fases. Lamento é não ter tido um acompanhamento devido. Quanto ao resto acostumei-me a viver com o que tinha e sem fazer dramas. Nós seres humanos adaptamo-nos a quase tudo. Há que viver um segundo de cada vez e pensar sempre que amanhã é outro dia.

Fim...com muito mais a dizer. Fica para uma próxima vez. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Minha história – Malditas escaras… 9ª parte

Malditas escaras...iniciei no texto anterior este assunto.

A primeira escara atingiu-me na região do cóccix durante o primeiro internamento, enquanto estava acamado na cama tipo Stryker e com tração cervical. Demorou a fechar, mas não alterou em nada a minha rotina. Não fazia ideia o que era uma escara, cóccix... a segunda aconteceu-me meses depois, enquanto estava internado numa clínica particular. Desta vez, no trocânter direito. Atrasou minha reabilitação e deixou-me num estado lastimável. Sofri muito até me ver livre dela. Foi necessário cirurgia plástica e vários meses de cama e tratamento. Fui transferido para o Hospital Curry Cabral. Ainda bem, porque fizeram um grande trabalho e nunca mais tive problemas naquela região. Inclusive, cada vez que outros médicos vêm a grande cicatriz (só numa parte aplicaram 76 agrafos) falam em voz alta que está ali um excelente trabalho. Para mim está feio e esquisito...mas o certo é que resultou e sei que não foi fácil. Tiveram que raspar uma parte do osso e o orifício aberto infectado tinha uma respeitável dimensão e profundidade. Inclusive, os enfermeiros, ao mudar o penso, comentavam com frequência que o buraco comia imensas compressas.

Tive outras menores, não úlceras devido a pressão, mas sim queimaduras nas pernas e pés por me terem colocado saco de água quente. Como não tenho sensibilidade nenhuma, as queimaduras foram graves. Demorou bastante tempo até fecharem por completo. Era inverno e usar sapatos e meias de gola alta como lhes chamo (aquelas de algodão -agora térmicas- que nos protegem até a virilha) não facilitava a cicatrização.

Tive outra queimadura profunda na axila. A única maneira que conseguia me alimentar enquanto acamado era virado em decúbito esquerdo. Ficava com o braço direito livre (sendo o que tem mais força e coordenação) e conseguia levar a comida à boca, sem ajuda. Neste caso, era sopa. Tinha que ficar com a tigela bem encostada ao braço esquerdo para não cair e entornar o conteúdo. A tigela estava muito quente e queimei-me. Foi mais fácil a cicatrização porque era num lugar onde não fazia pressão e podia estar sem penso.

Não posso deixar de relatar uma história muito esquisita e até sinistra que me aconteceu. Há dias que eu era obrigado a ficar sozinho o dia todo na cama. Quando sou obrigado a ter de ficar mais de 4 horas no mesmo decúbito, como é o caso nos dias em que fico sozinho, fico de decúbito ventral (barriga para baixo). Esta é uma posição difícil e desconfortável e no início temos dores insuportáveis, ou devido reconstrução da coluna cervical, ou falta de ar…mas vamos nos acostumando. Não tive ninguém que me levantasse e lá tive que ficar de cama o dia todo e, neste caso, deitado de barriga para baixo. Ao chegarem a casa e ao me virarem depararam com um grande concentrado de formiguinhas (aquelas minúsculas que surgem no verão) de volta do meu tornozelo do pé direito.

Existia uma imensidão destes insetos em cima do meu pé, e o tornozelo estava sem pele. Já tinham comido literalmente a pele e continuavam a avançar. Demorou algum tempo a cicatrizar. Este episódio mexeu bastante comigo. Casa limpa, embora saibamos que estas pragas de formiguinhas, todos os verões, nos criam problemas, mas se apareciam, íamos no seu formigueiro e, através de inseticidas próprios, resolvíamos a questão, mas nunca pensei que acontecesse algo parecido. Pior foi a sensação de saber que estava tranquilo e elas a alimentarem-se de mim sem perceber nada. O médico achou que deveria estar com os valores de Glicemia no sangue altos e que elas o pressentiram, mas fiz análises e tudo estava normal.

E, por fim, minha última escara aconteceu entre 2001 e 2005. Certo dia apareceu uma mancha de cor esquisita no ísquio, por baixo nádega esquerda. Ao examinar a nádega verificou-se uma pequenina greta. Para mim o melhor tratamento é não fazer pressão sobre a região afetada e foi essa a minha primeira preocupação, por isso fiquei de cama e nunca mais me virei para cima da região afetada. O médico examinou-me, medicou-me e dois meses depois tudo estava aparentemente normalizado. Comecei a fazer levanto para a cadeira de rodas pouco a pouco, primeiro dia durante 45 minutos, segundo dia uma hora...e fui prolongando o tempo. Ao quarto dia ao deitar-me penso tinha sangue. Primeira decepção...comecei tudo outro vez...cama até que fechasse e cicatrizasse...pequenos levantes...voltou a verter sangue.

Comecei a consultar vários especialistas, e solução não havia. Teria que ficar para sempre acamado, inclusive estive internado durante uns dias na CUF Infante Santo para ser examinado com calma, e nada. O veredito foi que se me operassem um ano depois estaria igual, invocavam que tinha pouco músculo para ser transplantado porque na primeira escara que tive tinham-me eliminado grande quantidade. Vim para casa muito desanimado e faltava-me consultar com uma diretora da cirurgia plástica do Hospital São José. Marquei a consulta e lá fui eu. Ao chegar, enfermeira e auxiliares transferem-me para uma marquesa e deixam-me de rabisque para o ar, tiram o penso e chega a médica, que a primeira coisa que diz foi: onde está o dreno? Eu respondi que nunca deixei chegar ao ponto de infectar e por isso não usava dreno. Prontamente respondeu que aquilo estava bem, ainda por cima saia sangue limpinho, tinha boa aparência e que não fizesse pressão sobre a região afectada. Mas tudo a mil por hora e desapareceu. Sai da sala e fui procurá-la.

Com muito custo, lá me atendeu no seu gabinete. Foi obrigada a ouvir toda a história. Que andava naquela situação há quase 3 anos. Foi quando assumiu que não era normal, que me receitaria uns produtos antiescaras novos (spenco) e que fosse dando notícias. Ainda comprei a almofada antiescaras mas nada resolveu. Nesse dia quase que minhas esperanças vão todas por água abaixo. Cheguei a pensar levantar-me para a cadeira e fazer uma vida normal para que assim a feridinha virasse feridona e infectasse ao ponto de ficar como a primeira. Se aquela médica achava que tinha dreno, era porque me esperava já com região podre...

