Mar Adentro: o papel do cuidador de indivíduos tetraplégicos

Um dos filmes mais tocantes de todos os tempos, Mar Adentro aborda a complexa questão da eutanásia de maneira bastante profunda. Narra a história de um homem que, ao mergulhar de cima de uma pedra em uma praia rasa, lesiona sua coluna na região cervical e se torna tetraplégico. Cuidado pelo irmão, anos após o acidente decide terminar com sua vida.


O problema é que ele não tem possibilidades de se suicidar sem o auxílio de terceiros, uma vez que lhe faltam os movimentos de braços e pernas. Aqui já surge uma questão interessante: o indivíduo que ajuda alguém a se matar comete homicídio? Esta parece ser a interpretação legal nos países em que a eutanásia é criminalizada. Mas não vamos nos deter neste ponto dada a complexidade da questão.

Como é de se esperar, as pessoas próximas tentam convencê-lo do absurdo que intenta. Os diálogos com o irmão e com um padre, este também restrito em uma cadeira de rodas, são os pontos altos do filme. Tais debates demonstram cada ponto de vista de maneira bastante sólida. Todos parecem ter razão e nos fazem questionar nossas próprias perspectivas.

O suicídio sempre foi um assunto difícil de assimilar em nossas sociedades. Entre outros, castigos Divinos são prometidos por toda a eternidade a quem comete o ato; punições das mais diversas já estiveram presentes nas constituições – não somente para o suicida, como a “profanação” do corpo, mas para a família, pelo impedimento da realização dos ritos de sepultamento, aplicação de multas e retirada de direitos e propriedades.

São muitos os motivos que aparecem como origem do repúdio ao suicídio, entre eles o medo do “contágio” e o contato com a ideia de morte pela desvalorização da vida. Ver que alguém opta por se eliminar em vez de continuar “lutando” nos assusta quando não encontramos em nós convicções claras em relação aos nossos próprios passos. É um ato que nos esfrega na cara a realidade de que a vida pode não ser tão bela quanto se prega por aí, que nos indica que aqueles que ficam não são importantes o suficiente para fazer valer a vida de quem dela se desprendeu, enfim, que deixa transparecer as fragilidades de ser humano em sua finitude e despropósito.

Para muitos, o valor da vida está intrinsecamente ligado às obras que realiza, às possibilidades de se ver reconhecido na materialidade de suas ações. Ao indivíduo tetraplégico fica saliente a ideia de impotência. Não que seja impotente de fato, mas as restrições que sua condição lhe impõem são tantas e tão severas que qualquer ação, para ser possível, requer grandes adaptações.

Se a realização pessoal está na concretização, a impotência é a maior ameaça à dignidade. Não poder fazer talvez signifique não poder ser e a falta de perspectiva que resulta daí é, em alguns casos, a morte em vida. Nestes extremos, o suicídio poderia ser, então, uma libertação.

No filme, o protagonista encontra um grupo de simpatizantes ao seu direito de extinguir sua própria vida e que o auxiliam nesta tarefa, o que pode parecer chocante para muitos. Mas, impedi-lo à conclusão deste ato não atesta a impotência de que tenta escapar? Afinal, se um indivíduo perfeitamente funcional pode se suicidar a qualquer momento, por que tal “direito” deveria negado a quem se vê restrito?

A dependência a que se vê condicionado é, muitas vezes, outro fantasma que povoa os pensamentos de quem sofre a tetraplegia. É comum sentir-se um fardo, uma vez que suas limitações impõem a outros presença constante, como se a condição de sua existência fosse a anulação daqueles que se dedicam aos seus cuidados. A culpa pode ser uma oponente devastadora.

É importante mencionar, apesar de ser mais evidente, a raiva que pode abater o indivíduo pela dificuldade de aceitar as restrições. O protagonista possuía uma vida antes do acidente diferente da que pode constituir futuramente. São tantas as mudanças que o espectador não pode pretender compreender senão uma pequena parte do sofrimento atrelado.

Por mais que a situação da tetraplegia seja complexa, há formas de transcender às suas limitações. Quanto à culpa pela dependência, deve-se notar que muitas pessoas encontram no cuidado a terceiros sua finalidade de vida. Nestes casos, o indivíduo cuidado não deve se enxergar como fardo, mas como solução, como “objeto” promotor da realização do outro.

Quanto às realizações do indivíduo tetraplégico, é necessário compreender que mudam de natureza mas não têm, necessariamente, reduzido seu valor. Um indivíduo que concebe um livro não realiza menos quando o tem escrito pelas mãos de terceiros, por exemplo. Fosse assim, nenhuma obra teria valor a qualquer agente, uma vez que ninguém, por mais autônomo que seja, consegue realizar algo completamente sozinho e livre de influências. Somos seres sociais e constituídos pelas trocas.

Assim, há muito para concretizar na simbiose, na interação com o cuidador e auxiliado por seus instrumentos. Para isso, cuidar precisa ser mais do que oferecer o necessário para existir, mas se tornar uma relação capaz de realizar aquilo que o indivíduo é em potência. Desistir é sempre uma opção, mas é só na construção que se pode sentir o gosto da superação.

Escrito pela Psicóloga Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.

Fonte: i9vadore

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