sábado, 5 de junho de 2010

Équelé por todó lado

Poucas horas atrás, num Pingo Doce situado dentro de um pequeno centro comercial da área de Lisboa, depois de ter feito as minhas compras meti-me na fila para uma das caixas, onde fiquei atrás de um casal na casa dos cinquenta, ele numa cadeira de rodas. Dada a pequena dimensão do supermercado, nenhum dos que já se encontravam anteriormente na fila se apercebeu da aproximação dos três, situados ainda no corredor entre as prateleiras.

Conversando entre si, o casal aguardava a sua vez de ser atendido, embora a caixa estivesse destinada a atendimento prioritário de grávidas e deficientes. De súbito, irrompendo por trás de mim, uma senhora dirige-se a ambos, vociferando: “O senhor não precisa de estar aqui à espera! O senhor tem o direito de ser atendido em primeiro lugar! Vá, passe à frente!” E avançou em direcção aos outros clientes, apanhados de surpresa: “Desviem-se! Vá, avance!”.

Tanto ele como ela, igualmente surpreendidos pelo tornado de olhos arremelgados e voz comicieira, só tiveram tempo para dizer: “Não é preciso, obrigado! Não estamos com pressa! Deixem-se estar!”, recusando, delicadamente e com um sorriso, a passagem ao primeiro lugar da fila. Mas a mulher insistia, voltava atrás e abria caminho, agora em direcção a outra caixa, chamando o casal com acenos para aí serem atendidos em exclusivo, continuando a clamar pelos direitos de que ele deveria usufruir.

Perante a notória falta de disposição de ambos para acatarem a direcção da sua justa iniciativa, já depois de duas funcionárias, alarmadas pelo alarido, os haverem inquirido sobre o assunto, a mulher voltou para junto deles. Foi então que o homem, aproveitando uma pausa na respiração lhe disse: “Minha senhora, eu faço valer os meus direitos excepcionais, quando isso me é necessário, o que, de momento, não é o caso. Por isso, hoje aguardo a minha vez como qualquer dos outros que aqui estão.”
A senhora engasgou-se, tartamudeou qualquer coisa, mas não se deu por vencida e continuou: “Pois… mas deve exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos! Tem que exigir os seus direitos”. E afastou-se, a voz a diluir-se pelos corredores, deixando um rasto de comentários, mais ou menos favoráveis.

A cena lembrou-me uma outra que presenciei há uns anos, desta vez num hipermercado, também com um casal com as mesmas características. Ele deslocava-se ao lado dela, que empurrava um carrinho a transbordar, tendo passado à frente dos restantes elementos da fila. Quando já se encontravam longe da caixa, uma cliente comentou para uma outra, que a acompanhava: “Na próxima vez que vier às compras, também trago um deficiente…”.
Andou tanto português de um lado para o outro durante séculos e nenhum conseguiu encontrar uma especiariazinha que fosse para, ao menos, dar um temperozito que torne suportável a tacanhez militante e a má-fé dissimulada que enchem este cantinho de terra tão bonito…
Fonte: Portugal e outras touradas

ACRESCENTO: Delicioso e oportuno este texto e assunto do meu querido Joaquim Simões. Todos nós já passamos por situações idênticas.

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