APPACDM: Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Lisboa

É uma Associação com mais de meio século - completa 55 anos a 2 de Fevereiro. Há 55 anos que a Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Lisboa (APPACDM Lisboa) procura compensar as falhas do Estado com respostas inovadoras, muitas delas pioneiras, como o foi a primeira creche inclusiva do país, constituída em 1978 por iniciativa de uma médica e da mãe de uma criança com trissomia 21

Com cerca de 250 colaboradores, a associação apoia hoje mais de 700 crianças, jovens e adultos nas suas várias valências: duas creches (a Tartaruga e a Lebre), seis Centros de Actividade Ocupacional (CAO) e lares residenciais para pessoas com deficiência intelectual e incapacidade, em Lisboa, Cascais e Almada. Tem também equipas técnicas destacadas em escolas de 14 agrupamentos, onde assegura terapia da fala e psicologia, por exemplo, a centenas de alunos.

Para os maiores de 18 anos dá formação profissional, e já conseguiu que alguns fossem integrados no mercado de trabalho. Entre os projectos inovadores que tem desenvolvido, está uma rádio, criada no CAO da Ajuda, e que, em breve, poderá alargar-se a outros centros.

Em entrevista à Renascença, o presidente da APPACDM Lisboa, Mário Matos, fala da importância desta instituição.

Como surgiu, há 55 anos, a Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental?
A APPACDM teve origem numa iniciativa de cidadania de duas pessoas. Uma, Sheila Stilwell, mãe de uma criança, outra, a pedopsiquiatra Alice Melo Tavares, que, encontrando-se perante situações de necessidade de resposta a uma criança deficiente (trissomia 21), começaram este projecto. Ganhou a dimensão que tem porque, tendo nascido há 55 anos em Lisboa, deu origem a mais de 30 congéneres em quase todos os distritos do país.

Há 55 anos, esta era uma área absolutamente desprotegida...
Absolutamente. Posso dizer que, no âmbito da deficiência intelectual, esta associação terá sido a primeira e creio que é ainda a de maior dimensão no país. Estamos em Lisboa, onde temos a maior parte das nossas estruturas, mas também em dois outros concelhos: Almada e Cascais.

Promover a inclusão das pessoas com deficiência - crianças, jovens e adultos - tem sido uma preocupação constante da associação. Como é que promovem essa inclusão? Que respostas sociais proporcionam?
Começámos por criar, em 1978, e nessa matéria também fomos pioneiros em Portugal, uma creche inclusiva, em que 30% das crianças eram portadoras de deficiência. Durante muitos anos, até há uns quatro ou cinco anos, foi essa a resposta que demos. Actualmente, por via da abertura da própria sociedade e de políticas públicas, essas crianças com deficiência já são genericamente integradas em todas as creches.

Nós, naturalmente, mantemos uma vocação específica, até porque temos técnicos e competências nessa matéria, e continuamos a aceitar casos de maior complexidade de deficiência, embora não como anteriormente, porque os custos são significativos e houve uma redução dos apoios a esta instituição. Mas, as nossas respostas cobrem o ciclo de vida das pessoas, desde a creche até às residências.

No início, começaram por dar mais atenção às crianças?
Começámos por dar mais atenção às crianças. Houve um período da vida da instituição em que a área correspondente ao percurso da educação formal também estava coberto. De há uns anos a esta parte, as escolas passaram a ter que dar resposta a essas situações e, então, foram criados Centros de Recurso para a Inclusão, onde dispomos de equipas técnicas que, em vez de trabalharem na instituição, estão a trabalhar junto das escolas. Acompanhamos e prestamos serviços técnicos a 14 agrupamentos de escolas, abrangendo cerca de 300 alunos, com terapia da fala, ocupacional, psicologia, etc. Esses apoios são prestados por nós. Dentro da idade escolar, dos 6 aos 18, acompanhamos essa população nas escolas, colaborando na elaboração dos planos de desenvolvimento individual e depois na parte final nos planos de transição para a vida activa.

É aí, muitas vezes, que surgem mais problemas, não é? Porque as famílias deparam-se com falta de respostas quando têm os filhos com 18 anos e não sabem onde pô-los nem como ajudá-los...
Nós temos uma resposta social de Centro de Actividades Ocupacionais (CAO). Esses centros têm um conjunto de actividades e acompanhamento técnico também em terapia ocupacional, psicologia e actividades simplesmente ocupacionais. Conforme os perfis desses jovens, a incidência é mais nas terapias ou é mais nas actividades ocupacionais, podendo, nalguns casos, desenvolver aquilo que nós designamos por "actividades ocupacionais socialmente úteis", inclusivamente a integração em alguns postos de trabalho.

Há muitos casos desses?
Temos alguns, uns 10-12. Gostaríamos de ter mais, mas a integração no mercado de trabalho não é fácil. A sociedade está como está, o emprego está como está, e temos essas limitações. Mas é um desafio que procuramos vencer permanentemente: encontrar respostas para aqueles que poderiam ser mais úteis à sociedade e têm competências para isso. Muitas vezes, não são integrados porque ainda existem preconceitos que é necessário ultrapassar e nós fazemos o possível para ajudar a sociedade a ultrapassá-los.

