Ainda o assunto escaras...

No Portal Vida Mais Livre, escrevo sobre minhas últimas escaras.

Como já tinha comentado, durante estes meus 23 anos de tetraplégico até nem tenho sido muito afetado por escaras de pressão. Aconteceu durante o ano que fiquei internado após acidente (cóccix e trocanter direito) e há uns 9 anos no ísquio direito. Ambas só ultrapassadas através de cirurgia plástica.

De resto, foram acontecendo em várias partes do corpo, por variadas razões, algumas pequenas feridas. Principalmente, pequenos arranhões ou cortes e regiões vermelhas devido à pressão, mas sempre que isso acontecia, meu tratamento era evitar imediatamente exercer pressão sobre a região do corpo afetada, enquanto não houvesse cura total. Demorasse o tempo que demorasse. O que significava na maioria das vezes ficar acamado durante vários dias e até meses.

Mas devido à vida ativa que levo no momento (último ano de licenciatura, estágio e trabalho), pela primeira vez nestes anos de tetraplégico não pude evitar pressão sobre as feridas que me surgiram no ísquio (osso saliente da nádega), e é essa experiência que vos quero relatar.

Sem dúvida, que demoraram muito mais tempo a cicatrizar, mas por outro lado, aprendi que feridas também podem cicatrizar fazendo pressão sobre as mesmas. Sempre que amigos me relatavam que estavam com feridas nas nádegas e continuavam a sentar-se na cadeira, fazia-me muita confusão. Afinal, acabei por ter o mesmo procedimento.

Sinceramente, não consegui lidar como desejaria com a situação. Evitava esforços, movimentos com o tronco e me sentia inibido, afetado e até descrente, embora com vontade de experimentar e verificar até onde poderia ir. De segunda a sábado (dias que trabalho) ficava sentado na cadeira o menor número de horas possível, no domingo (dia de folga), dia de Natal, fim de ano e feriados, passava-os na cama, transferências nunca mais as realizei através da tábua de transferências, mas sim através do HandiMove, decúbitos na cama nunca aconteceram sobre as regiões do corpo afetadas...e pensos eram mudados todos os dias.

Cheguei a ter, em simultâneo, uma escara no joelho direito, unha grande do pé esquerdo, por baixo do pé direito, tornozelo e dois ossos salientes das nádegas. Neste momento, está resolvida a do ísquio esquerdo e, praticamente, cicatrizadas as do joelho, pés, tornozelo e há três dias que o penso da ferida do ísquio direito vem totalmente seco. Será que é desta? Quero acreditar que sim.

Sendo assim, embora continue a aconselhar que melhor tratamento de escaras de pressão é evitar pressão sobre a região afetada do corpo, sou mais um que a partir de agora passará a continuar a sentar-se na cadeira de rodas com ou sem feridas. É óbvio que dependerá sempre da evolução da situação e caso verifique agravamento, evitar a pressão terá que acontecer, mas uma coisa é certa, mesmo depois de tantos anos aprendi que talvez também seja possível curar feridas mesmo fazendo pressão sobre as mesmas.

Comentários

  1. Força amigo, não desanimes e cuida das zonas mais expostas ao flagelo de qualquer que passa a vida sentado em cadeira de rodas.

    Um abraço de saúde Eduardo.

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  2. Obrigado e espero que também já estejas completamente recuperado.
    Fica bem

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