terça-feira, 8 de setembro de 2020

Só o Bastonário para por o Primeiro Ministro na Ordem

Durante os últimos dias o assunto foi a briga entre o Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães e o Primeiro Ministro António Costa, o que não imaginei foi que o Costa levasse tamanha tareia. Foi mesmo para doer. Coitado do Costa. Tudo porque após uma entrevista ao Semanário Expresso deixou escapar em off: "É que o presidente da Administração Regional Saúde mandou para lá os médicos fazerem o que lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram". 



Referia-se à desgraça que aconteceu no lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva (FMIVPS), em Reguengos de Monsaraz, onde foi registado o maior surto COVID-19 no Alentejo, com 162 casos de infeção - 80 utentes do lar, 26 profissionais e 56 pessoas da comunidade.

Acho que nem ele esperava que o opositor fosse tão forte. Não me sai da memória a cena montada á saída da audiência entre os dois. A Temido, Ministra da Saúde, encolhida num canto fazia juz ao nome, os restantes elementos que acompanhavam o Costa, tipo não me faças mal que eu estou a portar-me bem, e o Bastonário de olho neles a controlar tudo.

Sinceramente foi esquisito ver um governante que na maioria das vezes esbanja arrogância, ceder desta maneira e dar-se a este papel secundário. Um Costa amedrontado e a humilhar-se daquela maneira não é habitual ver-se. Acho que nunca deve ter marcado uma audiência com tanta rapidez.

Quanto ao Bastonário é de estranhar só se preocupar com o lar de Reguengos, deveria alargar as auditorias a todos os outros lares, principalmente os ilegais. Na sua página a OM esclarece: “Na sequência da divulgação do Relatório e respetivas conclusões elaborado por uma Comissão de Inquérito/Avaliação designada para realizar uma auditoria aos Cuidados Clínicos prestados aos utentes do Lar da FMIVPS em Reguengos de Monsaraz devido ao surto COVID-19 tem vindo a ser publicamente posta em causa a competência da Ordem dos Médicos para este efeito. Importa, por isso, esclarecer definitivamente esta questão. Ora, as atribuições da Ordem estão definidas no artigo 3.º[1] do EOM, ali constando expressamente que lhe cabe “contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes”. Este é, portanto um fim de interesse público que a OM tem de prosseguir através dos seus órgãos.”.

Aí está. Apregoam que é da sua competência a responsabilidade de contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos. Então toca a fazê-lo noutros lares e a exigi-lo aos seus associados, o que não acontece perante o número de queixas contra os médicos anualmente. Além do poder inequívoco demonstrado também me surpreendeu a Ordem dos Médicos não adotar a mesma postura no caso do “bebé sem rosto”. Tão preocupada com um lar, mas não com a sua própria casa. São centenas de queixas contra os seus associados e não se conhece um único médico expulso.

Existiam 14 queixas na Ordem dos Médicos contra Artur Carvalho, o obstetra responsável pelas ecografias ao bebé sem rosto, o bebé que nasceu com graves malformações em Setúbal. A primeira em 2014. E o que fez a OM? Nada.

Em 2019 os três conselhos disciplinares da Ordem dos Médicos decidiram arquivar 861 processos e condenar 35 profissionais. Dos 35 condenados, 16 receberam pena de suspensão, a sanção mais grave a seguir à da expulsão; os restantes sancionados com as penas mais leves: advertência e censura. Nenhum médico foi expulso. Noticiou também o Público.

Uma coisa é certa, poder a OM tem, e foi muito bom ver o Costa amedrontado e sem a arrogância do costume, mas a OM não tem moral para exigir dos outros o que não pratica. Será que na área da deficiência conseguimos ter também um "bastonário" assim? Dava-nos um grande jeitão.

Minha crónica de setembro no jornal Abarca

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