A imaginação faz parte da vossa actividade e estão sempre a tentar inovar. Foi por isso que criaram uma rádio num dos centros? além de outras actividades...
Procuramos criar actividades que potenciem as competências que eles detêm, desenvolvendo-as e permitindo, também, ma componente lúdica, porque eles passam a maior parte do dia connosco e têm que ter prazer também naquilo que fazem. Temos actividades desde pintura, dança e teatro e, mais recentemente, uma rádio, que surgiu no âmbito de um dos nossos centros, o CAO da Ajuda, por grande criatividade e disponibilidade da directora técnica, Filomena Abraços.

O projecto tem vindo a crescer de tal forma que, recentemente, apresentámos um projecto ao BPI Capacitar, que foi aprovado e que nos vai permitir dar uma maior dimensão e integrar essa actividade com outros pólos. É uma actividade que dá bastante prazer aos jovens, potencia e desenvolve capacidades. A capacidade de se exprimirem é estimulada, e o à vontade e a alegria com que o fazem também é estimulante para quem vê os resultados e para quem trabalha com eles.

Também têm lares residenciais para estes utentes?
Sim, é uma das respostas que foram criadas. Têm que ter mais de 18 anos para poder estar num lar. E estão por várias razões, que têm a ver com dificuldades da família, com a ausência de família, com opções da família. Temos quatro residências para um total de 90 utentes. Duas são em Lisboa - uma em Pedralvas, para deficientes mais profundos, outra para pessoas já com um grau de autonomia razoável, num prédio na Penha de França. As outras duas são em Almada e a outra na Alapraia, em Cascais.

A vossa instituição ajuda quantos utentes e quantas famílias?
Temos cerca de 800 associados e o número de utentes varia consoante estas respostas. No âmbito das residências, são cerca de 90. Nos Centros de Apoio Ocupacional, 250. Nas creches, 63. Nos Centros de Recursos para a Inclusão e Apoio às Escolas, cerca de 300. Alguns deles beneficiam de vários tipos de resposta conjuntamente, porque os que estão em residência também beneficiam de resposta de CAO. Temos também uma resposta de formação profissional, com cerca de 40 formandos em áreas como lavandaria, cozinha, limpezas industriais, jardinagem, que funciona na nossa estrutura em Almada. Com este município temos uma relação próxima de prestação de serviços, porque o transporte adaptado em Almada somos nós que o fazemos.

Como presidente desta associação o que é que o preocupa mais?
Manter a segurança da instituição em termos do equilíbrio dos recursos de que dispõe, para satisfazer as necessidades que deve satisfazer. Mas também nos preocupa a abertura a soluções inovadoras, como essa da rádio, e que as nossas equipas técnicas consigam ter disponibilidade e estímulo para pensar em novas formas de abordar as questões com que diariamente se deparam.

Contam com quantos colaboradores?
São cerca de 250 que, como se compreende, são o principal capital da instituição.

Entre as preocupações que enumerou, está a questão dos custos que tudo isto implica. É por isso que do programa comemorativo para este ano faz parte uma gala de angariação de fundos? É necessário recorrer a estes meios?
Naturalmente que sim.

O Estado não apoia a vossa actividade o suficiente?
Esta actividade e das congéneres tem uma fonte de financiamento básica que se traduz em acordos de cooperação com o Estado. Depois, temos os apoios das famílias, a comparticipação familiar é calculada em função do rendimento de cada uma das famílias. Portanto, as nossas fontes de financiamento são, de facto, o Estado, na ordem dos 75 por cento, e as famílias com 20 por cento. Os outros cinco por cento são de iniciativas diversas, como a gala, que vai ter lugar em Junho, em Lisboa. Estamos a procurar um local, que talvez a câmara de Lisboa nos possa disponibilizar, a própria Aula Magna. Depende também da natureza dessa iniciativa, que envolverá, seguramente, alguns momentos com os nossos utentes, que fazem teatro, fazem dança. É também uma oportunidade deles evidenciarem as suas capacidades e as suas competências, e uma oportunidade também para darmos a conhecer a instituição.

O programa comemorativo arranca já esta semana...
Na quinta-feira, 2 de Fevereiro, teremos uma missa na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, às 10h30, com a participação de um coro dos nossos utentes. No dia 4, haverá um almoço com os nossos colaboradores, em que iremos distinguir aqueles que completaram 25 anos na instituição. É um momento de reconhecimento, porque não é possível permanecerem 25 anos na instituição sem se identificarem com os seus valores. Em Junho, haverá a gala e, no final do an,o faremos uma festa de Natal, em que, pela primeira vez, tentaremos juntar as nossas várias estruturas numa festa com maior dimensão, porque a data também o justifica.

Fonte e reportagem em áudio: Renascença

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