Pintor tetraplégico português expõe no Brasil

Lisboa, outubro de 1985. O aspirante a sargento da Aeronáutica, José Antonio Rodrigues Caldeira, hoje radicado em Sorocaba, então com 21 anos, cai do alto do telhado da casa cuja chaminé deveria pintar. Ele estava no local para ajudar o irmão no serviço, e pisou em falso no degrau da escada que usou para subir. Por ironia, o acidente ocorreu quinze dias antes de ele fazer o teste que definiria o rumo de sua carreira militar e que consistia num salto de paraquedas.

Caldeira, no entanto, ficou tetraplégico e passou a viver numa clínica especializada. Desde então, só consegue se movimentar do pescoço para cima. Passada a fase mais crítica do tratamento, teve, certo dia, a atenção despertada para o trabalho que um enfermeiro realizava. “Ele pintava os sapatos”, contou. Decidiu, então, fazer o mesmo. Para dar conta da atividade, usava um pincel seguro com a boca. Gostou tanto que, pouco tempo depois, estava colorindo peças de gesso. Em seguida, dedicou-se a pintar quadros.

Caldeira descobriu sua vocação e reuniu algumas peças que expôs na clínica. São desenhos de paisagens que ganham cor, vida, movimento. Pode parecer fácil, mas o trabalho envolve, também, noções de perspectiva, profundidade, sombreamento e textura, técnicas bastante complexas para alguém com as limitações da tetraplegia. “Não se trata de apenas colorir, mas de trabalhar detalhes da imagem. Uma folha, por exemplo, pode exigir tons mais ou menos acentuados. É preciso ter noção do conjunto e estar muito atento, concentrado”, explica Edimaura Passos, com quem Caldeira tem aulas três vezes por semana.

Edimaura diz que se tivesse dez alunos como Caldeira, seria “a mais realizada das professoras”. “Na verdade, eu mais aprendo do que ensino. Ele tem uma força de vontade, uma dedicação, e uma disposição para aprender, fora do comum”.

Encontro

Quinze anos depois do acidente, o pintor conhece a sorocabana Adriana Alves, que se mudou para Portugal em busca de melhores oportunidades. Ela conseguiu um emprego como cuidadora na clínica, e lá os dois começaram a namorar. Adriana e José Antonio se casam e decidem morar no Brasil. Aqui, ele se dedica ainda mais à pintura. Chega a trabalhar até oito horas por dia. “Se deixar, passa disso. Tenho de controlar, se não vira abuso”, comenta Adriana, em tom de brincadeira.

José Antonio faz parte da Associação de Pintores com a Boca e os Pés (APBP). A entidade, fundada em 1956 por Erich Stegmann, reúne artistas que têm o uso de suas mãos e dá suporte para que eles exponham e coloquem suas obras no mercado. “É importante que outras pessoas que passaram por aquilo que passei, saibam e possam conhecer o trabalho”, ele recomenda. Para outras informações, os interessados podem acessar o site www.apbp.com.br. Caldeira tem outra paixão: a escrita. Desde que dominou o teclado do computador, registra histórias e ideias. Chegou a produzir uma autobiografia que é avaliada por um conhecido. “Espero poder publicá-la, mas nem título ainda tenho para dar”.

O livro pode se chamar “Pintando a Vida”, nome também da exposição que Caldeira montou, com o apoio do vereador João Donizetti (PSDB), no espaço da Câmara Municipal, e que pode ser visitada até a próxima sexta-feira. Lá, estão reunidos 20 quadros pintados com a boca. A mostra fica aberta das 9h às 17h, e a entrada é gratuita. O artista diz que “não há limites para quem quer alcançar o seu objetivo”. “Uma cadeira de rodas não nos distancia do sonho, da capacidade de produzir uma obra artística, ou de acreditar que podemos fazer o melhor. Basta querer”.
Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul

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