Minha sorte foi não ter desistido. Certo dia ouvi falar muito bem sobre um cirurgião plástico que dava consultas no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. Falei com a minha seguradora e lá vou eu. Ao ver minha pequena e, aparentemente, inofensiva feridinha logo me informou que só com cirurgia me podia resolver o problema. Nem quis acreditar. Pela primeira vez alguém me deu esperanças. Aceitei de imediato e fiquei logo internado para realizar exames e análises. Dois dias depois fui operado. O médico me visitou no dia seguinte e tentei saber o que tinha. Queria e precisava muito entender porque só ele me quis operar. Explicou-me que a coisa lá dentro estava feia. Parece que a infeção vinha de dentro para fora. Cá fora tudo mais ou menos normal porque nunca deixei infectar a feridinha, mas dentro havia uma grande infeção que era o que fazia a pele rebentar continuamente e verter líquidos. Que a operação tinha corrido bem, mas a partir daquele dia só poderia ficar sentado na cadeira de rodas o máximo de cinco horas seguidas e se não levasse esse fato em conta voltaria a ter a escara. Felizmente neste momento fico uma média de 8 a 9 horas contínuas e diárias sentado na cadeira de rodas e nunca mais tive problema algum. Criei foi algumas técnicas para tentar proteger a região da cirurgia, como por exemplo: aprendi a fazer um gênero de push-ups (aliviar rabisque da cadeira), enquanto acamado JAMAIS me viro sobre a região para não fazer pressão (dai ter optado por dormir de decúbito ventral)...

Devo minha melhoria de qualidade de vida àquele médico. Foram 3 anos praticamente acamado. Felizmente desde esse acontecimento (2005) que nunca mais tive nenhuma escara e espero continuar afastado delas por muito e bom tempo. Afinal comecei esta minha coluna para o Portal Vida Mais Livre, com intenção de finalizar (por agora) minha história, escrevendo sobre minha adaptação à vida fora dos hospitais e acabei por escrever sobre escaras e afins...sendo assim fica para a próxima vez o final.

Continua…

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Estou muito feliz. Inauguração TIC Concavada

Foi inaugurado oficialmente o meu local de trabalho. TIC - Tecnologias da Informação e Comunicação e Centro de Apoio à Comunidade e Biblioteca da Concavada. Inauguração essa que contou com a presença da Sra Presidente da Câmara Municipal de Abrantes e outras personalidades da região, não esquecendo claro o anfitrião, nosso Presidente da Junta de Freguesia, Sr José Ferreira e população.
Inauguração foi recheada de simbolismo e culminou com os bonitos discursos do Sr Presidente da Junta de Freguesia da Concavada, José Ferreira e da Sr Presidente da CM de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque (que descomplexadamente se juntou ao rancho e até deu o seu pezinho de dança), atuação do Grupo de Danças Ritmicas da Freguesia da Concavada, Rancho Folclórico e Etnográfico de Álvega, e por fim um lanche convívio ajantarado para todos os que quiseram estar presentes.
Fizeram questão que fosse eu a abrir a porta do centro, participasse no descerrar da bandeira portuguesa que cobria a placa da inauguração, assim como fazer a apresentação do Centro aos convidados.
Foi muita honra e emoção. Emocionei-me também como Sr Presidente da nossa Junta de Freguesia, e Sra. Presidente da CM Abrantes se referiram a mim naqueles termos, nos seus discursos. Agradeço, e tudo farei para retribuir com trabalho e dedicação.
Foi com muita honra que participei, e espero retribuir o carinho dispensado por todos, contribuindo com trabalho e dedicação, mas não posso de deixar de destacar a maneira carinhos e especial como me trataram. Aliás, não existem palavras para agradecer a maneira como todos me têm tratado. Fui extraordinariamente bem recebido por toda a população. E qualquer ajuda estão todos prontos a ajudar. Toca o telefone, e se estiver longe dele, logo alguém se levanta (trabalho sozinho)e vai busca-lo e entrega-me com todo o carinho, preciso de colocar um livro na prateleira da biblioteca, há logo voluntários, vestir ou despir o casaco...e fazem-no com carinho e não pena. No inicio ainda fiquei expectante, estava com algumas dúvidas...achei até que a cadeira de rodas e deficiência/limitações fosse o destaque e até realçado. Mas nada disso. Única coisa que se destaca é os miúdos por curiosidade a perguntar se a cadeira apita, como acendem as luzes...e lá faço eu uma apresentação...rs Felizmente que a cadeira não é entrave. Olham-me a mim, o Eduardo de sempre. Adoro o que faço. Sempre disse e continuo a afirmar que não sou feliz, mas neste momento "ESTOU muito feliz" e quero saborear ao pormenor cada momento. Assim como detesto ser dependente e não sou feliz, não quer dizer que não viva momentos felizes. Neste momento estou a viver um desses momentos. Tudo o resto é secundário. Graves problemas de bexiga, intestinos...mas nada interessa. Isso agora é secundário e não permito que se sobreponha ao momento feliz que estou e quero viver.
Agora é mãos ao trabalho. Este espaço é vosso, não deixem de nos procurar para apoios que acharem necessários. Sem vós este Centro não terá utilidade nenhuma.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Minha história - 8ª parte

Agora que tinha a cadeira de rodas elétrica, depois dos tratamentos ia sempre dar uma volta pelos jardins do hospital. Era uma óptima sensação sentir-me livre e independente, ter um pouco de privacidade, poder sair sozinho e sem precisar da ajuda de ninguém. Depositei até espectativas demais na cadeira de rodas. Não sei porquê, mas achei que com a cadeira poderia ir a qualquer lugar e tudo seria simples. Não fazia ideia das barreiras arquitectónicas que me aguardavam...tive o primeiro grande exemplo quando fui á Fundação Calouste Gulbenkian, que ficava perto do hospital e arrisquei ir de cadeira de rodas, não no espaço da Fundação, mas sim no trajecto até lá. Foi meu primeiro impacto com o exterior, primeiras dificuldades. Foi traumatizante. Olhares das pessoas, a realidade dura e crua de andar no centro de Lisboa há 20 anos atrás…Ao juntar a tudo isso, só não cai da cadeira por muita sorte. Ninguém me explicou como seria a maneira mais adequada de ultrapassar degraus, elevações acentuadas...descia de frente, sem cinto e sem noção nenhuma de perigo. Apanhei um grande susto logo no primeiro passeio. Desci de frente e lá vai o tronco todo para a frente. Foi quase. No centro comentei o episódio com minha terapeuta ocupacional, mas da vez de me elucidar sobre as regras, ainda me disse que é assim que se ganha experiência. Que a rua é um bom lugar para aprendermos. Uns anos depois soube que existem procedimentos e cuidados a ter em conta.

Esse dia foi muito importante. Trouxe-me mais uma vez á realidade. Senti que afinal tudo tinha mudado. Vi-me no meio da selva. Senti-me muito frágil e resolvi que tinha que começar a resolver a minha vida. Procurei a mina médica e perguntei-lhe quando teria alta. Respondeu-me que dentro de um mês. Que intestinos e bexiga estavam controlados, que já tinha Produtos de Apoio e que era só esperar que minha tensão estabilizasse.

