Foi com algum entusiasmo e curiosidade que esperei que a novela, “viver a Vida”, da Rede Globo, chegasse a Portugal. Tudo porque lia e ouvia, vindos do Brasil, comentários muito abonatórios, sobre a personagem, tetraplégica, Luciana.
Chegou a novela, comecei a segui-la e meu entusiasmo transformou-se em desilusão. Não pela Alinne Morais, actriz que interpreta a personagem Luciana. Mas sim pelo que o autor reservou á Luciana.
Estava á espera e gostaria que Luciana fosse mais uma tetraplégica no meio de tantos outros. Com mesmas dificuldades, angústias, sujeita a descriminações, injustiças e abandono como todos nós. Mas aparece uma personagem rica, mimada e com direito a tudo.
Seria interessante e mais útil para todos nós que personagem fosse oriunda de uma classe social predominante entre tetrapégicos e não de uma classe social alta, como é o caso. Não que não existam Lucianas ricas! Mas não são a maioria e sendo de uma classe de grande poder de compra, tudo ela terá mais facilmente e não se notarão as dificuldades que todos nós passamos.
Qual é o tetra que logo no Hospital tem médicos praticamente privativos e com aquela disponibilidade toda? Nem no melhor do dos privados isso acontece. Seria mais útil mostrar ao país inteiro, principalmente governantes a realidade das coisas. Principalmente sendo a televisão e novela da Globo um excelente veículo de informação e único para muita gente.
Nem entendi porque um autor tão conceituado e que sempre nos habitou a papéis tão reais e susceptíveis de discussões públicas nas suas novela, cria agora um com tão pouco de realidade.
Deveria ser mostrado como são realmente tratados tetraplégicos num Hospital público, como se adquire uma cadeira de rodas e outros equipamentos necessários, quais modelos aconselham, que ajudas usa para banho, qual colchão e cama, como e onde se adquire as adaptações que ela usa e qual a ajuda que governo dá. E se dá alguma ajuda como se ultrapassa a burocracia. Se antes da alta hospitalar governo se preocupa em tornar acessível a casa para onde se vai morar. Qual vai ser o valor da pensão mensal que governo atribui a essa pessoa acidentada mensalmente e se atribui, se esse tetraplégico dependente não tiver ninguém que o possa auxiliar em casa, após acidente, onde ele se pode internar e em que condições. Provavelmente é despejado e esquecido numa casa de repouso qualquer. Medicamentos e fisioterapia como vai conseguir ter adequadamente. Sua vida nas ruas com todos os atropelos a nível de acessibilidades que conhecemos, educar-nos como prevenir úlceras de pressão, infecções urinárias e outras complicações, etc. Isto sim era o que ansiosamente esperava que acontecesse.
Aparece uma personagem rica e mimada que em nada espelha a nossa realidade. Aqueles gritos ofensivos com que ela se dirigia ás pessoas que tanto a amavam no inicio da novela, davam cabo da minha paciência…porventura era a maneira de autor mostrar como ele interpreta a nossa revolta inicial após trauma. Mas nunca vi tal absurdo! Aquilo era má educação mesmo! Então imaginem se Luciana não tivesse conforto nenhum e também abandono como maioria tem? Pois nossos familiares não são ricos e não nos podem visitar todos os dias, a qualquer hora e dar a atenção, como os dela faziam.
Já que autor reservou para a Luciana um mundo á parte, pelo menos poderia ter-lhe adaptado a casa, para recebe-la, um elevador que a transportasse até piso superior, que é onde fica quarto dela, ou então fazerem-lhe no rés do chão da casa um quarto adaptado, ter sido encaminhada para um centro de reabilitação. A rede Sarah de hospitais, por exemplo. Pais terem comprado um carro totalmente adaptado e não contratar um motorista para andar com ela ao colo. Assim procedem os ricos.
Para já não destacar comportamentos muito diferentes dos da maioria dos tetraplégicos. Aflige-me por exemplo a Luciana andar com aquelas mãos fechadas. Sendo que o habitual seria usar umas talas que são feitas por medida e servem para corrigirem futuras deformações.
Só faltava autor por milagre fazer Luciana começar a andar…
Só digo mal? Não. Também tenho elogios. Um deles é a continuação dos amores e desamores da personagem, outro é usarem personagem em iniciativas como foi o caso da praia para todos e como também a visibilidade e inclusão das pessoas com deficiência à sociedade.
Leiam também minha coluna no
"Vida Mais Livre".