Avarias crónicas dos sistemas de acesso aos transportes públicos

Quão frequentemente utilizamos a expressão “É só uma dorzinha nas costas” para definir a angustiosa e persistente dor que nos magoa e que tentamos ocultar como algo natural e trivial? É verdade que sentir dor é inevitável, mas ao contrário do que se deva pensar esta pode e deve ser tratada.

Podemos comparar a forma como são tratadas este tipo de dores, àquela que é utilizada para lidar com os diferentes tipos de avarias, demasiado persistentes, que grassam nas ajudas técnicas essenciais à deslocação autónoma e livre dos cidadãos com mobilidade reduzida em Lisboa (e provavelmente noutras localidades do país).

Designadamente, como podemos compreender que os elevadores, as plataformas elevatórias e as rampas de acesso a espaços, edifícios e transportes públicos estejam constante e invariavelmente avariados, por tempo indeterminado, muitas vezes sem qualquer explicação [capaz], transtornando e MUITO a vida das pessoas que mais deles precisam e deles dependem…?

De facto, quando estas avarias estão directamente relacionadas com mecanismos que afectam a vida diária das pessoas, nomeadamente daquelas cuja condição física as impede de aceder de outra forma alternativa e autónoma àquelas espaços e serviços sem o auxílio destas ajudas técnicas… enfrentamos um problema gravíssimo e inaceitável de funcionamento dos serviços públicos e de desrespeito pelos direitos humanos fundamentais…

Quantos são os relatos ouvidos em relação aos inúmeros incómodos e atrasos ocasionados pelas avarias repetidas das rampas automáticas dos autocarros da Carris…chegando a passar três autocarros com as rampas avariada e, quando chega o quarto, com a rampa a funcionar, o motorista proíbe que entrem duas pessoas em cadeira de rodas no autocarro porque a lei apenas permite que uma pessoa em cadeira circule em cada autocarro por questões de segurança…?

E as saídas tantas vezes frustradas como resultado de uma avaria nas plataformas elevatórios ou nos elevadores de alguns espaços de atendimento ao público ou em estabelecimentos comerciais…? … Para não falar das avarias constantes dos elevadores do metro (tendo em consideração que há ainda poucas estações que os têm!) que obrigam as pessoas com mobilidade reduzida a percorrer maiores distâncias para encontrar uma estação que tenha elevador, e, a funcionar…?

E as intermináveis desculpas de avarias nas casas de banho adaptadas…que na verdade se encontram encerradas “há anos” para arrumação de material ou afins…? …E… poderíamos acrescentar uma lista infindável de interrogações cuja resposta não nos satisfaz…porque não nos convencem, não resolvem o problema em questão, não dão alternativas a situações que se repetem continuamente, dificultando o quotidiano de quem já devido à sua condição física está habitualmente mais condicionado.

Na verdade, muitas são as desculpas… algumas as razões … mas nenhuma se faz razão … se não houver uma pronta e eficaz adopção de medidas sérias e eficazes de resolução destas avarias crónicas.

NOTA: De acordo com a legislação portuguesa os autocarros que NÃO têm as rampas automáticas a funcionar e que apresentam o símbolo de acessibilidade universal, NÃO podem circular e atender ao público. Na situação da proibição da circulação de duas pessoas em cadeiras de rodas num mesmo autocarro, o dever de cumprimento desta normativa é incompatível com o incumprimento da norma que proíbe a circulação de autocarros com rampas avariadas…

Fonte: Lisboa  (In)Acessivel

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