Perante esses dados e por não aguentar mais aquela angustiante incerteza que não me deixava o pensamento sobre o meu futuro, um único segundo, contatei um dos meus ex patrões. Expus-lhe a minha situação, desabafei sobre os meus medos, mostrei-lhe minhas limitações e perguntei-lhe se haveria alguma hipótese de voltar a trabalhar no mesmo emprego que tinha antes do acidente. Disse-me na hora que sim, que seria um prazer receber-me e que nada mudaria. Continuaria a comandar o Restaurante. Não tenho palavras para descrever o que senti. Foi um alivio ter ouvido aquelas palavras. Apeteceu-me gritar de alegria. Afinal ali estava uma solução fantástica para a minha vida. Nada de ser despejado numa instituição. A partir dai estava desejoso de ter alta. Não via a hora de sair do centro. Parece que todos os meus problemas tinham terminado. O Restaurante eu já conhecia, não tinha noção sobre acessibilidades e por isso nem sequer foi uma preocupação, mas sabia que a cadeira de rodas circulava relativamente bem por todo o espaço e isso bastava-me.

Na altura do meu acidente (1991), não havia informação nenhuma sobre nossos direitos, apoios...no caso das acessibilidades não me passava pela cabeça que existia uma lei, regras, rampas...o que sabia e tinha bem presente era que nada de esperar por facilidades, se não há rampa, pega-se ao colo e ou junta-se uns voluntários e resolve-se a questão. O que sabia era que isso era o certo e normal. Refiro-me a acessibilidades, mas o mesmo acontecia com outros temas. Não esperávamos e nem exigíamos nada. Única certeza que existia era a de que obstáculos éramos nós que tínhamos que ultrapassar. Como? Essa questão era a única que se punha. Certeza era só uma. Ultrapassa-lo e ponto final.

Dia da alta chegou. Junto com a alegria existia um misto de incerteza. Ao chegar ao restaurante onde trabalharia e também iria viver tive uma sensação de alivio muito grande. Fui muito bem recebido por todos os empregados. Senti-me em casa e cheio de forças para continuar a vida. Senti estar a recomeçar uma nova vida. Estava muito feliz e agradecido por uma nova oportunidade. Nem sequer pensei em dificuldades. Dia seguinte tive uma reunião com meus dois patrões e é-me comunicado que iria exercer as mesmas funções. Responsável pelo restaurante, mas não receberia ordenado algum. Trabalharia em troca da alimentação, estadia e também pagariam o ordenado do meu auxiliar. Aceitei e exerci minha actividade durante 7 anos. Altura que tive minha segunda escara que me atirou para uma cama durante 3 ininterruptos anos.

Também no Vida Mais Livre

Continua...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Minha história - 7ª parte

Mais um capitulo da minha história. Aqui, os anteriores.

Minha História – 7ª Parte

Fui avisado que se encontrava um senhor no centro de reabilitação com uma cadeira de rodas eléctrica para eu experimentar. Sentaram-me nela e disseram para dar uma volta. Que era para mim. Oferta da minha seguradora (meu acidente foi de trabalho). Fiquei encantado. Era a minha independência. Estava acostumado a usar uma manual, emprestada pelo centro. Precisava de ser conduzido pelos outros. Fartei-me de circular por aqueles corredores que até tive enjoos. Enjoei como se enjoa em qualquer veiculo, barco…Mais tarde o mesmo senhor apareceu com uma cadeira do banho, uma escova com um cabo enorme que perguntei para que servia e me responderam que era para esfregar as costas durante o banho (nunca usei), talheres adaptados, adaptador de escova de dentes, de pente e máquina de barbear, tábua adaptada para ajudar a cortar pão e legumes, faca adaptada, tábua de transferência e mais uns equipamentos. Tudo novidades para mim. Nunca pediram a minha opinião ou experimentei o que quer que fosse. Entregaram as coisas, médica assinou e ponto final. Achei que fosse o procedimento certo, normal. Eu realmente não entendia nada daquilo e por mim nem tinha que entender. E se me estavam a dar, deveria agradecer e ficar bem caladinho, não fosse eu meter-me e ficar sem nada. Oferecerem-me aquilo tudo, era o máximo! Agora sei que o dito senhor era o proprietário de uma grande loja de produtos ortopédicos em Lisboa. e que aquelas Ajudas Técnicas foram prescritas pela minha fisiatra e por sua vez a seguradora autorizou que fossem adquiridas para me facilitar o dia-a-dia. Certo era me terem dado a oportunidade de escolher e experimentar, pois ao chegar a casa maioria dos produtos nada tinham de prático e confortável. Sentar-me na cadeira do banho era um martírio e usei-a durante uns 10 anos, mas sobre isso escreverei noutra altura.

Começaram a avisar-me que minha alta definitiva estava para breve. Só precisavam confirmar se conseguiria fazer plano de inclinação ou não. Naquela altura não tínhamos as cadeiras de verticalização. Usavam planos inclinados. Era umas macas onde nos fixavam com cintos de segurança e manualmente iam nos inclinando pouco a pouco, verticalmente. Sempre que me transferiam para o plano inclinado era habitual desmaiar, por isso evitavam arriscar. Iam tentando, mas chegava a um certo grau de inclinação e minha tensão caia a pique. Lá ficava para tentar noutro dia.

Estávamos no inicio de Janeiro de 1992. Meu acidente tinha sido em Fevereiro de 1991. Há quase um ano que vivia em hospitais. Entretanto tinha-me iniciado uns suores absurdos e anormais. Era horrível e muito desconfortável. Transpirava dia e noite sem parar e em quantidades anormais. Tinha que mudar várias vezes de roupa. Durante a noite cada vez que me mudavam de posição, na cama, também tinham que mudar os lençóis porque os encharcava todos de suor. Já andava com uma toalha enrolada ao pescoço e outra estendida costas abaixo. Absorvia um pouco o suor. Sempre que estavam molhadas, substitui-as. Só assim evitava mudar mais vezes de roupa. Foi um período muito desagradável. Pior é que estávamos no Inverno e andar constantemente com a roupa encharcada e suor ao secar no corpo arrefecia-me mais ainda. Tremia o dia todo. Andava também com umas toalhas pequenas para ir limpando o rosto e cabelo. Só transpirava do pescoço para cima. Resto do corpo não. Mas a quantidade era tanta que invadia o corpo todo. Se já vivia com frio, pior ficava. Era um desconforto muito grande. Mas depois apercebi-me que não era o único, outros lesados medulares sofriam do mesmo. Médicos explicavam que era consequência da lesão, mas nada mais. Que teríamos que suportar.

