Os Jogos Paralimpicos são grotestos?

Minha crónica desta semana no Jornal abarca

"Sou só eu a achar que os Jogos Paralímpicos são um espetáculo grotesco, um número de circo para gáudio dos que não possuem deficiência, apenas para preencher a agenda do politicamente correto?”, questionou Joaquim Vieira, presidente do Observatório de Imprensa, reputado jornalista e escritor de sucesso, na sua página do facebook, sobre os Jogos Paralímpicos que decorreram no Rio de Janeiro entre 7 e 18 de Setembr.

Após verificar a proporção negativa que as suas palavras tomaram, tentou retratar-se acrescentando á frase que os revoltosos não tinham entendido o que quis dizer e que estava a sofrer ameaças de morte. Intenção não era ofender ninguém com o seu comentário, e que até era um grande defensor da igualdade de direitos, assim como entendia a ambição das pessoas com deficiência de enveredar por práticas desportivas e entrar em competição.

O que o choca realmente é a atribuição de estatuto de Jogos Olímpicos ás provas realizadas no evento, pois para ele Jogos Olímpicos só há uns, cuja intenção é premiar os melhores.

Termina afirmando que os atletas com deficiência têm de meter na cabeça que não podem e nem conseguem ser campeões, como por exemplo os perfeitinhos Usain Bolt ou Mark Phelps.

Em resposta, o presidente da Pró-Inclusão-Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, escrevia no jornal Público, que os Jogos Paralímpicos (JP), são um evento com grande mediatismo e incomparável com qualquer outra notícia que tenhamos acesso sobre as pessoas com deficiência.

Para ele trata-se de um evento que desafia ideias feitas sobre a competição e a seleção “dos melhores”. Que os JP atraem polémicas sobre múltiplos aspetos da atividade humana, e dava um exemplo: na cerimónia de abertura uma das portadoras da tocha olímpica que, com a ajuda de uma bengala, a conduzia com dificuldade, caiu durante o percurso. Perante o aplauso do estádio, levantou-se e levou a tocha até à pessoa seguinte. E pode-se perguntar: mas os aplausos não eram destinados aos que vão mais longe, aos que são mais fortes e aos que chegam mais alto (usando a trilogia dos Jogos Olímpicos da era moderna)?

O que este realce mostra é que os Jogos são muito mais do que a celebração dos triunfadores, mas, como dizia Coubertin, o seu grande valor é a participação e a superação de cada um.

David Rodrigues refere que estes atletas nem sempre são olhados da maneira mais correta, e cita dois exemplos: um que endeusa os atletas paralímpicos, dizendo que eles são os super-heróis, que são sobre-humanos.

Outra é a atitude de grande desconforto, de perplexidade, por presenciar o desempenho de atletas com deficiência, como foi o caso do jornalista Joaquim Vieira.

Para as pessoas que acham que o lugar das pessoas com deficiência não são os espaços desportivos, para quem pensa que desporto não é para elas, deixou alguns pontos de reflexão.

Antes de mais as pessoas com deficiência têm direito, como quaisquer outras, a praticar desporto. Não aceitar isto seria uma grave violação dos seus direitos. Se não existisse este movimento paralímpico as pessoas com deficiência ficariam privadas da prática desportiva, ou pelo menos amputadas de uma das suas vertentes que é o desporto de alta competição. Será que alguém assume esta responsabilidade de amputar direitos a quem já tem tantos direitos amputados?

As pessoas com deficiência não se colocaram à margem do desporto: foi o desporto que as excluiu. Daí que o movimento do desporto paralímpico não seja um movimento de exclusão, mas sim de inclusão.

Os Jogos Paralímpicos são uma cabal demonstração que o terno “de-ficiente” (“não eficiente”) é extraordinariamente injusto para designar quem de forma tão espetacular escancara os limites do desempenho humano.

Termina a sua resposta acrescentando que os jogos não são grotescos. Grotesca – ainda que menos visível – é a segregação que estas pessoas sofreram e sofrem tendo sido injustamente condenadas a “vidas separadas”. Grotesca é a exclusão, grotesca é a invisibilidade a que milhões de pessoas estão condenadas a ser vistas como deficientes mesmo sendo “eficientes” e muitas vezes mais eficientes dos que aqueles que se permitem chamar grotescas às suas ações.

Finalizo acrescentando que nós, pessoas com deficiência, não somos heróis e nem coitadinhos, mas somente pessoas como a maioria, com as suas virtudes e defeitos.

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