AVC: Também é preciso «cuidar de quem cuida»

Liliana Ferreira é psicóloga. Faz parte da equipa técnica do projecto «Cuidar de quem cuida», que nasceu na região entre Douro e Vouga. O projecto, apoiado pelo Alto Comissariado da Saúde e pela Fundação Gulbenkian, junta os concelhos de Santa Maria da Feira, Arouca, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis e Vale de Cambra, numa missão para apoiar, em exclusivo, os cuidadores de doentes de acidente vascular cerebral (AVC) e Alzheimer. Fala do programa como quem fala de um filho.

No terreno desde Junho de 2009, já «abrangem 100 cuidadores», mas querem chegar aos 400. Como ponto de partida foi traçado o perfil do cuidador na região: «89 por cento são mulheres, na maioria, esposas ou filhas». Mulheres que, «pela sobrecarga e pelo afinco com que se dedicam ao doente, estão pouco direccionadas para si» e, por isso, apresentam «níveis de ansiedade» muito grandes e mostram-se «fragilizadas».

A primeira linha do projecto promove o trabalho com estas pessoas em grupos de intervenção psico-educativa. São dez sessões que contam com a presença de um psicólogo, um enfermeiro e um técnico social. «Depois» destas sessões, incentivam a criação de grupos de ajuda mútua entre cuidadores. O balanço é excelente. «Em 100 cuidadores de doentes com AVC, houve apenas três desistências», e mesmo estas saídas foram justificadas. Liliana Ferreira explica o sucesso porque estas pessoas «têm muita necessidade de conversar» e encontram nestas sessões «um escape». Conheça aqui a «Hora da Liberdade» dos cuidadores de doentes com AVC, em Barcelos .

Ir ao cabeleireiro sem se sentir «culpada»

Mas, os objectivos do projecto vão mais além. A «muito curto prazo» a segunda fase será posta em prática. Entram em acção os cuidadores «formais», ou seja, uma bolsa de cuidadores com formação avançada que, neste momento, já só aguardam pela certificação. Estas pessoas vão prestar cuidados de saúde e higiene ao doente, que permitem libertar o cuidador. A família pode «contratar» estes técnicos, o que acaba por «criar alguma empregabilidade» na região.

E se esta pode ser uma opção diária, o projecto quer dar igualmente soluções para internamento temporário e, quiçá, o cuidador poder tirar umas férias. Só que, na região, há «50 instituições e apenas em oito existe este tipo de resposta».

Ainda numa fase embrionária está, também, a bolsa de voluntários. Apesar disso, já há candidatos e, surpresa, «os principais interessados são antigos cuidadores a quem os familiares faleceram». Mas, atenção, estes voluntários vão «prestar apoio ao cuidador e não ao doente». Pode ser só para fazer companhia àquela esposa ou filha, que passa horas e dias fechada em casa.

Liliana sente-se grata por este trabalho. O programa «Cuidar de quem cuida» vai durar quatro anos, mas «com um ano de vida já fazemos a diferença na vida de muitas pessoas». Diferenças que se fazem notar em «pequenas coisas, pequenos gestos», como ver estas mulheres irem ao cabeleireiro ou ao café e não se sentirem «culpadas».

O lema é «cuidar do doente na mesma, mas cuidar de si também», porque, no fundo, «ao melhorarmos a qualidade de vida do cuidador, o doente também sai beneficiado».
Fonte: TVI24

Comentários

  1. Sei bem como é. E não é só a ansiedade ou a fagilidade, é também a solidão.
    Abraço e parabéns pelo blog!
    Madalena

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  2. Isso é um ótimo projecto!!Parabéns!Espero que esse projecto se expanda para outras cidades! Sei bem o q um cuidador passa, tendo de cuidar da filha tetraplégica e do marido com 3 avcs. Embora e graças a Deus, não tenha atingido movimentos, atingiu a fala, deixou de falar, o q é preciso mta paciência porque n entendemos o q ele quer falar, e deixa-o angustiado, além dos 18 comprimidos por dia, q implica sempre q minha mãe esteje em casa nesses horários. E, o cuidador vai envelhecendo, perdendo forças fisicas e psicologicas.Torço p que esse projecto se expanda em outras cidades!

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  3. M, tem razão.

    CAROL, se o Estado cumprisse com o seu dever, teríamos cuidadores por vocação e opção. Nunca por obrigação. Isso faz muita diferença.

    Fiquem bem.

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  4. Já falam na Bolsa de Voluntários... embora em fase embrionária, vamos ver...
    Bolsa de voluntários para estes e outros cuidadores, é uma excelente aposta, porque existe necessidade e procura, mas há que haver um grande trabalho de formação e análise de competências à priori, pois o voluntarismo não chega...

    Abraço Eduado
    Sininho

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  5. E há cuidadores e cuidadores, Sininho! Conheço alguns casos em que o cuidador é o 1º a piorar a situação do dependente.
    Não sei se te referes a este caso: http://www.bolsadovoluntariado.pt/
    Fica bem

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