Alta estava a chegar e eu sem saber para onde ir, e o que fazer do meu futuro. Estes pensamentos não me deixavam um minuto. Por mais que pensasse soluções não encontrava. Começava a tornar-se um pesadelo. Estava a ficar nos meus limites. Sentia que não aguentava muito mais tempo sem entrar em desespero. Tudo se agravou com a vinda de um Sr com o nome de Manuel. Tinha as duas pernas amputadas junto à virilha e braços estavam muito deformados. Praticamente não os mexia. Aquele senhor não saia da cama. Se o sentassem numa cadeira escorregava por ela abaixo e caia no chão. Corpo não tinha movimento nenhum. Parecia todo duro. Ouvi dizer que foi o Tétano que o deixou naquele estado. Não tinha família e veio de um lar. Jamais esquecerei este senhor. Estava na cama mesmo em frente à minha. Praticamente não falava. Só o fazia para agradecer. Agradecia tudo com muita gratidão. O rosto dele era angelical. Tinha algo em si que nos dava paz. Era a bondade em pessoa. Não consigo explicar as forças positivas que irradiavam daquele ser. Era impossível alguém ficar-lhe indiferente. Só pedia algo se estivesse mesmo nas últimas. Mas como em todo o lado há sempre uma “ovelha ranhosa”, neste caso também havia. Era um auxiliar péssimo profissional. Ninguém gostava dele. Ninguém o conseguia corrigir. E quando estava de serviço fazia de conta que não ouvia nossos pedidos. Sr Manuel já sabia como ele era e nada pedia. Mas dentro de 8 horas que era quanto durava o turno do auxiliar, tinha que precisar dele inevitavelmente. Então lembro-me de o ver muita vez com a vozinha doce e muito calma a pedir água, ou que lhe desse a arrastadeira, urinol, ajeitasse a almofada…e o estúpido do funcionário a gozar com ele, acabava por desaparecer e nada. Nós todos revoltados, mas com medo de sermos expulsos (tínhamos medo de tudo) pouco ou nada fazíamos, mas o Sr Manuel continuava a sorrir como se nada tivesse acontecido. Nunca lhe vi um gesto de desagrado, uma queixa…só ternura e amor. Mas ver tanta injustiça com alguém que só distribuía amor deixava-me muito deprimido. Era inevitável não sentir tristeza. Machucava o coração. Foi uma altura que me senti muito frágil, indefeso e só.

Mas boas noticias vinham a caminho. Afinal havia uma alternativa para mim. O lar de idosos ou outra instituição, felizmente não seria o meu destino. 

Também no Vida Mais Livre

Continua…


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Minha história - 6ª parte


Mais um episódio sobre meu acidente. Relembro os anteriores aqui.

De Volta ao Centro de Reabilitação

Em quase um ano, ter passado o primeiro fim de semana fora do ambiente hospitalar deveria ter sido uma alegria, mas não, para mim foi o despertar de todas as dúvidas e pesadelos. Foi muito bom ver a família reunida, sentir que estavam comigo…etc, mas por outro lado, mostrou-me todas as minhas limitações e fragilidades. Foi o assumir que iria ser enviado para casa sem ter um lugar próprio e em condições para me receber, quem me auxiliasse (minha mãe com idade avançada e muito frágil e pai já falecido), onde trabalhar, iria viver de quê? Essas perguntas não saiam da minha cabeça.

Não era só eu que vivia essa angústia quando tínhamos alta do lugar onde sempre tivemos quem nos auxiliasse em tudo. Por incrível que pareça sentiamo-nos protegidos no centro de reabilitação. O mundo cá fora era assustador. Conto-vos dois casos que descrevem bem este assunto: foi comunicado a um colega que teria alta definitiva dia X, colega esse que se deslocava em cadeira de rodas inicialmente, mas devido a uma recuperação fantástica já conseguia fazer alguns trajetos em muletas e ser independente em quase tudo. Certo dia caiu nos corredores e, a partir, desse momento voltou a deslocar-se em cadeira de rodas e nunca mais conseguiu ter independência nenhuma. Ficou pior. Seu caso regrediu e médicos suspenderam-lhe a alta já marcada, prolongando-lhe a estadia no Hospital.

Tudo normal, se certo dia numa das rampas que dão acesso ao Hospital a cadeira dele não tivesse iniciado a descida sozinha e repentinamente ele lançasse as mãos aos travões para evitar ter uma grande queda. Ele que até movimentos das mãos tinha perdido supostamente devido à queda anterior. Este acontecimento foi presenciado por alguém do corpo médico, mais uma avaliação ao rapaz, chamado à responsabilidade, e lá confessou que estava bem, queda tinha sido o pretexto para não lhe darem alta. Que não tinha ninguém que o recebesse em casa, lugar para onde ir. Queria continuar ali.

Recordo-me de outro caso: uma moça que sempre que a madrasta a vinha visitar, fazia de tudo para parecer normal, não estar destinada a ficar na cadeira. O que agora, muitos anos depois mais me impressiona e mexe comigo, é recordar-me como se fosse hoje, visualizar a cena onde aquela moça, logo que madrasta entrasse no quarto, se dirigisse a ela e lhe perguntasse como estava, estacionar a cadeira de rodas de frente para o fundo da cama dela, travá-la, desviar os suportes de pés, por com ajuda das mãos os seus pés no chão, chegar o rabiosque (nádegas) à frente no assento da cadeira, agarrar com as duas mãos o suporte de ferro/alumínio do fundo da cama (tipo umas grades) e com a ajuda de imensos espasmos que tinha, levantar-se e ficar uns segundos em posição de pé. Virava-se para a madrasta e dizia: vê, cada dia estou melhor, ou algo do gênero.

Agora sei que aqueles espasmos (movimentos involuntários) nada nos ajudam e não são sinônimo de melhoras, pelo contrário. Mas aquela moça também o sabia, isso tenho certeza. E também tenho certeza que os usava para poder vir para casa e não ser enviada para outro lugar. Isto porque a madrasta pressionava-a e ao pai. Dizia muitas vezes que o que uma moça como ela ia fazer em casa se não estava curada. Que não tinham que lhe dar alta antes de estar completamente recuperada. Já imaginaram o sofrimento daquela moça?

E não havia uma instituição que nos recebesse, perguntam alguns? Acho que sim. Naquela altura, 20 e poucos anos atrás, informação era praticamente nula, se agora não somos "achados e nem perdidos", naquela altura ainda era pior. Não contávamos literalmente para nada. Mas chegava-nos ao ouvido através de colegas que estavam internados conosco, vindos desses lares, que onde estavam não havia condições nenhumas, (se agora ainda o não são, imaginem naqueles tempos…) que eram muito mal tratados. Aquela informação mais nos fazia temer a alta definitiva.

