Cuidado ao solicitar atendimento prioritário no Hospital de Abrantes

A minha nova crónica no jornal Abarca

Reclame também por mim! Estou cansada e farta! Reclame...mas faça isso, peça para mim também. Não imagina pelo que passo e o que aguento neste trabalho! Tudo isto, e muito mais, fui obrigado a ouvir em voz bem alta, de uma funcionária do hospital de Abrantes, só porque ousei questioná-la se estava em vigor a Lei do Atendimento Prioritário, nas consultas externas.

Todos os meses sou obrigado a dirigir-me àquele serviço para mudança de cistocateter vesical (equipamento que me permite esvaziar a bexiga). Jamais fiz valer, ali, ou noutro lugar a referida Lei, que me permite ter atendimento prioritário e evitar filas de espera. Lei recentemente alterada. Até porque nem sou apologista deste tipo de leis.

Questionei a respectiva funcionária porque me interessa saber até que ponto a Lei está a ser cumprida, e caso venha a precisar de a utilizar no futuro, saber se a poderei exigir. Fi-lo depois de esperar pela minha vez como todos os outros. Cheguei acompanhado pelos bombeiros que me transportaram, retirei a senha, verifico que á minha frente ainda se encontram quase 30 pessoas, aguardei como sempre o faço, e chegada a minha vez dirijo-me ao balcão, trato do que me levou até lá, e aproveito para fazer a pergunta a uma das três funcionárias a realizar atendimento, que por sua vez pôs a questão à colega ao lado.

Respondeu á colega que a sua chefe D…. a tinha informado que não era para dar prioridade a pessoas com deficiência...questiono-a do porquê e informei-a que iria aprofundar o assunto e até reclamar. Eu a conversar em tom de voz normal. Revoltada e em tom de voz alterado, a jovem começou a deitar cá para fora as frases do início do texto. Fez com que toda a gente presente na sala de espera, e não eram poucas, nos tivessem como alvo de atenção. Até parece que eu tinha cometido um crime.

Logo eu que detesto dar nas vistas. Deixei a Srª em histeria, ainda a falar em voz alta e fugi dali o mais rápido que pude e fui resolver o que me levou até lá. Enquanto aguardava noutro setor a mudança do cateter, resolvi procurar na internet o nº de telefone do gabinete do utente, e contato o respetivo serviço para falar com a tal D…., culpada, segundo a funcionária pela não aplicação da Lei, mas respondem-me que não se encontrava. Coloquei a questão, responderam que deveria estar a chegar e somente ela dominava o assunto.

Ao entrar na sala de tratamentos vejo-a a funcionária revoltosa a dirigir-se a mim, num estado ainda alterado, mas não para pedir desculpa, mas sim para continuar a reclamar da quantidade de horas que trabalha e do desgaste das suas funções, etc. E também para me comunicar que já tinha falado com a sua chefe, que a informou que me deveria ter dado prioridade, mas que entretanto se iria informar se as outras unidades hospitalares pertencentes ao Centro Hospital do Médio Tejo iriam por em prática a Lei.

Este episódio aconteceu em Dezembro, em Janeiro, na minha última visita, também não exigi prioridade no atendimento. Tirei a senha e fiquei a aguardar. De imediato sou abordado por uma Srª de seu nome Maria Manuela, residente em Tomar, a informar-me que tinha prioridade e deveria exigi-la. Transmiti-lhe o quanto fiquei sensibilizado com o seu gesto, mas preferia não fazer por ter tido uma má experiência da última vez que lá tinha estado.

Insistiu e mudou de estratégia. Eu iria ser atendido no lugar dela. Cedia-me a sua vez e ficava com a minha. Ainda tentei demovê-la pelo facto de ser de Tomar, cidade ainda distante, e á minha frente encontrarem-se 20 e poucas pessoas. Insistiu, e não tive como recusar. Felizmente ao chegarmos ao balcão, e após explicar que me cedia o lugar, a funcionária em serviço (não a outra), resolveu atende-la também naquele momento.

Na altura apeteceu-me por os olhos e ouvidos daquela sala naquele gesto e naquela Srª. Gostaria tanto de ter gritado bem alto o quanto o seu gesto me comoveu...sinceramente foi um momento que ficará gravado para sempre na minha memória. Não por me ter beneficiado. Nada disso. Mas sim pela beleza do gesto. Pela sua cidadania e partilha. Não sei porque não o fiz. Hoje arrependo-me muito de não ter tido essa capacidade. Seria uma maneira simbólica de lhe agradecer. Abracei-a, olhei-a nos olhos, tentei por palavras mostrar-lhe a minha gratidão, trocamos nº de telemóvel e tenho a certeza que ainda nos encontraremos e terei oportunidade de lhe continuar a agradecer, muitas e muitas vezes.

Se todos agíssemos como a Maria Manuela, o Estado não seria obrigado a criar leis absurdas para obrigar o outro a ser sensato e sensível de modo a perceber que vivemos em sociedade e nos devemos ajudar mutuamente.

Mas infelizmente atitudes tristes como a da funcionária do hospital de Abrantes, mostra que algo vai mal na nossa sociedade e que certas pessoas só praticam o bem se forem obrigadas por Lei.

SOBRE A LEI DO ATENDIMENTO PRIORITÁRIO

De acordo com o Decreto-Lei nº 58/2016 de 19 de Agosto passa a ser obrigatório disponibilizar atendimento prioritário nos setores público e privado. Têm direito a prioridade os idosos com mais de 65 anos que possuam limitações mentais ou físicas visíveis, as grávidas, as pessoas com deficiência que se façam acompanhar de atestado multiusos com grau de incapacidade igual ou superior a 60%, e os acompanhantes de criança de colo com idade igual ou inferior a 2 anos.

Estas regras não se aplicam aos serviços sujeitos a marcação prévia, a hospitais e centros e unidades de saúde, onde a ordem do atendimento é fixada em função da avaliação clínica e a conservatórias, no caso em que a prioridade possa resultar numa posição de vantagem.

Até 28 de dezembro de 2016 já existia a obrigatoriedade das pessoas com deficiência, idosos e grávidas beneficiarem de atendimento prioritário. A única alteração existente recentemente foi passar a ser crime o não cumprimento da Lei. A partir de dezembro os infratores, setor público ou privado, caso sejam denunciados, podem ser punidos.

Quanto ao sucedido no hospital de Abrantes a queixa seguiu para o gabinete do utente, ERS, DGS, INR, DECO, etc. Do hospital aguardo resposta sobre a sua posição se vão ou não cumprir a Lei.

Mas nem tudo é mau naquele hospital, como podem verificar no elogio que dirigi recentemente ás enfermeiras Maria João e Clara, neste mesmo espaço.

Comentários

  1. Acho muito bem,as pessoas que não tem problema destes não lhe passa pela cabeça o que por vezes estamos a pensar.

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