Maria do Rosário Lopes: Um testemunho de vida impressionante

A Maria do Rosário Lopes, fez-me chegar a sua história de vida. Fiquei impressionado com tanto sofrimento. Mas mais ainda com sua força e vontade de viver. Não percam...


Filha de um sapateiro e de uma dona de casa, Maria do Rosário de Almeida Lopes nasceu a 20 de Maio de 1950 na quinta do Varigo na aldeia Visiense de Prime. Ai cresceu, juntamente com os irmãos, numa casa modesta, no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pelas dificuldades económicas e, simultaneamente, pela alegria da vida, cuja influência foi decisiva na sua vida.

Precocemente começou a ter contacto com os trabalhos agrícola e domésticos, actividades que apreciava muito e que lhe proporcionaram uma infância e juventude perfeitamente normal. Durante os primeiros 21 anos da sua existência a saúde, a energia, boa disposição foram uma constante.

Foi a 21 de Maio de 1971 que teve a primeira consulta médica, sendo também o começo de um percurso difícil com contornos muito tortuosos. O problema de garganta que a conduziu á consulta foi o primeiro de toda imensidão de doenças que pautaram a sua vida.
Rapariga magra, frágil, sempre enfraquecida pela anemia que teimava em não a abandonar, carência de cuidados suplementares que os seus pais, apesar de todas as dificuldades, se desdobravam para lhe proporcionar. Mas ainda assim, o seu estado de saúde não voltava á normalidade.

Em 1974, tinha então 24 anos, fez a primeira cirurgia, alterações no funcionamento da vesícula foram razão para esta intervenção. Pouco tempo depois e ainda em fase de recuperação foi assolada por febre tifóide.

Com 3 mil escudos que o irmão lhe mandou da Alemanha, chegou a Lisboa em 26 de Janeiro de1976 (ou seja aos 26 anos). Efectuou inúmeros exames dispersos pelos Hospitais Curry Cabral; S. José e Santo dos Capuchos. Descobrem uma Colite Ulcerosa. Mas a sua fragilidade, fraqueza e problemas de garganta intensificaram-se. Foi então operada á garganta.

Em 1983 uma reacção alérgica a um comprimido (constipal) coloca a sua vida em risco sendo mais um momento em que, não fosses a sua energia e vontade de viver, os cuidados médicos no hospital de S. Teotónio teriam sido insuficientes para ultrapassar as sequelas.
Durante a década de 80 assíduos problemas respiratórios foram motivos defrequentes entrados nas Urgências Hospitalares. Não obstantes os crescentes problemas de saúde, Maria do Rosário continuou sempre a viajar pelo mundo da boa disposição, a encontrar força para transpor cada barreira que surgia. O seu sorriso constante conquistava todos os que a rodeavam. Não havia na aldeia, e nos arredores, quem não conhecesse o seu drama e admirasse a energia que possuía, bem como a forma de ela encarar a vida.
No entanto, a par desta inclinação flagrante para constantes problemas respiratórios, despertam, e vão-se intensificando com o passar dos anos, os primeiros sinais de problemas musculares. Aos 36 anos depara-se com dificuldades em abrir completamente a mão e a não conseguir segurar chinelos nos pés.

Aos 39 anos teve uma dor de coluna, que a depositou 5 semanas numa cama no Hospital em Coimbra. Com a 1ªcrise de coluna veio a proibição de fazer o que mais prazer lhe dava – croché. Até então, e desde os 18 anos o seu passatempo preferido era fazer croché, todo e qualquer momento disponível ela utilizava para elaborar trabalhos em renda. Durante 2 anos vê – se impossibilitada, por imposição médica, de fazer qualquer esforço e muito menos trabalhar a linha pois, segundo os médicos, agravava o seu estado de saúde.

Apesar de contar somente com a instrução primária, tinha uma grande paixão pela leitura, principalmente pela literatura que dissertasse sobre as questões relacionadas com a nossa existência. Encontrou na leitura, na reflexão e no diálogo a ocupação que precisava e que lhe permitiu preparar-se interiormente e, até, ajudar os que estavam á sua volta.

Passados estes dois anos e impulsionada por um programa de televisão, em que viu esplêndidos trabalhos pensou:”preciso de encontrar uma maneira, tenho que conseguir fazer o que mais gosto”e assim contornou a interdição, e as dores, fazendo o croché deitada. Este programa televisivo desperta nela um novo interesse – bordados, que vai intensificando com o passar dos anos esse torna predominante no seu dia-a-dia, e ao longo dos tempos. Este factor é decisivo para a escolha do caminho.
Perseverante, optimista por excelência, para Maria do Rosário viver é uma paixão, sendo o percurso da sua vida uma luta permanente pela sobrevivência.

Aos 40 anos vê-se reduzida a uma cadeira de rodas. Aliada á dor física vem a dor da alma, o deixar de caminhar, os últimos passos, o olhar para trás, o medo, as interrogações, a dor, a esperança. Um turbilhão de pensamentos em labirintos mentais quase sem saída. Não há angústia maior que não é o sofrimento provocado pelos olhares indiscretos que transmitem pena e não coragem, piedade e não admiração. Á cadeira de rodas associam-se horas cinzentas e dias muito tristes. No entanto, a vontade e a procura de motivo de vida e de trazer de volta luz e alegria foram uma constante. Persistir por mais um momento quando tudo parece perdido, passou a ser a sua filosofia de vida.