Pois é…cada caso é um caso, cada família é uma família, e cada um reage de uma maneira diferente. Mas, antes como agora as coisas continuam a não ser fáceis e a maioria após acidente continua a temer o que o espera cá fora, e a possível institucionalização. No fundo, tudo parece estar como "dantes no quartel de Abrantes…”

Continua..

domingo, 25 de dezembro de 2011

Minha história - 5ª parte

Dando continuidade à minha história de vida, 1, 2, 3, 4...e abaixo a 5ª parte...e também no Portal Vida Mais Livre

Os dias que antecederam a minha vinda a casa pela primeira vez, após quase um ano de internamento continuo em hospitais, foram de grande ansiedade. Ao contrário de agora que só vai a casa, durante a reabilitação, quem tem casas acessíveis, uma cadeira de rodas de banho, sistema de transferência, etc. em 1991 nada dessas preocupações existiam. Quando estava a chegar a altura da alta definitiva, informavam-nos que iríamos passar o fim-de-semana a casa e pronto. Cada um que se desenrascasse.  Esse dia chegou. Foi o Natal de 1991. Única casa que tinha acessibilidades e condições para me receber era de uma irmã minha  que morava no Alentejo. Família juntou-se, e receberam-me muito bem. Não houve choros e tristezas. Criou-se um excelente ambiente e eu senti-me muito bem, e pude começar logo a saborear alimentos que não me saiam da cabeça há meses. Incrível como mesmo num Hospital, numa situação dramática como a minha, eu tinha momentos que me apetecia imenso umas azeitoninhas…enchidos caseiros…aquelas coisas que só nas nossas casas sabem bem…Ai que saudades…mas logo verifiquei que era só saudades de experimentar. Estômago é limitado e fica-se com a sensação que cheirar, ter ali, tocar, por na boca…é o suficiente. Ainda por cima sendo no Natal, mesas fartas.

Cheguei na sexta-feira já perto da noite, jantamos, deitaram-me num sofá e pude ter um serão, na companhia da família, ao calor da lareira muito revigorante. Olhos da minha mãe sobre meu corpo e algumas perguntas, como por exemplo: tenta lá mexer a perna filho. Mexe lá a mão…deixavam-me de coração partido e sem saber como responder.  Fazia-me forte e disfarçava. Minha irmã mais velha, mulher de muita fé, se ouvisse, logo dizia:  “…não consegue agora, mas para o ano tenho certeza absoluta que está a andar. Vão ver. Eu confio em Deus!” Eu no fundo, embora não tão convictamente, também tinha essa esperança. Sempre achei que durante os dois primeiros anos algo de bom poderia vir a acontecer. Não foi o caso. Mas embora já me encontre tetraplégico há 20 anos, sinceramente a esperança persiste. Não com a mesma força inicial, mas aquela sensação no fundo do nosso ser, que um dia, quem sabe, algo fantástico poderá acontecer. Não direi que cura completa, mas algo que medicina possa fazer. Mas não uma esperança desesperada e por datas, mas sim, só uma esperança.

Primeira noite passou. Senti-me de manhã com muito frio e um pouco esquisito, mas achei que fosse normal. Umas horas depois de me levantar, começo a sentir um mal estar terrível: um frio como nunca tinha acontecido,  um grande incomodo e sensação aflitiva, isto mesmo com lareira acesa. Para me ajudar, deitaram-me no sofá, cobriram-me de roupa e ligaram mais um aquecedor. Mas nada, frio e mal estar não passaram. Achei que fosse da temperatura baixa e não de mim o problema. Agora sei que essa sensação horrível que sentimos ao nos expormos a temperaturas extremas, faz parte da nossa patologia. Mas só o soube uns 15 anos depois. Apareceram algumas visitas, eu quase sempre enrolado em roupa no sofá, as pessoas conhecidas verem-me pela primeira vez naquela situação, fazia-me um pouco de confusão. Não sabia como agir, o que dizer, falar, explicar…evitava tempos mortos e rezava para tempo passar. É muito estranho estarmos bem e de repente ficarmos totalmente diferentes para pior. Aos olhos dos outros não deve ser fácil. Precisam de respostas, ou por curiosidade, ou porque se interessam mesmo por nós, nosso estado de saúde. Mas senti muitas dificuldades no inicio em explicar que estava, “inválido”, “paralítico”, “inutilizado” (palavras literalmente usadas pela maioria das pessoas no interior). Era isso que tinham ouvido falar e ao verem-me puderam confirma-lo. Sentia-me culpado não sei de quê. Queria que pessoas entendessem que realmente estava numa cadeira de rodas, não conseguia andar, alimentar-me, vestir-me…enfim…dependente para tudo, mas que estava bem, não queria ninguém triste, era um problema que eu sozinho tinha que passar e não o fim do mundo…Estar temporariamente doente é uma coisa. Para sempre é outra. Era essa a diferença que não sabia explicar e que para elas fazia toda a diferença. No fundo não queria ter pena de quem tinha pena de mim. Queria poupa-los. Não queria ver ninguém a sofrer por minha causa. Hoje se me passam a mão pelo cabelo e me chamam de coitadinho não reajo da mesma maneira. Tentarei dentro do contexto “educar” a pessoa. Mas naquela altura não sabia lidar com a situação e aqueles seres simples e ingénuos não o faziam por mal. Verem um rapaz jovem, cheio de vida, sem problema nenhum meses atrás, e de repente verem-me frágil, dependente, até assustado, numa cadeira de rodas…não deve ter sido fácil.
No Domingo era dia do meu treino intestinal e banho. Nada adaptado e nem sabia o que isso significava. De manhã sentam-me na sanita (vaso), colocam uma cadeira alta em cada um dos meus lados, e ali fiquei a tentar equilibrar-me. De seguida o banho. Juntam-se esforços e transferem-me para a banheira. Foi uma sensação muito ruim. De repente minha família viu meu corpo “morto”. Lidou com ele, sentiu sua ineficácia e incapacidade. Isso mexeu muito comigo. Achei e senti que ao verem meu corpo totalmente nu e sem um único movimento, tendo eles que fazer tudo, também ficaram com a certeza que nada era como antes. Eu dependia de terceiros para tudo. Além de tudo isso, não foi fácil mostrar minha intimidade. Nos hospitais era uma coisa, ali era outra. Depois desse episódio nada foi como antes. Algumas vezes vi ao longe minha mãe ou irmã a chorarem. Seus olhos também o denunciava. Havia uma frase que minha mãe dizia muita vez: “Nasceste num dia tão lindo (quinta-feira Santa) meu filho, e sofres tanto!”. Doía-me muito ouvir isso. Impossível não ver seu coração a sangrar. Vê-la sofrer por mim era uma tortura. Chegava a sentir necessidade de pedir desculpa por ter tido aquele acidente e de estar a faze-la sofrer. Sentia-me culpado de não sei o quê, era uma sensação muito estranha.

Domingo há noite voltei para o hospital, e por incrível que pareça senti um grande alivio.

Continua…

sábado, 29 de outubro de 2011

Minha história - 4ª parte

Dando continuação á minha história...


Sou transferido da clinica de Santo António, para o serviço de medicina física e reabilitação, do Hospital Curry Cabral em Lisboa, febre continuava, análises nada acusavam…até que dias depois ao fazerem-me a higiene detectam uma escara no trocânter direito em péssimo estado. Depois de intervencionada e limpa, restou um grande buraco que até osso se poderia ver através dele. Aí estava a resposta a todo o sofrimento que estava a passar. A infecção vinha de dentro. Entretanto tinha-me debilitado muito e foi necessário reabilitar-me com alimentação especial e transfusões de sangue, assim como esperar que escara estivesse pronta para ser reconstruida pela cirurgia plástica. Aconteceu, tiveram que me retirar um pouco do osso que já estava infectado, mas segundo me informaram na altura, fora esse facto a operação foi um sucesso. Certo é que naquela região, até agora não tive mais problema nenhum. Tenho é que explicar à maioria dos médicos o que aconteceu com o osso. Começam a olhar para exame e…”você tem aqui qualquer coisa…”.

