180 kms em cadeira de rodas. Coragem, desespero ou revolta?

Friozinho na barriga...

Sobre a viagem de 180 kms em cadeira de rodas que iniciarei no próximo dia 23: http://tetraplegicos.blogspot.pt/2014/08/concavada-lisboa-em-cadeira-de-rodas.html uma leitora escreveu o seguinte: "É necessário ter muita coragem, desespero ou então muita revolta contra o sistema político para ter uma atitude destas. Que é muito digna pela parte deste tetraplégico..." Respondo: "São as três coisas, coragem, desespero e revolta".

Isto porque está a chegar a hora de me por à estrada. Em situações idênticas não sou de me por a pensar e preocupar como o que pode ou não dar errado. Avanço, e será o que tiver de ser. Mas depois de vários alertas para isto e aquilo, não é que senti um friozinho na barriga...A hora está a chegar, existe previsão de chuva para esses dias, e sempre são 180 kms que vou percorrer em cadeira de rodas, durante 3 dias, por estradas desconhecidas.

Um amigo pergunta: "tens quantos pneus e câmaras-de-ar subselentes?" Outro pergunta se nas perigosas curvas do Tramagal e sei lá mais onde, se era acompanhado por um veículo a avisar que circulava um veiculo lento. Claro que tento preparar as coisas de maneira a alcançar os objetivos propostos, mas nada mais que isso, pois a logística nunca é fácil, até porque neste caso estou praticamente sozinho a preparar tudo. Também já me perguntaram se levo uma caixa de ferramentas, se requisitei bombeiros. Há quem pergunte o que farei se chover, tiver frio de noite, outros se calor apertar, outros ainda como vou fazer para me alimentar, como carregar baterias da cadeira de rodas, etc.,

É claro que nem eu sei o que me espera, e se conseguirei ultrapassar obstáculos que venham a surgir! Nunca viajei mais que 4 kms num dia. Não faço ideia se a cadeira aguenta, existe o perigo de furarem os pneus, se meu organismo vai suportar o desgaste físico e mental, se terei perdas, algo mais grave...perigos...até porque todos sabemos como é cruzarmo-nos, ou ser ultrapassados por veículos pesados. Até parece que o vento nos vai derrubar.

Ano passado quando fui realizar a greve de fome, também fui alertado para eventuais perigos, mas nem sequer pensei neles, se o fizesse talvez nem avançasse, eu fui para a grave de fome convicto que tudo poderia acontecer, inclusive a morte. Desta vez irei com o mesmo espírito, preparado para tudo, e não vou mais uma vez parar para pensar. Única certeza que tenho, é que como vivo não é viver. Não quero esta vida para mim. Tenho direito a mais, quero mais, e enquanto tiver forças lutarei, desta, ou de outra maneira, mas lutarei sem medo, pois o direito a lutar esse ninguém me o pode tirar.

Como refere Merle Shain, só há duas maneiras de abordar a vida: Como vítima ou como um corajoso lutador. Temos que decidir se queremos agir ou reagir. Dar as cartas ou jogar com um baralho viciado. E, se não decidirmos como queremos jogar com a vida, ela joga sempre connosco.

A propósito, deixo-vos abaixo um texto do querido amigo Jorge Falcato, sobre o assunto que me leva a sair à rua:

IMAGINA-TE
Na cama.
O sol já te acordou e são horas de levantar.
Esperas.
Já cá deviam estar para te tirarem da cama, levarem-te para o banho, lavarem-te os dentes, pentearem-te.
Imagina que estavas à espera.
Na cama.
Que ninguém chegava.
E que não conseguias levantar-te. Nem tomar banho. Nem lavar os dentes. Nem penteares-te.
(O corpo é um peso)
Era fodido, não era?
Há quem viva assim. 
Todos os dias.
Todos os anos.

EU ACRESCENTO AO TEXTO: Isso quando temos alguém que nos possa abrir os estores para permitir a entrada do sol, e quem nos possa dar banho todos os dias. Já nem me lembro de ter esse privilégio de tomar banho dois dias seguidos. Banho debaixo do chuveiro, e não banho de gato na cama.

Eduardo Jorge

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