A cadeira de rodas não entra nos meus sonhos

Na minha nova crónica no Jornal Abarca, escrevo sobre sonhos.

É mais um dia quente de agosto. Saio da aldeia e desço uma encosta por um pequeno carreiro de pedras soltas, que rasga a encosta em ziguezagues sucessivos, serpenteando entre estevas, moitas, alecrins, tojos e carquejas. O sol vai alto e o calor aperta, acelero o passo para chegar ao destino o mais rápido possível, mas os encantos da natureza fazem-me abrandar e parar por várias vezes para os saborear e sentir. Desta vez paro porque surge à minha frente uma videira secular de tronco grosso, toda enrolada numa pequena azinheira e coberta de silvas. Como é possível sobreviver naquelas condições tão agrestes?

Aqui na encosta as árvores são raras. Só existem nos vales mais abaixo. A videira está totalmente abandonada no meio do mato e asfixiada pelas silvas trepadeiras, talvez ali tenha nascido e nunca conhecido o que é ser regada, limpa e cuidada. Ainda por cima está repleta de cachos de uvas, não daqueles de bago grosso e vistosos que se encontram nos supermercados, mas igualmente bonitos para mim e sem dúvida muito mais saborosos. São doces como o mel. Alguns bagos já se transformaram em passas, outros foram esburacados pelos insetos e pássaros.

Ali fiquei sentado á sua sombra, a saborear um dos seus cachos e a olhá-la de ponta a ponta e a admirar aquela capacidade de adaptação. De repente um som estranho vem de um dos seu ramos entrelaçados na azinheira e invadidos pelo silvado, olho com atenção e eis que me deparo com um ninho de rolas. Um conjunto de paus e pauzinhos entrelaçados, aparentemente uma construção sem lógica, mas eficaz. Em criança os idosos da aldeia contavam-me que o ninho de rola era construído daquela maneira, porque quando Deus estava a ensinar os pássaros a construir os seus ninhos, as rolas atrasaram-se e não conseguiram chegar a tempo de aprender. Daí aquela maneira peculiar dos fazer. Um aparente monte de paus.

Saio dali pois a minha presença fez com que a rola abandonasse o ninho assustada. Continuo a descida da encosta encantado e feliz, e eis que surge o que me levou até lá. As água límpidas e calmas do Rio Ocreza no fundo do vale. Dispo-me totalmente, coloco a roupa com cuidado sobre um monte de juncos, sinto a erva fresca por baixo dos meus pés, e ao som do chilrear das rãs, chego-me junto á água, paro por momentos para apreciar pequenos cardumes de peixes bebés aos ziguezagues e felizes, ponho os dois pés na água e mergulho naquelas águas tão familiares que me abraçam desde criança e…acordo.

Levanto a cabeça meio confuso e sem saber onde estou, tento ver o que o escuro da noite não me deixa ver. Concluo que afinal estou na cama, sem me poder mexer, nem sequer é verão e nem eu conseguirei outra vez voltar àquele lugar onde fui tão feliz na minha infância.

Era somente mais um sonho e neles nunca entra a minha cadeira de rodas. Nos meus sonhos sou sempre livre. Porque será?

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