Há praticamente 6 meses que não saia de uma cama, banho a sério nunca mais, era uma bacia com uma pouca de água, e com um panito húmido esfregavam-me o corpo. Alguns com a pressa esfregavam-me as partes genitais e o rosto com mesmo pano e água, lavar a cabeça era uma vez por mês. Nem imaginam a comichão que dava! Mesmo quando a lavavam era de faz de conta. Dentes impossível escovar…A hora da refeição também era um momento muito difícil nestes tempos de acamado e dependente. Técnica era mastigar rápido, sem tomar o gosto ao que me punham na boca, isto porque comida escolhida e dada pelos outros vem tudo o que gostamos e não gostamos. A gordura, peles…peixe, evitava pedir por causa das espinhas. Abria a boca, começava a mastigar, já tinha outra colher cheia encostada á boca. Era uma complicação. Outra coisa que me aborrecia era pedir para me limparem o nariz. Coçar-me não pedia. Disfarçava o pensamento. Começava a pensar noutra coisa. Ainda hoje o faço quando estou deitado e não chego onde sinto a comichão. Garanto que resulta. Alguns colegas tinham a sorte de ter família a morar por perto e na hora das refeições vinham dar-lhe a comida dali, ou trazida de casa. Mas eu e maioria eramos de longe. Eu não tinha quem me desse as refeições, mas tinha diariamente a visitar-me um anjo da guarda, era uma prima que trabalhava a uns 20 minutos do Hospital e aproveitava a hora do seu almoço para me visitar. Vinha a comer pelo caminho para poder estar comigo e um bolinho para me dar por ela, nunca faltava. Minha querida Carmita foi um apoio que jamais esquecerei. Não faltou um dia. Sempre alegre e bem disposta. Anos mais tarde confidenciou-me que aquela alegria era aparente. Que chegava à rua e começava a chorar. Ela foi muito importante para mim.

Tempo passou, escara cicatrizou e os levantos para uma cadeira de rodas muito esquisita (aquela com encosto muito alto) começaram. Fazer plano inclinado também. Deitavam-me numa estrutura parecida com uma maca e iam-na inclinando verticalmente todos os dias um pouco mais. Actualmente antes de nos levantarem vestem-nos meias elásticas de contenção, cinta abdominal e somos injectados constantemente com anticoagulantes. Em 1991 nada disso se usava. Tomei meu primeiro banho em vários meses. A água a escorrer pelo rosto foi revigorante. Sentia-me imundo e por mim até era esfregado com uma escova. A seguir tive outra grande alegria. Foi uma sensação indiscritível ver o sol, senti-lo…há uns 8 meses que não ia à rua. Chorei de emoção. Vi o mundo pela 1ª vez depois de tanto tempo. A partir dai todos as vezes que tivesse alguém que me empurrasse a cadeira, lá íamos para os jardins do Hospital. Estávamos em pleno verão.


Também no portal Vida Mais Livre

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Estou feliz: Consegui um emprego e entrei para a faculdade

Na maioria das vezes tenho partilhado convosco péssimas noticias. Hoje felizmente não é o caso. Tenho duas excelentes para vos deixar. Vocês que de uma maneira ou de outra sempre me apoiaram, deixando comentários, mensagens, enviando e-mails, telefonando…precisam saber.

CONSEGUI UM EMPREGO E ENTREI PARA A FACULDADE. Nem quero acreditar que isto está a acontecer! Pois a luta foi dura e longa. Mas vamos por partes:

1º - EMPREGO

Vou contar-vos um resumo do que aconteceu até conseguir. Quando estive internado no CMR do Alcoitão, pedi para ser atendido pela assistente social. Aconteceu, e peço-lhe orientação de como deveria fazer para tentar ser inserido no mercado de trabalho. Que única entidade que conhecia era o CIDEF (um centro de referência na reabilitação profissional) e não me podia apoiar em nada. Sendo que o CIDEF já estava fechado por falta de financiamento do Estado e assistente social esqueceu-se que a 20 metros de onde trabalha, existe o Centro de Reabilitação Profissional do Alcoitão, e no Norte, o de Vila Nova de Gaia.

Tentei meu Centro de Emprego. Fui muito bem atendido, registado, mas não passou disso.

Tento assistente social da minha área, veio a minha casa, conversamos, e que também não poderia ajudar-me em nada. De seguida a acção social da minha Câmara, idem.

Contacto as grandes associações, respostas zero.

Começo a enviar e-mails para todas as empresas da região, e grandes multinacionais que poderia supostamente se interessar pelos meus serviços. Tentei teletrabalho e nada.

Contacto os serviços centrais do IEFP - Instituto de Emprego e Formação Profissional e chego á fala com um alto responsável, pela 1ª vez ouço falar em emprego protegido, apoiado, Guia de Recursos, centros de reabilitação profissional e meus direitos. Isto porque ainda não tinha computador e acesso á informação como tenho agora. Depois de IEFP me munir de informação, ninguém mais me segurou.

Sabendo que tinha possibilidades de me valorizar num centro de formação especifico para nós, contacto o de Alcoitão. Sou muito bem atendido, conheço o centro na companhia de uma técnica, apresentam-me os cursos profissionais que disponibilizavam, mas não poderia ser admitido porque não tinham verbas para contratar quem nos auxiliasse. Não aceitei aquela resposta e exigi ser recebido pela direcção. Aconteceu, e segundo eles abririam uma excepção para mim. Eu entraria, mas tinha que contratar um auxiliar. Surreal. Não tinha cabimento e nem eu condições para isso. O que irrita mais é que aquele centro é totalmente adaptado ás nossas necessidades, inclusive quem mora a mais de 30 km transportam-nos gratuitamente a casa, de 15 em 15 dias, para passarmos o fim-de-semana. Tudo perfeito. Mas nós excluídos. Enviei exposições/reclamações para todo lado, mas tudo igual.

Tento o Centro de Reabilitação Profissional de Gaia, sou também muito bem atendido, minha associação, ANDST, tentou ajudar, ainda tive esperanças mas por ser dependente não deu certo também.

Tentei através do centro de emprego fazer formação profissional. Mas impossível. Subsidiam transporte aos ditos normais, menos a nós. Impossivel ter dinheiro para pagar transporte adaptado durante a duração de um curso. Geralmente 1 ano e meio.

Viro-me para a Câmara Municipal, primeiro peço uma audiência com a Sra vereadora da acção social, vem a minha casa, conversamos e luz apareceu ao fundo do túnel. Mais, fiquei a saber nesse encontro, através da sua secretária, que em Abrantes tinha inaugurado uma faculdade. Depois verão porque toco neste assunto.
Respostas concretas demoravam a aparecer, peço uma audiência com a Sra Presidente da Câmara. Fez o favor de também vir a minha casa, conversamos e um ano depois tenho meu emprego. Comecei ontem a trabalhar num espaço TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação. Além do dinheiro me fazer muita falta, o poder produzir enche-me de alegria.

