Meu Acidente - 3ª Parte

Continuação da minha história. Para quem não leu, aqui fica a 1ª Parte e 2ª Parte.

Minha primeira escara aconteceu no Hospital de São José. Foi na região do cóccix. Demorou imenso a cicatrizar. Para mim ter esse contratempo ou não era igual. Não tinha consciência de quase nada. Ninguém me informava, também não perguntava. Ao chegar ao Hospital de Abrantes, deitam-me numa cama com colchão de água. Foi nessa altura que comecei a ouvir falar em escaras. Disseram-me que aquele colchão me protegia dessa “coisa” que se chamava escara. Também me aconselharam a comprar uma almofada antiescaras. Pedi que me trouxessem uma. Trouxeram e começam os períodos sentado na cadeira de rodas manual. Lembro-me de ficar com pele dos pés e perna toda gretada. Com inchaço, e acho que devido a pomadas que me aplicavam, ficava muito esquisito. Não me mexia absolutamente nada. Só o pescoço.

Tinha muito mais visitas de pessoas que gostava, do que no Hospital de São José. Também estabilizei e comecei a dormir melhor. Foi em Abrantes que comecei a ter noção que minhas limitações seriam para sempre. Para isso muito contribuiu o continuar a usar algália, fralda e ver meses a passarem e melhoras nenhumas. Mas dias iam passando sem grandes alterações, até que começo com febres altas e muito mal estar. Descobrem que tenho uma tromboflebite. Perna muito inchada e quente. Custou mas passou. Foi pior episódio enquanto ali estive internado.

Mais ou menos um mês depois, sou transferido para a Clinica de Santo António na Reboleira (clinica particular nos arredores de Lisboa) e ai tive grandes problemas. Estruturas e tudo o resto muito bom, mas não sabiam como lidar comigo. Comecei a ter febre continuamente, hematúrias seguidas (urinar sangue), infecções urinárias seguidas e prolongadas. Um massacre! Não aguentava mais. Estava nos meus limites. Foram tantos episódios tristes que é difícil enumera-los todos. Desde introduzirem-me uma agulha no abdómen para chegarem á bexiga e a esvaziarem, até ficar semanas seguidas sem evacuar, tudo aconteceu. Quanto ao evacuar, aconteceu algo muito carinhoso no meio de tanta dor. Num outro quarto da clinica estava internada por causa de uma escara, uma moça paraplégica. Um dia chegou ao pé da minha cama, pediu-me que confiasse nela, mas que não contasse nada a ninguém, deu-me para tomar um comprimido (laxante) e explicou-me que iria pôr-me um supositório (mal eu sabia que hoje seria esse o meu sistema para evacuar…) . Esse seu á vontade e experiência devia-se aos vários anos que já se encontrava na cadeira de rodas.

Escusado será dizer que limpei pela primeira vez o intestino, mas consequências foram dolorosas. Como se exigiu muito do organismo, tive primeiras disreflexias, vómitos horas seguidas e muito mal estar.


Esta moça paraplégica a circular pelo meu quarto na cadeira de rodas com um grande á vontade e independência, fazia-me bem. Trazia-me muitas esperanças. Acho que pensava que na pior das hipóteses ficaria como ela. Se a porta do meu quarto estivesse fechada com um fecho bem lá no alto e fora do alcance das suas mãos, logo tirava o braço da cadeira de rodas e com ajuda dele a abria. Também me dizia que enquanto ela estivesse no WC não gostava que ninguém a incomodasse. Dizia para mim mesmo: boa, se ela vai á casa de banho, eu também irei…

Infecções e febre não me deixavam. Ficava horas seguidas com olhos fechados, no escuro e silêncio, todo molhado e com um recipiente á frente da boca para recolher vómitos. Momentos muito difíceis de passar.
Sou chamado a uma consulta ao Centro de Medicina de Reabilitação do Alcoitão, não me aceitam para internamento. Um enorme desgosto. Pois todos afirmavam maravilhas daquele centro. Que só eles nos reabilitavam. Volto para á clinica. Mais tarde saberão porque não me aceitaram. Felizmente uns dias depois sou transferido para o Hospital Curry Cabral em Lisboa, Serviço de Medicina Física e Reabilitação.

Também no Portal Vida Mais Livre

Continua…

Comentários

  1. Estamos sempre a aprender! Obrigado Eduardo.

    Uma grande e sofrida história de vida. O Eduardo tem de divulgar e editar... designadamente para ajudar os actuais e futuros doentes.

    Um Abraço, com amizade.

    Alberto

    ResponderEliminar
  2. para que é que uma pessoa sofre tanto?

    fica bem Eduardo

    um abraço:

    carlos encarnação

    ResponderEliminar
  3. ALBERTO, espero que de alguma maneira ajude alguém. A partilha é muito importante.

    CARLOS, tu também sofres-te e sofres tua parte, amigo.

    Obrigado pelo carinho.

    Fiquem bem

    ResponderEliminar
  4. Caro Eduardo, a tua partilha é motivadora para quem passa por tal situação delicadíssima. Para os outros, os que pensam que a sua situação de vida é muito difícil, é um abrir de horizontes e esperança ao ler alguém que viveu a tua experiência.
    Gostei da amiga que te ajudou a ter esperança e te passou alguns truques motivados pela sua própria experiência. Por isso a partilha é muito importante.

    Um forte abraço

    ResponderEliminar
  5. Passo frequentemente por este blog e sempre que o faço fico um bocadinho mais perto de compreender o sofrimento de alguém que vive com uma deficiência. A sua história mostra-nos tudo aquilo que não vem escrito nos livros, que não é divulgado. É preciso existirem pessoas como o Eduardo, que não sentem pudor em divulgar todo o sofrimento por que já passaram sem amenizar nada. Sempre que por aqui passo-me fico com o mesmo pensamento. O seu blog presta um grande e importante serviço a TODA a comunidade, com deficiência ou não.

    Desejo-lhe muita força

    ResponderEliminar
  6. Mário, foi muito dificil viver sem informação nenhuma. Até para conseguir falar com um médico era um drama. Acho que o eu estar sempre meio anestesiado e ausente, me atenuou essa parte.
    Aquela moça ajudou-me muito. Ela via a situação grave que me encontrava. Infelizmente não tenho referência nenhuma sobre ela. Adoraria encontra-la.
    Fique bem

    ResponderEliminar
  7. Anónimo, obrigado pelo seu comentário e elogiosas palavras. Apareça sempre. É muito bem vindo.

    Não posso e nem devo ter pudor. Há alguns pormenores que ainda evito tocar, geralmente os que vejo que em nada vão acrescentar. Mas desmistificar é muito importante. A falta de informação torna-nos ignorantes. Ao tornar públicos meus deficits, medos, problemas, angústias...mostro aos demais que somos iguais, não são só eles que passam por aquilo. Doutra maneira estaria a fugir á verdade. Gosto de ser eu, embora ás vezes expormo-nos não seja fácil.
    Fique bem

    ResponderEliminar

Enviar um comentário