Paralelamente ás dificuldades de locomoção surgem problemas de deglutição. Durante 8 meses a sua alimentação foi o grande da irmã que cuidava, e cuida até hoje, dela, pois pelo esófago não passava nada que não fosse água. As refeições eram preparadas cozendo os ingredientes e filtrando a água da cozedura, sendo essa água a sua refeição. Passo os 8 meses, e depois de intensos tratamentos, obteve melhorias que lhe permitiram ingerir sopas.

Varias tentativas e estudos foram feitos em busca da causa e cura de tanto sofrimento. As dificuldades na descoberta da doença conduziu os médicos a vários diagnósticos, chegando, mesmo a ponderar tratar-se de uma doença do foro psicológico. Exames atrás de exames, noites mal dormidas, ansiedade, saber de que doença se sofre é um processo penoso. Quanto finalmente é feito o diagnóstico, o problema passa a ser o de encontrar as respostas, que não sejam “isso é normal na sua doença”.

Com o decorrer dos anos o estado de saúde de Maria do Rosário vai-se agravando, a dependência de terceiros torna-se cada vez mais evidente. Em Setembro de 1992 sofreu um agravamento galopante, levando o médico a desacreditar por completo a sua sobrevivência, tendo prescrito soro apenas por descargo de consciência. Durante 3 dias foi visita da pelo padre, familiares, amigos e desconhecidos com o intuito de se despedirem, pois não havia esperança. Mas apesar de não falar, estava consciente e sentia que não era o fim, “amanha ainda é dia e eu não vou morrer hoje”era o seu pensamento. Ultrapassado este obstáculo, nos anos seguintes luta contra dificuldades de locomoção, deglutição, respiração e cansaço físico.

Incapaz de ficar parada, e desvalorizando sempre a sua realidade, persiste na execução de bordados. Assim, devido á divulgação dos seus trabalhos, e ao sucesso dos mesmos, é procurada por inúmeras pessoas para a elaboração da sua “arte “.Produz “obras” com destino a diversos pontos do país, tendo mesmo algumas viajadas para França, Suíça, Alemanha, Brasil e Canadá.

A década de noventa fica marcada pelo desaparecimento de um irmão (leucemia galopante, foi a causa da morte). Devido ás repercussões deste episodio, o seu estado de espírito teve um trauma, que agravou ainda mais a sua fragilidade e quase sem defesas para enfrentar um nódulo no peito, que entretanto lhe foi detectado.

A vida parecia fugir de Maria do Rosário. Durante 2 anos esteve dependente de oxigénio devido ás suas insuficiências respiratórias. No de correr desta etapa, mais do que em qualquer outra situação, quase se deixa vencer pelo cansaço, pelo desânimo e pela tristeza, estar 24 horas por dia “agarrada”a uma bilha de oxigénio era uma tortura. E era com este de espírito, e consciente de que a cura estava cada vez mais longe, que se apresentava nas consultas de Otorrinolaringologia em busca de solução, Discutia-se o sucesso ou não de uma traqueotomia, alguns especialistas defendiam que não resultaria e outros eram da opinião que talvez lhe proporcionasse melhoras na ordem dos 30%. O sofrimento dela, naquela altura, era imenso e as elevadas doses de oxigénio só aliviavam a falta de ar que sentia. No entanto, a nível intelectual ela continuava a ser a pessoa que sempre fora e, por isso, percebeu que a sua dignidade e o sentido da vida que ainda tinha para viver valia a pena arriscar. E, por isso, escolheu deixar-se operar. Apesar de todos os riscos que corria, a traqueotomia foi um êxito, tendo-a libertado, até hoje, da respiração assistida.

Quando completa 50 anos de idade, a sua vida é, mais uma vez, alvo de uma doença de risco - Tumor no útero. É hospitalizada no Instituto Português de Oncologia do Porto, onde lhe efectuam a cirurgia de remoção.

Em 2005 a força interior e capacidade de luta é novamente posta á prova. A sobrinha que dormia com ela deixou de o poder fazer, o que implicou a sua mudança para casa da irmã. Habitação sem acessibilidades para uma cadeira de rodas subia, e sobe, as escadas de rastos. As deslocações eram, e são, uma obrigatoriedade pois a sua relativa qualidade de vida depende de Fisioterapia.

Ao longo destes 61 anos contabilizou 54 internamentos hospitalares. Apesar dador e limitações provocadas pela Miopatia Mitocondrial, categorizada como doença rara, a postura de Maria do Rosário perante a vida é algo de que nos orgulha e inspira, porque permite longas conversas e a satisfação de nada ficar por fazer. Ela sempre se recusou a ficar presa a uma cama, a ver-se como uma moribunda, e se as pernas já não funcionam, funcionam felizmente os braços, o cérebro, o coração, e ela aproveita-os, tirando partido da companhia das pessoas que a rodeiam e do prazer que os bordados sempre lhe proporcionam.
Maria do Rosário é uma força da natureza, deliciamo-nos a assistir essa sua luta desmedida de quem sabe o que quer, de quem acredita no amanhã, para quem as pedras no caminho não passam disso mesmo, de quem sai Vencedora de qualquer batalha.

Abaixo deixo-vos alguns dos seus lindos bordados.






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Comentários

  1. Tanto sofrimento que enfraquece o corpo e fortalece a alma. Uma lição de vida para muitos de nós...

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