2º ENTRAR NA FACULDADE

Pois é…28 anos depois voltei a estudar. Através da secretária da Sra vereadora fiquei a saber que a universidade Aberta tinha inaugurado em Abrantes, tentei as provas de admissão e consegui entrar para Ciências Sociais. Quero muito tentar ser assistente social. É uma área que me diz muito. Foi muito bom poder testar-me, por-me á prova. No exame de História ainda sofri um pouco. Muita matéria para pouco tempo, e estava todo enferrujado, mas consegui.

Agora é ver se realmente tenho capacidade para concluir o curso…no trabalho sei das minhas limitações. Dias de chuva, frio, calor, treino intestinal, vesical…nem quero pensar nas dificuldades. Só sei que vou ultrapassar meus limites, dar o máximo dos máximos, saber sofrer, sofrer por gosto e enfrentar todas as dificuldades com certeza e convicção que nada me impedirá de conseguir meus objectivos. Força de vontade e perseverança tenho ilimitadas.

Desculpem a minha felicidade. Sei o quanto é injusto vocês estarem jogados de lado, como se de um produto de supermercado que terminou a validade se tratasse. Tem deficiência não presta. É muito duro. Sei bem o quanto dói. Mas nunca desistam. Desistir nunca. Se eu com 90% de incapacidade sou capaz, vocês também. Não aceite os “NÃOS” facilmente. Enfrente o mundo se for preciso. Sabe que temos que lutar sempre mais que todos os outros. Lutar simplesmente não chega para nós. Vão conseguir.

Sendo assim, irei vir menos vezes a este meu espaço, e Nós Tetraplégicos no Facebbok, que tantas alegrias me têm proporcionado. De qualquer maneira deixei na parte superior do blogue, alguma informação, que estará sempre disponível e actualizada. Também me podem continuar a questionar e enviar e-mails que de certeza os responderei. Poderei é demorar mais tempo.

Obrigado a todos!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Meu Acidente - 3ª Parte

Continuação da minha história. Para quem não leu, aqui fica a 1ª Parte e 2ª Parte.

Minha primeira escara aconteceu no Hospital de São José. Foi na região do cóccix. Demorou imenso a cicatrizar. Para mim ter esse contratempo ou não era igual. Não tinha consciência de quase nada. Ninguém me informava, também não perguntava. Ao chegar ao Hospital de Abrantes, deitam-me numa cama com colchão de água. Foi nessa altura que comecei a ouvir falar em escaras. Disseram-me que aquele colchão me protegia dessa “coisa” que se chamava escara. Também me aconselharam a comprar uma almofada antiescaras. Pedi que me trouxessem uma. Trouxeram e começam os períodos sentado na cadeira de rodas manual. Lembro-me de ficar com pele dos pés e perna toda gretada. Com inchaço, e acho que devido a pomadas que me aplicavam, ficava muito esquisito. Não me mexia absolutamente nada. Só o pescoço.

Tinha muito mais visitas de pessoas que gostava, do que no Hospital de São José. Também estabilizei e comecei a dormir melhor. Foi em Abrantes que comecei a ter noção que minhas limitações seriam para sempre. Para isso muito contribuiu o continuar a usar algália, fralda e ver meses a passarem e melhoras nenhumas. Mas dias iam passando sem grandes alterações, até que começo com febres altas e muito mal estar. Descobrem que tenho uma tromboflebite. Perna muito inchada e quente. Custou mas passou. Foi pior episódio enquanto ali estive internado.

Mais ou menos um mês depois, sou transferido para a Clinica de Santo António na Reboleira (clinica particular nos arredores de Lisboa) e ai tive grandes problemas. Estruturas e tudo o resto muito bom, mas não sabiam como lidar comigo. Comecei a ter febre continuamente, hematúrias seguidas (urinar sangue), infecções urinárias seguidas e prolongadas. Um massacre! Não aguentava mais. Estava nos meus limites. Foram tantos episódios tristes que é difícil enumera-los todos. Desde introduzirem-me uma agulha no abdómen para chegarem á bexiga e a esvaziarem, até ficar semanas seguidas sem evacuar, tudo aconteceu. Quanto ao evacuar, aconteceu algo muito carinhoso no meio de tanta dor. Num outro quarto da clinica estava internada por causa de uma escara, uma moça paraplégica. Um dia chegou ao pé da minha cama, pediu-me que confiasse nela, mas que não contasse nada a ninguém, deu-me para tomar um comprimido (laxante) e explicou-me que iria pôr-me um supositório (mal eu sabia que hoje seria esse o meu sistema para evacuar…) . Esse seu á vontade e experiência devia-se aos vários anos que já se encontrava na cadeira de rodas.

Escusado será dizer que limpei pela primeira vez o intestino, mas consequências foram dolorosas. Como se exigiu muito do organismo, tive primeiras disreflexias, vómitos horas seguidas e muito mal estar.


Esta moça paraplégica a circular pelo meu quarto na cadeira de rodas com um grande á vontade e independência, fazia-me bem. Trazia-me muitas esperanças. Acho que pensava que na pior das hipóteses ficaria como ela. Se a porta do meu quarto estivesse fechada com um fecho bem lá no alto e fora do alcance das suas mãos, logo tirava o braço da cadeira de rodas e com ajuda dele a abria. Também me dizia que enquanto ela estivesse no WC não gostava que ninguém a incomodasse. Dizia para mim mesmo: boa, se ela vai á casa de banho, eu também irei…

Infecções e febre não me deixavam. Ficava horas seguidas com olhos fechados, no escuro e silêncio, todo molhado e com um recipiente á frente da boca para recolher vómitos. Momentos muito difíceis de passar.
Sou chamado a uma consulta ao Centro de Medicina de Reabilitação do Alcoitão, não me aceitam para internamento. Um enorme desgosto. Pois todos afirmavam maravilhas daquele centro. Que só eles nos reabilitavam. Volto para á clinica. Mais tarde saberão porque não me aceitaram. Felizmente uns dias depois sou transferido para o Hospital Curry Cabral em Lisboa, Serviço de Medicina Física e Reabilitação.

Também no Portal Vida Mais Livre

Continua…

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

2ª parte da minha história: Internamento após acidente

Lembram-se? Hoje continuo aqui e no Vida Mais Livre, a contar a minha história.

Não me lembro da minha entrada no Hospital de São José. Só sei que foi de madrugada. Acordei cheio de dores, principalmente no pescoço e cabeça, numa cama muito esquisita e com muita gente à minha volta. Estava deitado numa cama que davam o nome de “Stryker”. (O que mais parecido encontrei no Google com essa cama é a imagem que tenho abaixo).

Era uma cama mecânica que mais parecia uma “grelha” - aquelas em que pomos os alimentos para grelhar. Ali estava eu sem um único movimento no corpo. Aquelas camas serviam para nos virarem sem nos tocarem. Acho que com o pé e mão, acionam um comando e cama virava num só movimento. Era uma sensação muito esquisita, ainda por cima tendo 13 quilos a puxar-me a cabeça. Só havia duas posições: virado para baixo, ou para cima. O que quer dizer que só via o teto e o chão do Hospital. Nossos companheiros de quarto só conhecíamos por voz. Impensável virar a cabeça. Só tínhamos aquela posição.

Entrei no Hospital na quarta-feira de madrugada. Quinta-feira acordo naquela cama esquisita, exatamente do tamanho do meu corpo e ali estou eu imóvel. Primeira fralda usada e mudada, uns panos molhados e gestos esquisitos pelo meu estranho corpo, significou meu banho da manhã, a seguir a alimentação. Engasgava-me. Foi complicado aprender a mastigar naquela posição. Tudo passava por mim sem eu esboçar um gesto. Deixava acontecer. Sinto-me em movimento, vejo outros tetos e ouço outros sons. Ia a ser levado pra fazer uma Ressonância Magnética ou TAC (não me recordo), noutro piso do Hospital. O exame não aconteceu. Sei que só segunda-feira a seguir foi feito. Porquê não sei.

Uns dias depois fui operado. 9 horas no bloco operatório. Segundo os médicos, tudo correu bem. Reconstruíram-me algumas vértebras cervicais, usando placas e parafusos (acho que de titânio). Cirurgiões alcançaram a minha coluna através de uma incisão feita no meu lado esquerdo do pescoço. Fiquei com muitas dificuldades em engolir e limitações para abrir boca. Nem imaginam o quanto foi doloroso. Como dores se tornaram insuportáveis e nem engolir saliva conseguia, optaram por deixar a cama Stryker virada para baixo, a maioria do tempo. Se cama virava, meu corpo no seu interior também. Assim ficava com um recipiente por baixo da minha boca e saliva escorria sozinha. Como naquela posição, só ficava com olhos e boca fora da estrutura da cama, começou a formar-se uma ferida na testa, que era onde justamente peso da cabeça era suportado.

Começaram a administrar-me morfina para alívio das dores. Ajudou bastante. Mau era quando o efeito desaparecia. O tempo foi passando e a garganta melhorando. Nunca ninguém me dizia o que tinha. Também não me lembro de ter perguntado. Praticamente todos os dias a equipe de médicos nos fazia uma visita matinal, e sempre um dos que me operou, ao passar a mão por cima dos meus pés me desafiava a dar-lhe um chute nas mãos. Aquilo deixava-me confuso, mas muito animado. Se ele tinha aquele procedimento diariamente, por alguma razão era. Eu associava-o a realmente conseguir dar mesmo o chuto, ou pelo menos algum movimento.

Estávamos em março de 1991. Meses foram passando e tudo igual. Até que certo dia, ao virarem a cama Stryker, a parte de cima que ajudava a manter meu corpo seguro soltou-se, e caí no chão. O suporte que segurava 13 quilos e estava fixado, através de pinos, no meu crânio saiu e senti um zumbido e dores tão intensas que desmaiei. Durante uns dias estive muito mal. Estava a livrar-me da morfina, lá voltei a ter que a ter como aliada outra vez.

Melhoras nenhumas. Certo dia, pergunto a um médico que tinha no meu ângulo de visão, quando sairia da cama. Responde: “Ó jovem, tu nunca vais andar e nem sair da cama!” Acho que só nesse momento soube a gravidade do meu problema. Paralisia completa do corpo. Cai na realidade da pior maneira. Acho que fiquei suspenso uns segundos. Tudo parou. Ao abrir os olhos, o médico tinha desaparecido. Até hoje não consigo esquecer aquela crueldade. O que me doeu mais foi soltar aquela “bomba” e virar-me as costas. Aquela indiferença não consigo entender.

Um dia tentaram levar-me para um cadeirão. Desmaios não permitiram. Uns dias depois tentou-se uma cadeira de rodas de encosto alto e reclinável. Conseguimos. Foi um dia muito importante para mim. Aquele serviço era frenético e dormir era impossível. Estava muito magro e cada vez mais abatido. Só morfina em doses elevadas me aliviavam a dor. Sou inscrito no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão e enquanto aguardo vaga, transferem-me para o Hospital da minha região que era Abrantes. Em maio dou entrada neste Hospital para ficar perto da minha família, e tentar estar num ambiente mais calmo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

1ª parte da minha História: O Acidente


MEU ACIDENTE (O DIA)

Geria um restaurante típico na localidade onde ainda vivo. Concavada. Várias viagens ao dia, em serviço, num Renault 5 GTL da empresa. No dia 20 de Fevereiro de 1991, na parte da tarde, numa dessas viagens, numa recta ao chegar á localidade de Alvega (a 2km do restaurante), carro foge todo repentinamente para a esquerda, bate estrondosamente num muro, dá várias cambalhotas e sou cuspido não sei por onde, indo parar no meio de um olival, sem um único arranhão. Ia sozinho e sem cinto de segurança. Lembro-me de logo a seguir ouvir vozes, abri os olhos, ver vultos, comecei a engasgar-me e a ter dificuldade em respirar devido ao sangue que saia da boca e acho que nariz, viraram-me a cabeça de lado e não me lembro de mais nada.

Não sei tempo que demorou a chegar o INEM-Instituto Nacional de Emergência Médica, mas acho que foram rápidos. Só me lembro de ao chegar de ambulância ao Hospital de Abrantes, que era o mais próximo e ao descerem-me na maca, vi uma irmã minha e o dono do restaurante que geria debruçados sobre mim. Não me lembro de os ouvir e nem expressão de seus rostos, mas lembro-me que lhes pedi repetidamente que não me deixassem morrer.

Dentro do hospital acordei com uns zumbidos muito fortes e estranhos. Aquilo entrava-me pelo cérebro dentro. Estavam a abrir-me dois buracos (com algo do género de um berbequim) no crânio, mais ou menos por cima das orelhas (ainda mantenho as cicatrizes bem visíveis. Nunca mais ali nasceu cabelo. Soube dias mais tarde que esses buracos serviram para introduzir uns pinos de ferro que faziam parte de uma estrutura metálica que tinha um peso na extremidade de 10 quilos, fariam com que o pescoço continuasse esticado. Ou seja: tinha constantemente um peso de 10 quilos fixado por pinos no crânio. Entendi que era para descompressão. Acho que chamam tracção). Depois de parar o barulho, sinto que me continuam a mexer na cabeça, mas não sei o que fazem.

Nessa noite, acordo dentro de outra ambulância e vejo uma enfermeira muito bonita, jovem e não sei porquê (nem me lembro se conversamos) achei-a muito simpática. Ia a caminho da Unidade Vertebro Medular do Hospital de São José em Lisboa onde fui operado para me reconstruírem as vértebras e estive internado uns meses.

Também na minha coluna no Vida Mais Livre.

Continua…